quarta-feira, 11 de março de 2020

Alucinante desvio


Imagem da net.




Assumem inaudíveis decibéis
as irreverentes
gargalhadas do desprazer.

Tornam-se aguerridas
as forças da audição

todas as outras
se encontram em relativa
inesperada manutenção.

Os espelhos não se atrevem
a digitalizar as imagens
que lhe surgem pela frente.

Um corrupio de vozes desafinadas
tenta decifrar o indecifrável

e a montanha
continua à espera de parir 
o tal rato!...

António MR Martins

Março de 2020

quinta-feira, 5 de março de 2020

Ana Cristina Alves




Ana Cristina Alves. Imagem facultada pela autora.




Felicidade

Um pinheiro espreita-te da janela
Espalha o verde na tua alma.
Com tanta calma.
Agradeces a cortesia.
Só numa árvore encontramos
toda a sabedoria.
Ser feliz é tão fácil,
quando o sol se despe
do calor de verão,
dando corda ao relógio do mundo
com magia e exatidão.

Ana Cristina Alves, in “RAEM 20 Anos”, Poema 1, com ilustração de Carlos Marreiros, edições Casa de Portugal em Macau, Novembro de 2019.

terça-feira, 3 de março de 2020

Ultimada hecatombe


Imagem na net.


Tocam os sinos
que ultimam a derrocada
dos palácios
da soberba clandestina
vomitada em todos os recantos
da discórdia permitida.

Desconstroem-se as ilusões
adquiridas pelo dinheiro
dos sacos azuis e de todas as cores
e a disparidade
tende a tornar-se igualitária.

Tudo se derruba
numa naturalidade exponente    
e a destruição se completa
por breves momentos
e a igualdade assume-se
pela morte que esbraceja
em plena liberdade.

António MR Martins

Fevereiro de 2020

segunda-feira, 2 de março de 2020

Angústia


Imagem na net.



O desagravo territorial
não desprende a efervescência
intemporal do imo.

Os semblantes
desmascaram-se amiúde
e percorrem despidos
espaços proibidos a sol aberto.

As cores desvanecem 
envolvendo-se de acinzentados clamores
e a impaciência enraíza-se
no poente da solidão.

Até as aves 
amedrontadas
tornam seus cantos mais sombrios.

António MR Martins

Fevereiro de 2020

sábado, 29 de fevereiro de 2020

“Coronidade das coisas”


Imagem na net.


Alvitram-se os sentidos virais
da morte estabelecida.

Entre a partida e a chegada
não se conhece a origem
e tudo descamba
na ansiedade do desconhecimento.

Apegam-se os “coronas”
da existência
como lapas assolapadas.

A disparidade dos acontecimentos
influencia 
um discernimento ridículo
e despropositado.

O vírus busca novos horizontes!...

António MR Martins

Fevereiro de 2020

quinta-feira, 27 de fevereiro de 2020

Tragam a máscara


Imagem na net.




O nevoeiro desce à cidade
e a passagem da gente rara
manifesta-se equivocada
num deserto de ideias.

O paradigma do inalcançável
e a razão que não dominamos
ultrapassam todos os condimentos da mente.

Não existem apetrechos
para desvendar este dilema.

Tragam a máscara
para desmascarar 
todos os procedimentos
pecaminosos
da Humanidade!

António MR Martins

Fevereiro de 2020

quarta-feira, 26 de fevereiro de 2020

Como se irão sentir as duas mortes no Irão




Imagem na net.




O medo contrasta
com as infecções
pelo coronavírus no mundo.

Do Irão a surpresa
com duas súbitas mortes
vindas do inesperado nada
nas terras de quase ninguém.

Como poderemos explicar
a circunstância aleatória
destes novos dados?

Que irão dizer?
Que irão fazer?
Que irão sentir?

Sobre a surpreendente
e triste notícia
vinda daquele recôndito lugar 
no Irão?

António MR Martins

Fevereiro de 2020

segunda-feira, 24 de fevereiro de 2020

Conferências de imprensa


Numa das conferências de imprensa diárias do
Centro de Coordenação do Novo Tipo de Coronavírus.
Imagem da net.




São dezassete horas
mais perguntas e respostas
que soam a repetições
e transportam agressivas
palavras sem sabor.


São dezassete horas
sentam-se alguns responsáveis
ordenadamente
com a máscara da expressão escondida
e olhares medrosos
sob a égide da questão seguinte.


São dezassete horas
inquirem-se as mórbidas sentenças
e a apaziguadora resposta
não atenua a espera
da esperada mensagem
que não chega!


