sexta-feira, 20 de maio de 2016

Cidade vindimada


Imagem da net, em: www.quantocustaviajar.com



Pintam os bagos da felicidade
em cachos de renovada alegria,
nas vinhas fingidas da cidade
entre linhas onde cintila a poesia.

Aloiram-se tantas parras dispersas
num encanto porque tanto se cisma
e as gentes movem-se desconexas
ensaiando uma nova vindima.

Soam os cânticos pelo campo-chão,
as cestas se enchem do futuro vinho
nesta azáfama da compensação.

Da terra lhes descobre o caminho
e à cidade aporta a sedução…
pela noite, se dormem de mansinho.

 
António MR Martins

Joaquim Alves





XLIII

 
Baixo os olhos à torrente de água que nos liga.
Os teus olhos prendem-se atentos
ao lento declinar da tarde
e espantam-se.
A água não mais é cor de água.
Transporta, num turbilhão de nervos,
o nosso sangue,
à procura de repouso
no interior mais fundo da terra.

 
Joaquim Alves, in “ Amar Mata”, página s/n.º, edição do autor, 2015.

segunda-feira, 16 de maio de 2016

Ana Wiesenberger





[Quero desfilar nua pela floresta]

Quero desfilar nua pela floresta
E sentir a urze e o musgo a misturarem-se
Por entre os dedos dos meus pés
Quero deitar-me sobre penedos e respirar em cada músculo
As arestas frias e sólidas do tempo

Quero envolver-me numa relação fútil com o sol
E deixá-lo levar-me à praia, de barco e de biquíni

E quando a noite chegar, não me farei rogada, lua
Abraça-me na tua luz fria e misteriosa
Revela em mim as partes hesitantes do meu ser ancestral
E impregna o meu corpo de magia

E como tu me compreendes e sabes, que eu não sei ser fiel
Deixa-me no areal a dormir, para a luminosidade doce do
sol paciente
Me acolher
Numa concha de maresia

Ana Wiesenberger, in “Idades”, página 24, edições Esfera do Caos, Maio de 2012.

quinta-feira, 12 de maio de 2016

Consequências inconsequentes


Belas - Quinta Nova da Assunção, por António Martins


A cal despejada
Incendeia um frio hirto
Entre as arestas consumidas
De um tempo sem tempo

Um conforto
Desconfortante
Sem fuga
Determinante

Mas essa cal
Ajeita muralhas
Entre as paredes do pensamento
Que inventam corridas
E passeios de ribalta

Noutro sentido
(Talvez figurativo)
A água se queda
Na piscina da redenção

Até que se abra um feixe
Pelo bracejar
Da insatisfação
Ou da mera ilusão
Omitindo cada presente

 
António MR Martins

quarta-feira, 11 de maio de 2016

Recordando o meu saudoso amigo e notável poeta Vítor Cintra





Pombal

Primeiro foste castro, bem antigo,
Que Roma transformou em fortaleza.
Depois um templo godo, convertido
P’los mouros, em muralha de defesa.

Mas quando Afonso Henriques conquistou
As terras, deu à Ordem dos Templários
Mandato e Gualdim Pais edificou
Castelo, nos seus modos já lendários.

E, quando pelo Papa foi extinta
A Ordem conservou-te, mas distinta
No nome, por acção de Dom Dinis.

Jamais tu conheceste uma derrota,
Nem quando aconteceu Aljubarrota,
Fiel a Dom João Mestre d’Avis.

Vítor Cintra (1941-2015), em “Na Senda dos Templários”, página 26, edições Lua de Marfim, Fevereiro de 2015.

sábado, 7 de maio de 2016

Lília Tavares






SEGREDO

Quebrados
o vazio e o silêncio das águas,
segredo-te
que
o que tenho para te oferecer
nesta tarde apenas desenlaço
na intimidade dos ventos.

Lília Tavares, in “evocação das águas”, página 38, edições Seda Publicações, Novembro de 2015.

Tudo cai minha gente


Imagem da net, em: www.pt.wikipedia.org



Caem breves pela noite
pedaços de frio cortante,
doendo como açoite
na pele quase distante.

Caem farrapos sofridos
na madrugada perdida,
como sórdidos bandidos
infectam tanta ferida.

Caem gotas repicadas
que ferem os secos ossos
e as mentes violentadas
têm pensamentos jocosos.

Caem praxes do inverno
alteradas sem ter causa,
o agreste se faz terno
a cada tempo de pausa.

Caem pás e picaretas,
bigornas e martelos d’aço;
enquanto tantas caretas
perdem aqui seu espaço.

Tudo cai, de grosso modo,
e o que falta inventar,
eu cá não me incomodo…
deixem o comboio passar!

