sexta-feira, 18 de agosto de 2017

João Luís Barreto Guimarães


João Luís Barreto Guimarães, imagem da net.




Em segunda mão

Uma
casa de artigos à venda em segunda mão é
o lugar ideal para conheceres alguém. Puído
cerzido
mais sábio (a utopia perdida quanto à
duração do amor). Uma loja de usados é
o local ideal para revenderes a tristeza
(livrares-te da ilusão de que a inocência persiste)
deixares cair o apelido que trazias
algemado. Aí
entre coisas raras (sem uso
à espera de vez) está alguém a quem o tempo
ensinou a temperança
(alguém a quem o pesar ministrou paciência)
que recebeu em esperteza o que entregou em
esperança. Numa casa de artigos à venda
em segunda mão quem sabe tens para dizer
o que alguém vem escutar.

João Luís Barreto Guimarães, in “Mediterrâneo”, página 68, edições Quetzal Editores, Março de 2016.

quinta-feira, 17 de agosto de 2017

Nas marcas da areia


Imagem da net.



Na areia molhada a dois tempos
onde se transformam tantos costumes,
se recriam antigos passatempos
e se instalam perdidos cardumes.

Nova onda se espraia na areia
demonstrando tamanhas evidências,
do oceano não surge qualquer sereia
e água se esvai pelas saliências.

Neste filtrar de enorme beleza
puro representar da natureza
navegam as ondas, no seu vai e vem.

Pelo embalar delicado ou rude
belo marear de grande virtude
e o partir ou chegar me faz refém.

 
António MR Martins

domingo, 13 de agosto de 2017

António Duarte Mil-Homens


António Duarte Mil-Homens, imagem da net.



Poema que alguém não escreveu

Não me consolem!
Não me confortem!
Não me adormeçam o ódio!
Deixem-me soltá-lo e bebê-lo!
Quero respirá-lo e sê-lo!
Quero programá-lo e dizê-lo!
Não mo apaguem!
Não mo corrijam!
Não o estanquem!
Deixem correr…
Quero espalhá-lo ao escrevê-lo,
e para o escrever preciso tê-lo.
Quero fazer dele o ébola
em que cada um de vós,
ao lê-lo, sinta incubar,
virulenta, a indignação,
o medo, o horror,
quiçá a admiração,
o pasmo, a revolta…
mas não o sono, a indiferença.
Que seja a cura ou a doença,
jamais o mono, o forra estantes,
o objecto decorativo.
Figurativo, nunca! Antes abjecto!
Quero que o tenham à perna,
vingador e vingativo
dum passado que vomito,
que exorciso quando escrito.
Que não se afoga no tinto.
Que não se dilui quando o pinto,
disforme e feio.
Que não se cala quando o grito!
Que não me importa se o minto,
se assim o sinto…e ODEIO!!


António Duarte Mil-Homens, in “Voda ou Morte duma Esperança anunciada”, páginas 61 e 62, Edição de Autor, Macau, Setembro de 2010.    

quinta-feira, 10 de agosto de 2017

Naturalidades



Imagem da net.




É mesmo natural
o paladar das coisas simples
e a estratégia que as define,
sem modos,
sem preconceitos,
sem devaneios,
sem a ávida intenção
de uma crua resolução,
à imagem do prevaricador.

É mesmo natural
o respirar da revolta permitida,
porque nada supera
aquilo que é (im)possível fazer,
mesmo que vá para lá
de toda a imaginação.

É mesmo natural
o sonho,
a esperança,
o desejo,
na vida existencial…
mas tão difícil de alcançar!..

 
António MR Martins

domingo, 6 de agosto de 2017

João Carlos Esteves


João Carlos Esteves, imagem da net.



CREPÚSCULO

Suavemente chega o crepúsculo
com os seus cambiantes serenos
e reflexos fugazes
como etéreas folhas em queda
das árvores outonais

Arauto da noite próxima
prenúncio das horas leves
dos silêncios confortantes
e das solidões incógnitas

Refrescantes sombras crescentes
espalham-se sobre o cansaço
dos momentos já esgotados
na azáfama do dia
como um manto protector
de oblívios perdões

Efémera presença a tua
de brandos momentos tingidos
com tonalidades difusas
transitórios pedaços em mescla
de um bulício angustiado
e de um sossego ansiado

Cai a noite repousante
com os seus véus de mistério
encerrando a magia tépida
do crepúsculo passageiro

 
João Carlos Esteves, in “Gotas de Silêncio”, página 35, edições Temas Originais, 2011.     

Sólido perfume


Imagem da net.



Nalguns suaves cheiros-perfumes
envolvência de simples sensação,
permitindo esquecer azedumes…
benigna solidez da moderação.

Aromas esfumando cicatrizes
afagando a pele adormecida,
vivas mensagens com novas raízes
fortalecem e alegram a vida.

Fomentam surgir várias nuances,
sãs fragrâncias de tantos romances
que rejubilam múltiplos semblantes.

Suco festivo das mais belas flores
no trânsito de inúmeros amores
alto pecúlio para muitos amantes.

 
António MR Martins

sexta-feira, 4 de agosto de 2017

Severino Moreira


Severino Moreira, imagem da net.



SORRISOS SEM PELE

Gosto de um sorriso sem pele
Que eu colho e não nego
Por me trazerem alento e aconchego.

Fatiguei-me dos que são maquilhados,
E teimando plagiar girassóis
Deixam-se medrar a eito pelas ervas do despeito…
Ferem-me os sorrisos formais
Que ardilosamente insinuantes
Simulam brotar das entranhas do peito.

Gosto mais
De um sorriso sem pele
Que só alma boa gere e impele.

 
Severino Moreira, in “Desconexões” (andar pelas fragas do caminho), 2.ª edição, revista e aumentada, página 73, edições Temas Originais, 2016.

quinta-feira, 3 de agosto de 2017

Diferenciados meios


Imagem da net.



Naquele tecer de dois gumes
palpitou a inquietação,
no rebordo dos secos lábios
humedeceu o (des)alento
da matéria improvável
e do teor que a impregna.

O matizar impróprio
adocicou todo o material
e o subestimado enredo,
deixou de vacilar
perante as partículas da seca pele,
que os vinha amedrontando.

Um labirinto de receios e medos
destabiliza toda a solenidade
daquele único momento,
surge o descabido comentário
prolongando tamanha contenção.

A diferença poderá
repelir a consonância
com a simplicidade de todos os sentires,
até aqui arredios,
então tudo se sucederá
de maneira bem diferente.

 
António MR Martins