sexta-feira, 30 de novembro de 2018

Pela infinita noite


Imagem da net.




No reboliço dos pesadelos
constantes
da madrugada das insónias perdidas
se transforma o pensamento…
e num pleno impasse
de interrogações
se retém a moldável sequência
de cada retorno.

Ao passar as mãos pela cabeça
e após um sugestivo
abrir e fechar de olhos
as brumas se dissipam
de forma espontânea,
tudo não passou de um simples
episódio de suspense,
arquitectado pela mente
no seio do imaginário.

A normalidade regressará
no próximo fechar de olhos
e a próxima manhã
trará as surpreendentes
novas do mundo.

António MR Martins

quinta-feira, 29 de novembro de 2018

Maria do Rosário Loures


Maria do Rosário Loures, imagem da net.





OS OLHOS E A LUZ

vou pintar a imagem dos teus olhos
grandes a despirem as azinheiras

vou pintar a dança dos nossos corpos
ardentes a sonharem com a eternidade

como tinta vou usar as minhas letras
misturadas ao cheiro das tuas palavras
as lágrimas vou deixar de fora
com elas vou contar
nossos segredos aos meus
peixinhos azuis do mar

o quadro vou pendurar
na parede do quarto, onde se dorme
levar-me-á a ouvir a tua alma
quando de mim afastado estiveres

Maria do Rosário Loures, in “Um sumário da minha vida no século passado”, página 21, edições Edium Editores, Outubro, 2010.  

domingo, 25 de novembro de 2018

Goreti Dias


Goreti Dias, Photo Click by nunes photographer




Mata-me as pontas dos dedos

Mata-me as pontas dos dedos,
os anéis e as unhas podres.
Desenha-me os pulsos,
as mãos dóceis e os ombros poderosos.
Um dia,
o corpo calçado nas tabelas das noites
acordará nu,
procurará cetins,
lantejoulas
e aromas de cedros
cortados à madrugada.
A matinal luz orvalhará,
pintada de roxo,
as giestas e os arco-íris,
como quem se sabe senhora
dos destinos e desatinos.

Pintar-se-á o ar límpido da manhã,
lavar-se-á o céu,
a pele
e a alma,
assim como quem sabe do tempo
a falta de tempo.

Goreti Dias, in “Singularidade & etc.”, página 94, Cuca Macuca, Edições, Valongo, 2017.

sábado, 24 de novembro de 2018

Não te quero mais Natal


Imagem da net.




Trazes a dor poeirenta da quimera
e cortes de sangue nos dedos da mão,
degredo vivido nas rugas da espera
as roupas desfeitas pelos sonhos-chão.

Lágrimas secas das fontes perdidas
malhas rasgadas pela fuga da fé,
tantas crenças de cristal esquecidas
ilusões levando tua vida à ré.

Trazes o pão ressequido sem sabor
o tempo onde perdeste o amor,
gestos sentidos de forma desigual.

Trazes tudo em ti sobrando nada
eis o dia-a-dia duma vida parada,
que jamais se lembra de querer Natal!

António MR Martins

quinta-feira, 22 de novembro de 2018

Do meu livro "O tempo também arde", página 24


Capa e contracapa de "O tempo também arde", edições Emporium Editora.




No suor do teu vindimar

Na dorna
onde adormece a vinha vindimada
fervem os prazeres líquidos
dos deuses,
o néctar da tua essência
na agitação
de um apelo soberbo
ao cálice da tua magnificência.

Restauro de um engaço
em resíduos do único delírio
pelo cheiro dos vinhedos
desnudados
ante o teu rosto resplandecente
e tua boca sensual
de travo agridoce.

Viajas pelo esmagar dos bagos,
sonhadora,
como que levitando teu corpo
misturado
com o prazer do teu transpirar
por entre as castas da madrugada.

António MR Martins, in “O tempo também arde”, página 24, edições Emporium Editora, Junho, 2018.

quarta-feira, 21 de novembro de 2018

Sara F. Costa


Sara F. Costa, imagem da net.





Poemas de amor

eu sei que não vamos passar disto,
beijos sonhados em noites íntimas
inapropriadas.
sabemos que a harpa do pensamento
é uma planta que morreu
de overdose de delírio.
a vida carrega a carne e a beleza.
as pálpebras sem inocência
a privacidade de um sorriso é suficiente,
eu sei que é suficiente.
mas como é que as tuas mãos
se abstêm de sentir a água,
a beleza fecunda,
a proibição da oferta.
em que noite mataste a ave marítima do desejo,
se uma mulher nua te invadir o espírito,
se uma voz te sussurrar aos ouvidos
o fim do mundo no início do mundo,
como é que não perdes a cabeça
de onde colhes a força
se alguém te devora em pensamento.

Sara F. Costa, in “A Transfiguração da Fome”, página 60, colecção contramaré / 19, edições Editora Labirinto, Julho de 2018.     

terça-feira, 20 de novembro de 2018

João Rasteiro


João Rasteiro, imagem da net.





RECOLHO-ME ÀS SOMBRAS

Eu que ainda busco nos livros
a pétala do remanso,
o precário olhar das sombras,
a ardente melancolia do mundo,
procuro um girassol
e um madrigal corpo de cidade,
pois preciso da luz inteira
para te percorrer e fixar até ao sol.
                             *
“Versos magoam, a folha angustia.
Dão guinadas no corpo, infernais.
É o teu mal: leste poemas a mais.”
                             *
Apesar de o desejo a ter secado,
continua a inexequível viagem da ave
entre a flor e o poema
(pelo menos permaneceremos
sob a piedade que enxuga a morte).

