terça-feira, 22 de agosto de 2017

Camilo Pessanha


Camilo Pessanha, imagem da net.




CANÇÃO DA PARTIDA

Ao meu coração um peso de ferro
Eu hei-de prender na volta do mar.
Ao meu coração um peso de ferro…
Lançá-lo ao mar.

Quem vai embarcar, que vai degredado,
As penas do amor não queira levar…
Marujos, erguei o cofre pesado,
Lançai-o ao mar.

E hei-de mercar um fecho de prata.
O meu coração é o cofre selado.
A sete chaves: tem dentro uma carta…
- A última, de antes do teu noivado.

A sete chaves, - a carta encantada!
E um lenço bordado… Esse hei-de o levar,
Que é para o molhar na água salgada
No dia em que enfim deixar de chorar.

 
Camilo Pessanha, nasceu em Coimbra, 7 de Setembro de 1867 (vão passar 150 anos do seu nascimento), faleceu em Macau (China), 1 de Março de 1926, in “Clepsidra”, página 74, edição bilingue pelo Instituto Internacional de Macau, Março de 2016.

segunda-feira, 21 de agosto de 2017

Minha naturalidade Lisboa


Lisboa, Castelo de S. Jorge (visto do Elevador de Santa Justa). Foto de António Martins. 


Lisboa, sete colinas em verso
num íntimo poema da saudade;
de ti nunca, ou jamais me despeço,
Lisboa, ó minha velha cidade.

Tua monumentalidade garante
no passado, presente ou futuro,
da História teu trajar elegante
junto ao Tejo, teu suporte tão puro.

Martim Moniz não deixou fechar portas
entre tantas linhas direitas ou tortas
que te bordaram nesses séculos fora.

És arte, cultura, até ao Chiado,
forte ventre donde nasceu o fado
musa presente da noite à aurora.

 
António MR Martins

sexta-feira, 18 de agosto de 2017

João Luís Barreto Guimarães


João Luís Barreto Guimarães, imagem da net.




Em segunda mão

Uma
casa de artigos à venda em segunda mão é
o lugar ideal para conheceres alguém. Puído
cerzido
mais sábio (a utopia perdida quanto à
duração do amor). Uma loja de usados é
o local ideal para revenderes a tristeza
(livrares-te da ilusão de que a inocência persiste)
deixares cair o apelido que trazias
algemado. Aí
entre coisas raras (sem uso
à espera de vez) está alguém a quem o tempo
ensinou a temperança
(alguém a quem o pesar ministrou paciência)
que recebeu em esperteza o que entregou em
esperança. Numa casa de artigos à venda
em segunda mão quem sabe tens para dizer
o que alguém vem escutar.

João Luís Barreto Guimarães, in “Mediterrâneo”, página 68, edições Quetzal Editores, Março de 2016.

quinta-feira, 17 de agosto de 2017

Nas marcas da areia


Imagem da net.



Na areia molhada a dois tempos
onde se transformam tantos costumes,
se recriam antigos passatempos
e se instalam perdidos cardumes.

Nova onda se espraia na areia
demonstrando tamanhas evidências,
do oceano não surge qualquer sereia
e água se esvai pelas saliências.

Neste filtrar de enorme beleza
puro representar da natureza
navegam as ondas, no seu vai e vem.

Pelo embalar delicado ou rude
belo marear de grande virtude
e o partir ou chegar me faz refém.

 
António MR Martins

domingo, 13 de agosto de 2017

António Duarte Mil-Homens


António Duarte Mil-Homens, imagem da net.



Poema que alguém não escreveu

Não me consolem!
Não me confortem!
Não me adormeçam o ódio!
Deixem-me soltá-lo e bebê-lo!
Quero respirá-lo e sê-lo!
Quero programá-lo e dizê-lo!
Não mo apaguem!
Não mo corrijam!
Não o estanquem!
Deixem correr…
Quero espalhá-lo ao escrevê-lo,
e para o escrever preciso tê-lo.
Quero fazer dele o ébola
em que cada um de vós,
ao lê-lo, sinta incubar,
virulenta, a indignação,
o medo, o horror,
quiçá a admiração,
o pasmo, a revolta…
mas não o sono, a indiferença.
Que seja a cura ou a doença,
jamais o mono, o forra estantes,
o objecto decorativo.
Figurativo, nunca! Antes abjecto!
Quero que o tenham à perna,
vingador e vingativo
dum passado que vomito,
que exorciso quando escrito.
Que não se afoga no tinto.
Que não se dilui quando o pinto,
disforme e feio.
Que não se cala quando o grito!
Que não me importa se o minto,
se assim o sinto…e ODEIO!!


António Duarte Mil-Homens, in “Voda ou Morte duma Esperança anunciada”, páginas 61 e 62, Edição de Autor, Macau, Setembro de 2010.    

quinta-feira, 10 de agosto de 2017

Naturalidades



Imagem da net.