António MR Martins


Fevereiro de 2020

quarta-feira, 12 de fevereiro de 2020

Gonçalo Lobo Pinheiro


Gonçalo Lobo Pinheiro



Mensagem


Se souberes como me chamar, chama.
Podes sempre chamar-me.


Diz o meu nome ao sol nascente
E soletra cada letra que o compõe.
Podes, também, escrevê-l0 nas paredes da tua rua.


Ao passares lembras a minha existência noutro lugar que não o teu.


Envia-me a mensagem que estás aí,
Que eu te ouço ao longe, na passagem do tempo,
Onde a distância nos devolve um ao outro virtualmente.


Gonçalo Lobo Pinheiro, in “RAEM 20 Anos”, Poema 12, edição Casa de Portugal em Macau, Novembro de 2019.

terça-feira, 4 de fevereiro de 2020

embaraçosa utopia


Imagem na net.




há uma exponente claridade
entre as brechas
da contemplação inesperada


uma esfera colorida
iluminada
e perturbante
mas inédita ao olhar


o observar culmina
num vislumbre incomparável
mas belo
simplesmente


um desnudar
sem limites
um paralelismo
sem paralelo
um desfecho
impensável
uma luz inconcebível


a plenitude
passou por aqui


António MR Martins

sexta-feira, 31 de janeiro de 2020

Fernanda Dias


Fernanda Dias, imagem na net.




[Nada se compara à rosa musgosa]


Nada se compara à rosa musgosa
nem jades nem sedas nem perfume
fazem sombra à sua cor e aroma
mais que o veludo a cor me acaricia
da pétala a pequena forma enigmática
traz-me à memória uma ponta de flecha
uma abelha de bronze fina e heráldica


Centifólia que nada sabes de ti mesma
e me arrebatas os sentidos
é pelos espinhos que me assombras
pelas armas aceradas que ostentas
é que és simétrica ao pacífico lótus




Fernanda Dias, in “O Mapa Esquivo”, IV – Caderno de flora urbana, pág. 111, edições Livros do Oriente, Macau, Abril de 2016.

sexta-feira, 24 de janeiro de 2020

Henrique Levy


Henrique Levy, foto de Dulce Gonçalves.




Canção


se nós trocarmos beijos
numa noite de filigrana
e os teus passos se prenderem
aos doces beijos divinos
meus lábios os escondem
em uma arquinha de cristal
lado sul do corpo
todo, todo em catedral
se tu meu anjo beijasses
as folhas todas do outono
eu em árvore morreria
de tanto, tanto abandono
neste jardim há lugar
para todos os tesouros
vem amor em mim buscar
as pratas os diamantes os ouros.


Henrique Levy, in “RAEM 20 Anos”, Poema 13, ilustrado por Patrícia Mouzinho, edição Casa de Portugal em Macau, Novembro de 2019.

sábado, 18 de janeiro de 2020

Cena fugaz


Imagem da net.



Como incomodava
aquele olhar, 
perante a ténue luz
que acendia a noite.


A espera parecia programada
e os sabores imaginários 
interpretavam a permitida espera.


A sede era irrelevante.


O suspirar anunciava-se
a cada presença lúcida
daquele inquietante olhar,
que tanto incomodava.


Então 
a palavra escondeu-se
entre os subtis verdes versos
dum poema
que não se escreveu.


António MR Martins

quarta-feira, 15 de janeiro de 2020

Fernando Sales Lopes


Francisco Sales Lopes. Foto de António Mil-Homens


Pescador de margem

Ah quem me dera
estar aí
ter um rio
só para mim
Lentamente 
armar a rede 
e içar a esperança
Firme
sem estar em terra
Estendido na água
sem andar à deriva
E viver!
De costas voltadas
como tu


Fernando Sales Lopes, in “RAEM 20 Anos” (livro + cd), Poema 11, edições Casa de
Portugal em Macau, Novembro de 2019.

quarta-feira, 8 de janeiro de 2020

Página em branco


Imagem na net.




Derrapei nas palavras esquecidas
que hoje não se soltam do meu peito,
na cabeça só me surgem as sofridas
e não me inspiram do mesmo jeito.


Sem enredo que possa desenvolver
nesta branca estagnadora da mente,
filtro dum vazio que não sei percorrer
no íntimo de mim que nada pressente.


Perguntas ligeiras sem ter respostas
versos figurativos sem ter teor…
percursos furtivos nas suas apostas.


Anseios esfumados pelo dissabor,
entre as dores de pernas ou costas,
página em branco sem qualquer sabor.


António MR Martins