João Rasteiro, in “Poemas em ponto de osso” (2001-2017), página 49, edição bilingue, edições Ianua Editora, 2017. Toledo(ES)/Quito(EC).

Poesia breve


Imagem da net.




O rascunho está inacessível
a as palavras
perdem-se na memória.

O verso inacabado
regela na espera da confirmação
e a sombra torna-se palidez
no burilar do poema.

Volta o rascunho,
encontra-se a palavra esquecida,
revela-se
e o verso eclode no seu todo.

Temos poema!...


António MR Martins

domingo, 18 de novembro de 2018

Alvaro Giesta


Alvaro Giesta, imagem da net.





No tempo desabitado


- ao Homem, que um dia perdeu a Luz


Quando morrermos entenderão, afinal,
que em nós havia vida:
- aqueles que nunca beijaram em algum dia
a margem do lago onde ficámos parados
e tolhidos,

ou que nunca conheceram o dentro
dessa claríssima rua
onde, tantas vezes perdidos,
rumaram sem destino a qualquer sol
sem lua;

- aqueles que nunca descobriram os lábios
da terra que lhes deu o ser
nem a espuma branca sem mar, nem o sal
nem a fome, nem o frio de sofrer,

ou que nunca conheceram a luz
mesmo quando a luz negada
se nega a iluminar a vontade e o querer.

Nesses persiste a sua teimosia cega
a refugiar-se
num silêncio mudo de dizer.

Alvaro Giesta, in “O Sereno Fluir das Coisas”, página 65, Colecção Poiesis III, coordenação de João Dordio, edições In-Finita, Outubro 2018.

quinta-feira, 15 de novembro de 2018

José Gabriel Duarte


José Gabriel Duarte, imagem na net.




CARTA DE AMOR

Se eu tivesse de escrever
uma carta de amor
não escreveria a palavra amor
nem amar
não falaria em ti
nem em mim
porque em amor
não há padrões
nem regras
nem ordem
o amor é ilógico
inusitado
tanto mais ardente
quanto menos pensado
tanto mais atraente
quanto menos ordenado.

Se eu tivesse de escrever
uma carta de amor
escreveria apenas
QUERO-TE
desde o princípio
até ao fim…

José Gabriel Duarte, in “ O Tempo e o Verso”, página 45, edições Modocromia, Fevereiro de 2017.  

terça-feira, 13 de novembro de 2018

Ansiada degustação


Imagem da net.



Me oregam os distúrbios do ventre,
ousada inquietação gástrica;
às refeições e todo-tempo entre
palato, numa rude ginástica.

Anseio alimentar tão profundo
das vísceras pendentes de comida,
avivando apetite fecundo
que me faz sarar contínua ferida.

Sobram então restos comedidos
entre todos os temperos devidos,
que se juntam para a roupa velha.

Eis, assim, a razão do balancete
assumido como simples lembrete
no desespero que me vai na telha.

António MR Martins

segunda-feira, 12 de novembro de 2018

Proteger a riqueza maior







Imagem da net.




Num secreto abraço das folhas
envolvidas com o vento andante,
colidem os desejos naturais
e profundos do mundo existencial.

As aves fazem por perdurar
o som dos seus cânticos,
ao apelo do imagético discernir
de quase todos os seres humanos.

Alguns são mais arredios
e outros menos,
mas sensibilizam-se com esta harmonia.

Há um único padrão
para continuarmos a arrepiar
o caminho da pura surpresa
e de cada novo sentir,
que simplesmente amanhece
a cada dia,
neste tesouro infinito
chamado Natureza.

Preservá-la e enriquecê-la
continuadamente.

António MR Martins

sábado, 10 de novembro de 2018

Henrique Levy


Henrique Levy, imagem na net.




NOS TEUS OLHOS

navegaste,

em silêncio desembarcaste neste lugar de encantamento que
celebra o inesperado encontro da terra com o mar, onde
marinheiros ajustam marés à lava alongada pela ilha.

vem comigo desvendar mistérios, pisar a torpeza dos ímpios,
nas águas descobrir búzios lilás, avançar por ermitérios
submersos nas profundezas do mar, despertar do sono
os que choram distâncias, remar rumo ao tormento das
mágoas, afogar a alagada escuridão, apagar ânsias em silêncio
afundadas no árido rubor riscado

nos espelhos à deriva nas águas.

- e vou estranhar dentro de mim e vou abrigar dentro de
mim o som da densidade dos espelhos quebrados, onde as
imagens de navios se ocultam embarcadas.

trazes nos lábios o sabor brando dos beijos que no mar se
desfazem em fragmentos de espelhos molhados,

dizem ser mica que brilha em cada grão de areia, mas eu
conheço o brilho dos teus olhos disperso por todas as ondas
rasgadas pelo mar…

resta ao amor o cântico da imensidão salgada, aguardando
pelo teu olhar mergulhado na praia onde me deito a
convocar a nudez do teu corpo ao longe embarcado

num atlântico navio a navegar…

Henrique Levy, in “O RAPAZ DO LILÁS”, páginas 31 e 32, edições Confraria do Silêncio, Casa da Mediana, Ribeira Grande, Ilha de S. Miguel, Açores, Outubro de 2018.

Maria Antonieta Oliveira


Foto de António Martins




SILÊNCIOS

Há silêncios entre palavras proferidas
Apenas pelo teu olhar, meu amor
Nada dizes, nada digo
Bastam nossos olhos se cruzarem
Para sabermos
O que fica por dizer.

Maria Antonieta Oliveira, in “Os Sons do Silêncio”, página 39, edições In-Finita, Outubro 2018.