É mesmo natural
o paladar das coisas simples
e a estratégia que as define,
sem modos,
sem preconceitos,
sem devaneios,
sem a ávida intenção
de uma crua resolução,
à imagem do prevaricador.

É mesmo natural
o respirar da revolta permitida,
porque nada supera
aquilo que é (im)possível fazer,
mesmo que vá para lá
de toda a imaginação.

É mesmo natural
o sonho,
a esperança,
o desejo,
na vida existencial…
mas tão difícil de alcançar!..

 
António MR Martins

domingo, 6 de agosto de 2017

João Carlos Esteves


João Carlos Esteves, imagem da net.



CREPÚSCULO

Suavemente chega o crepúsculo
com os seus cambiantes serenos
e reflexos fugazes
como etéreas folhas em queda
das árvores outonais

Arauto da noite próxima
prenúncio das horas leves
dos silêncios confortantes
e das solidões incógnitas

Refrescantes sombras crescentes
espalham-se sobre o cansaço
dos momentos já esgotados
na azáfama do dia
como um manto protector
de oblívios perdões

Efémera presença a tua
de brandos momentos tingidos
com tonalidades difusas
transitórios pedaços em mescla
de um bulício angustiado
e de um sossego ansiado

Cai a noite repousante
com os seus véus de mistério
encerrando a magia tépida
do crepúsculo passageiro

 
João Carlos Esteves, in “Gotas de Silêncio”, página 35, edições Temas Originais, 2011.     

Sólido perfume


Imagem da net.



Nalguns suaves cheiros-perfumes
envolvência de simples sensação,
permitindo esquecer azedumes…
benigna solidez da moderação.

Aromas esfumando cicatrizes
afagando a pele adormecida,
vivas mensagens com novas raízes
fortalecem e alegram a vida.

Fomentam surgir várias nuances,
sãs fragrâncias de tantos romances
que rejubilam múltiplos semblantes.

Suco festivo das mais belas flores
no trânsito de inúmeros amores
alto pecúlio para muitos amantes.

 
António MR Martins

sexta-feira, 4 de agosto de 2017

Severino Moreira


Severino Moreira, imagem da net.



SORRISOS SEM PELE

Gosto de um sorriso sem pele
Que eu colho e não nego
Por me trazerem alento e aconchego.

Fatiguei-me dos que são maquilhados,
E teimando plagiar girassóis
Deixam-se medrar a eito pelas ervas do despeito…
Ferem-me os sorrisos formais
Que ardilosamente insinuantes
Simulam brotar das entranhas do peito.

Gosto mais
De um sorriso sem pele
Que só alma boa gere e impele.

 
Severino Moreira, in “Desconexões” (andar pelas fragas do caminho), 2.ª edição, revista e aumentada, página 73, edições Temas Originais, 2016.

quinta-feira, 3 de agosto de 2017

Diferenciados meios


Imagem da net.



Naquele tecer de dois gumes
palpitou a inquietação,
no rebordo dos secos lábios
humedeceu o (des)alento
da matéria improvável
e do teor que a impregna.

O matizar impróprio
adocicou todo o material
e o subestimado enredo,
deixou de vacilar
perante as partículas da seca pele,
que os vinha amedrontando.

Um labirinto de receios e medos
destabiliza toda a solenidade
daquele único momento,
surge o descabido comentário
prolongando tamanha contenção.

A diferença poderá
repelir a consonância
com a simplicidade de todos os sentires,
até aqui arredios,
então tudo se sucederá
de maneira bem diferente.

 
António MR Martins

segunda-feira, 31 de julho de 2017

Teresa Teixeira


Teresa Teixeira, imagem da net.



Agenda aberta

(Descobri que é fácil morrer: basta entregarmo-nos…)

…Como quem perde
todas as julgadas vitórias num passe
num flash, que nos entra nos olhos
e converte todas as lágrimas em grãos de areia.
Quantos grãos de areia…?
Talvez tantos, quantos anos tenhamos evitado a luz.
A cruz, essa
foi só conversa
(fiada)
que a vida não nos dá nada
empresta
uns trocos que nos iludem
a própria preciosidade
e dela nos cobra juros
mais cedo ou mais tarde.
A morte é de boas contas:
fiel, espera-nos sempre
basta entregar as pontas.

(Vida, diz-me quanto te devo, quero agendar o meu pagamento.)

 
Teresa Teixeira, in “Labiríntimos”, página 30, edições Lua de Marfim, Setembro de 2015.  

  

Homenagem ao poeta António MR Martins, pelo grupo Asas de Poesia



A mesa de honra. Teresa Gonçalves, António MR Martins e Cândida Quintas.
 
