sexta-feira, 18 de fevereiro de 2022

José-Luís Ferreira (1938-2020)

 


 

Este livro é um tesouro, com um valor incalculável. É a forma ideal de ficarmos com o saudoso José-Luís Ferreira, junto de nós, para todo o nosso sempre. Com a sua Arte e a sua Poesia, sempre ao nosso dispor. Além disso, traz consigo a Imagem de Henrique Gabriel, seu amigo de sempre, que teve o grandioso labor de idealizar esta obra e de a coordenar, com afinco e sensatez, o que desde já muito agradeço.

José-Luís Ferreira sempre fugiu à normalidade, se ela alguma vez se poderá padronizar ou lá o que isso seja. Nem sempre agradou a quem o leu. Não era homem de feitio fácil, mas era um amplo criador, com horizontes longínquos e sempre inovadores, sempre sagaz, sempre mordaz, sempre efervescente, sempre provocante, sempre presente. Não esqueço as nossas conversas telefónicas e os seus irreverentes conselhos.

Quis que ele apresentasse o meu livro ”Máscara da Luz”, em Viseu, no ano de 2012, e aceitou. Foi uma sensação de felicidade, que em mim se fez sentir. Chegou à respectiva sessão no seu termo, ainda tirámos umas fotos. Era, e sempre será, José-Luís Ferreira.

Saudades!!!


 

AEROPORTO
 
não pode esperar
o poema
 
a hora do anoitecer
tece uma teia de penumbra
semeada de tições
ao longo das ruas
 
não pode esperar
o poema
 
os últimos risos da tarde
somem-se na brisa
árida
e fria
freme a teia
tremem os tições
 
não pode esperar o poema
 
alongam-se
alargam
as sombras enchem de noite
a alma das crianças pobres
 
não pode esperar
o poema
 
é preciso
é urgente reinventar o dia
iluminar os olhos por dentro
com velas de altar e estearina
ou seguir pelo poente atrás do sol
 
não pode esperar
o poema
 
atrás das pálpebras o mundo
e as mãos vazias voltadas ao céu
sedentas de espaço
enclavinham-se
porque
 
             o poema
 
não pode esperar
o poema
 
 
José-Luís Ferreira, in “Obra Poética”, com Imagens de Henrique Gabriel, páginas 68 e 69, edição conjunta de: MIL – Movimento Internacional Lusófono e DG Edições, Janeiro de 2022.

segunda-feira, 14 de fevereiro de 2022

declives sem rigor

 

Imagem na net.


vejo ferrugem nos olhos da podridão
amargos de boca pela saliva que nos seca
de forma salgada e calcificada
de grosso modo
 
putrifica-se o ambiente
e o cheiro nauseabundo sente-se
na inexistência do mesmo
perante um chão desolador
que vai acontecendo nas palavras
de qualquer divulgador
de determinados textos
vulgo notícias
num arrasto viciante
e que todos ouvem
em sentido petrifico
 
o receio é a mola desfeita de todos os nossos dias
num acervo de dores e de incómodos
simplesmente acomodados
 
invade-se ou não se invade
eis a questão
mas a guerra faz-se na mesma
em todos os momentos
corroendo a sociedade
e limitando-a à simples alienação
sustida pela prisão duma teia financeira
que nos faz doer os dias
os meses e os anos
cada vez mais… e mais… e mais…
 
mas há limites para tudo
e tudo tem os seus limites.
 
 
António MR Martins

Ana T. Freitas

Capa do livro "alfobres de rios", de Ana T. Freitas

 


a minha escada de menina
 
 
hoje subi ao céu nas asas da minha infância
subi, subi, subi, bem alto
lá longe, tão longe que nem eu sei
e naquela escada me pendurei
 
sim, essa que foi grande
saltitando, a desci e subi vezes sem conta
de sorriso nas mãos
e futuro nos olhos
 
sim, essa que agora revisitada diminuta é
mas ainda forte, robusta, pedra
assim tatuada se mantém bem fundo de mim
qual arte rupestre
 
sim, essa, firme, linear
que não A escada sem corrimão
de David Mourão-Ferreira
esta, nos traz cuidados
a outra, degraus límpidos, de sonhos feita
minha escora
 
hoje subi ao céu
na minha escada de menina
com brincos de cerejas
e fui feliz
 
 
Ana T. Freitas, in “alfobres de rios”, página 27, edições Modocromia, Maio de 2020.

terça-feira, 1 de fevereiro de 2022

Alice Duarte

 

Capa do livro "Guardadora de Ecos", de Alice Duarte,
Colecção a Água e a Sede, Modocromia, 2020.


PEDRA VERTICAL
 
Pedra vertical sobre a planície
onde a urgência encontra gruas,
refúgios rudes
de mãos talhadas na inclemência do tempo.
As fendas profundas na rocha
são raiz de rios de águas revoltas
que abrem sulcos na terra seca.
Grossas lágrimas
no corpo sequioso da planície,
fecunda matéria do coração da pedra,
invisível aos que não se aventuram
nas duras escarpas.
Só para mãos feridas
existem inesperados abrigos
onde corre água,
bálsamo de obscuras mágoas.
 
Alice Duarte, in “Guardadora de Ecos”, Colecção a Água e a Sede, edições Modocromia, Novembro, 2020.