António MR Martins

terça-feira, 3 de maio de 2016

José Ilídio Torres






Da estranha anatomia dos ventos

vens lavar-me os pés com as minhas lágrimas
perguntas-me pelos poemas para me enxugares
e eu, como um arroto de Deus, como um sapo
expludo em pés de laranja-lima, depurado

mais tarde, no recanto absurdo de um coração
planto hortas, corto voos aos patos, mato galinhas
sou muito mais que uma navalha, o corte

rio-me de pássaros, rasuro aviões que passam
jogo à bola com um sorriso de trapos

e no mais recôndito de um afago
entre o desejo e a carne
há um veleiro morto num quintal

pode soprar o vento por umbrais
pode haver um querer maior que cais
pode haver facas onde nunca se suspeitou de
punhais

e ser até o amor, um somatório de coisas banais

 
José Ilídio Torres, in “Dissertação escusada sobre a solidão das árvores”, página 48, edições Lua de Marfim, Abril de 2016.

A palavra da vida


Imagem da net, em: www.elo7.com.br



Há uma toponímica invisível
No espaço do nome esquecido
Onde não moram mais letras
Com que esse nome se escreve
E se diz.

Há um tempo diferente para o poeta,
Entre as páginas da vida.
As passadas,
As presentes,
As futuras.

Por fim,
Ficam outras palavras.

Outras se esfumaram,
Aqueloutras memorizaram-se.

Eternizando-se
Aquelas que definem
O grito da própria vida

 
António MR Martins

quinta-feira, 21 de abril de 2016

Xavier Zarco





CHAFARIZ DOS OLIVAIS

desenha o poema
o rumor da água

as mãos entregam-se à descoberta
das líquidas palavras
da terra

onde se abre a boca
e nasce a voz dos artífices

eis a pedra
a mãe de todas as árias

a ópera da vida

Xavier Zarco, in “Coimbra ao som da água”, página 20, edições Temas Originais, 2009.

25 de Abril de 2016


Imagem da net, em: www.kids.pplware.sapo.pt


Ai Abril de tantos e tantos sonhos
num facebook com inúmeros gostos,
trazes, hoje, pesadelos medonhos
com tanto pobre a pagar impostos.

Tantos discursos supérfluos-banais
tanta gente a falar, sempre, de cor,
tanta busca de paraísos fiscais
tanta destreza para criar “offshore”.

Tanta indulgência sem ter castigo
e de soslaio vemos tanto sem-abrigo
numa liberdade por se festejar.

De setenta e quatro és esquecido
com tanto capitão já omitido…
quem me dera te poder reencontrar!...

António MR Martins

sábado, 16 de abril de 2016

Severino Moreira





MAL MENOR

Vem até mim a solidão reinando
E chega nua e possante,

Com garras apertando
A revelar-se castradora e angustiante.

Sinto-a perigosamente em desmando
Abeirando-se obscena e abundante,

E mesmo que aporte branda
Ela impera pesada e arisca e aviltante.

Mas todo o mal traz um bem:
A solidão protege-me de gente farsante!

Severino Moreira, in “Desconexões (andar pelas fragas do caminho)”, série “mínima”, n.º 20, página 17, edições Temas Originais, 2016.

Navegando em tuas águas


Imagem da net, em: www.mensagenscomamor.com



Embarquei pelas vestes que detinhas
e naveguei no corpo do teu olhar;
dentro do esplendor de tuas vinhas
trouxe bagos para este marear.

Escolhi dispersas rotas nos contornos
onde o fragor cintilou seu brilhar,
desvendando em êxtase os adornos
que fortalecem maior apaixonar.

Flutuei inebriado em prazer,
içando velas ao vento sem ceder,
com a singela proa à descoberta.

Desfaleci olhando o destino
seguro ao leme sem perder tino
num enlace forte, à hora certa!...

António MR Martins

segunda-feira, 11 de abril de 2016

No Dia Mundial da Doença de Parkinson, a minha singela homenagem a um grande sofredor/lutador: Rogério Martins Simões (Romasi)




Por que sou triste?

Saber, quero saber, por que sou triste.
Querer, por mais querer, o riso ensejo.
Chorar? Não mais chorar é meu desejo.
Saber por que razão meu choro insiste?

No meio deste silêncio, e que persiste,
Razão tem a razão em que me revejo.
Chorar será o clamor do meu arpejo.
Saber, quero saber em que consiste.

Perguntei ao meu rio Tejo, a soluçar,
Que me desse a razão deste meu estar:
Saber, quero saber que fiz de errado?

Sorrindo para mim para que o visse,
Cuidai desse teu riso, e mais me disse:
- Chorar, e mais chorar, será teu fado…
Meco, Praia das Biscas, 2013-12-12
 
Rogério Martins Simões (Romasi), in “Golpe de Asa no Sequeiro”, página 40, edições Chiado Editora, Maio, 2014.

quinta-feira, 7 de abril de 2016

Francisco José Lopes





Desencontros

Tenho a recordação
na mão direita
e na esquerda a vontade
de uma vida.
Tenho nas mãos o destino
e não lhe encontro o sonho.
Quisera fazer com estas mãos
o som de outra cantiga
e transformar este desejo
em realidade sentida.
Tenho nas mãos o sonho
e não lhe encontro o destino.

Francisco José Lopes, in “No tempo das musas”, página 39, edição do autor, 1999.

 
******
 
 
Francisco José Lopes é natural de Alfândega da Fé, a sua actividade profissional tem-se desenvolvido essencialmente na educação e no ensino, com algumas incursões  nas áreas da cultura e da comunicação. in "No tempo das musas" (seu primeiro livro de poesia).