Tem por hábito, o grupo Asas de Poesia, nas suas sessões mensais de tertúlia poética, que ocorrem regularmente na Biblioteca Municipal Dr. José Vieira de Carvalho, na Cidade da Maia, convidar um poeta contemporâneo para a primeira parte dessa programação, onde é homenageado, dando-se a conhecer o seu percurso e lendo-se alguns poemas de sua autoria, pelos diversos membros do grupo, havendo, sempre, um intercalar musical por entre vários grupos de poemas desse autor. Na segunda parte cabem ser homenageados autores consagrados, já falecidos, abordando-se as suas vidas e obras, com a participação do público presente que lê alguns dos seus trabalhos.

 
Um pormenor da plateia.


Na última sessão, acontecida sábado passado, dia 29 de Julho, coube ser convidado o poeta António MR Martins, sendo o autor consagrado, desta feita, Rosa Lobato Faria, contando-se com a variada intervenção musical do Grupo Popular Tradicional “Sons D’Outrora”. A sessão teve lugar na sala Café-Concerto da Biblioteca Municipal da Maia, tendo o seu início pelas 16 horas, terminando por volta das 18H30 e no final teve lugar um Porto de Honra, havendo sumos e águas para quem quisesse, a acompanhar um fausto lanche, onde a doçaria local teve maior preponderância.

 
A mesa atenta aplaude a intervenção musical, a cargo do
Grupo Popular e Tradicional "Sons D'Outrora".


De António MR Martins foram lidos vinte poemas, sendo eles: “Ficar ou partir”, “Jeito de ser feliz”, “Teu jeito de ser”, “Esse teu poema”, “Árvore em destruição”, “Escasseia-nos a liberdade”, “Soalheiro quotidiano”, “Infinita beleza”, “Respostas perdidas”, “Sufoco dilacerante”, “Dedicatória à saudade”, “Contemplativo fascínio”, “Azul profundo”, “Sem solução”, “O silêncio na voz do poema”, “Encontro de amantes”, “A tua diferença é um poema” e “Dá-me um beijo” e similar quantidade de poemas, foram ditos ou lidos, relativamente à obra de Rosa Lobato Faria, aqui António MR Martins leu o poema, dessa autora, “Beijo a beijo”. O grupo musical “Sons D’Outrora” interpretou oito temas de índole popular, oriundos de diversas regiões do nosso país, cabendo um tema ser dedicado ao autor homenageado e outro ao grupo Asas de Poesia, na pessoa de Teresa Gonçalves.

 
O Grupo Musical "Sons D'Outrora".


Foi uma sessão plena de emoções e de enorme interacção entre todos os presentes, que resultou na passagem de uma belíssima tarde de poesia, com música e animação, que terá sido inesquecível para a plateia que assistiu e/ou participou no evento.

 
António MR Martins, lê o poema de Rosa Lobato Faria, "Beijo a beijo".


Agora a maior parte dos membros do grupo Asas de Poesia vai de férias, voltando a estas lides em Setembro, sendo o próximo convidado contemporâneo o poeta Vítor Costeira.
 
Entre os membros do grupo Asas de Poesia, presentes.
Da esquerda para a direita: Cândida Quintas, António Portela, Teresa Gonçalves,
o poeta António MR Martins, Dulce Morais e Manuela Carneiro.
 

sexta-feira, 28 de julho de 2017

Fui convidado para a sessão de poesia na Biblioteca Municipal da Maia, de 29 de Julho de 2017. Uma organização do grupo Asas de Poesia.


A convite do Grupo Asas de Poesia, no dia 29 de Julho estarei na Maia, na Biblioteca Municipal Dr. José Vieira de Carvalho, a partir das 16 horas, numa grandiosa sessão de poesia, onde na 2.ª parte se falará da vida e obra de Rosa Lobato Faria.
 
Apareçam e tragam mais amigos convosco.
 
 


Difícil entendimento


Imagem da net.




Na praia esquecida
os novelos das marés
ensaiam os memoriais
da esperança perdida.

Numa gaivota só
se explanam os sonhos retidos,
que auguram assumir
o velho sonho da liberdade.

Finca-pé impertinente
onde esvoaçam as asas do vento
e todos os grãos de areia
não providos de robustez.

O cliché
da expressa monotonia
e a irónica gratidão
da incompetência deslumbrada.

Resta o passo seguinte
para a total compreensão
incompreendida.

 
António MR Martins

segunda-feira, 24 de julho de 2017

Caminho desconexo


Imagem da net.



Nesse sentido memorizei
um caminho inusitado,
onde a frieza se manteve
num desusado rigor,
apesar da decadência.

Nesse memorável percurso
se combinou a manchete
da nossa concordância,
em rastreio de intimidades
jamais decifráveis.

Nesse caminhar desconexo
rivalizou o perjúrio,
em enfeites de ignorância
na abstinência do ser,
pela contida exactidão.

Nesse bulício esquecido
se desarmou o pretexto
de um débil percorrer,
nunca reconhecido
e completamente omitido.

Nesse finalizar descomposto
ultimaram os preconceitos,
não utilizando a estrada
da demora permitida
no auge da própria vida.

 
António MR Martins