quarta-feira, 8 de julho de 2020

Novos tempos e muitas vacilações


Imagem na net.



Num arreganho e pertinácia
se agarram às rochas do poder
e fomentam suas lavas
a apoderarem-se dos lugares 
das lapas pioneiras
estabelecendo outras regras 
para o seu novo mundo.

As lapas desgastam-se
desintegrando-se 
sem volta a dar a esse desiderato
anómalo e leviano
daquele subreptício avanço 
infundado mas consequente.

A diáspora cinge-se àquela eloquência
de um trânsito bandido
transfigurador de todas as realidades.

Agora pretendia-se que o tempo
não passasse
mas essa é a única normalidade.

António MR Martins

Julho de 2020

segunda-feira, 6 de julho de 2020

Drama encolhido


Imagem na net.




A turbulência fecunda a mente
num corrupio de ideias e pensamentos
que fervilham a cada instante.

A dor propaga-se 
a todos os outros aliados do corpo
e o insólito sucede-se
tornando-a vulgar e na net viral.

As mezinhas são recomendadas
a torto e a direito
entre limonadas e tomatadas
avinagradas ou doces
em amiúde caudal mensageiro.

Encolhem-se os dramas
diluindo-se a frescura do discernir
aguardando o porvir da segurança
que teima em não chegar.

As soluções são esbatidas
sem profícuos resultados
e com abundância de negatividades. 

Não há quem vacine
só há quem vaticine.

O ranger de dentes provoca sangrias
e a pasta dentífrica da suave frescura
não atenua tal agravo instalado.

Há que esperar a receita divina
ou do homem curandeiro
que tal como D. Sebastião
das brumas não consegue surgir.

António MR Martins 

Julho de 2020

quinta-feira, 2 de julho de 2020

Invisíveis dores profundas


Imagem na net.



Espartilha-se o medo
em pedaços pontiagudos
que aguçam as picadas na pele.

Acerca-se um nervoso miudinho incompleto
que nos sacaneia os polos
emoldurando-os num transpirar frio
passageiro e assaz dormente.

Os estilhaços aprofundam a derme
até à ínfima fibra condutora
em circuitos paralelos e cruzados
contagiando todas as recônditas nebrites
do sistema.

Os dentes rangem
desprazeres filtrados 
acalentando o sabor da próxima
pasta dentífrica
que atenuará as dores subjacentes.

A mente atabalhoa-se 
de tanta ineficácia corrente
e não descortina qualquer fuga
para todos estes paradigmas.

António MR Martins

Junho de 2020

Lançamento da colectânea "Rio das Pérolas", na Casa de Vidro da Praça do Tap Seac, Porta R3, em Macau, a 24 de Junho de 2020.


A mesa
Da esquerda para a direita: António MR Martins, coordenador
da obra, também autor, Ana Paula Dias, prefaciadora do livro, 
que fez a apresentação e Gonçalo Lobo Pinheiro, pela editora 
Ipsis Verbis, também autor participante.

Ana Paula Dias faz a apresentação da obra.

António MR Martins fala sobre a obra e como tudo foi acontecendo.

Um aspecto da plateia.
Foto da Casa de Portugal em Macau.

Gonçalo Lobo Pinheiro dá por finda a sessão.

Montra de exemplares de "Rio das Pérolas".
Foto da Casa de Portugal em Macau.

Com o Cônsul Geral de Portugal em Macau e Hong Kong.
Foto da Casa de Portugal em Macau.


segunda-feira, 8 de junho de 2020

Lançamento da antologia poética "Rio das Pérolas", em Macau


Dia 24 de Junho, pelas 18 horas, na Casa de Vidro da Praça do Tap Seac, em Macau.

24 Autores:

Ana Cristina Alves, António Bondoso, António Correia, António Duarte Mil-Homens, António Graça de Abreu, António José Queiroz, António MR Martins, Carlos Morais José, Deusa d’Africa, Dora Nunes Gago, Fernanda Dias, Fernando Sales Lopes, Francisco Conduto de Pina, Gisela Casimiro, Gisele Wolkoff, Gonçalo Lobo Pinheiro, Henrique Levy, Hirondina Joshua, João Morgado, José Drummond, José Luís Outono, Natalia Borges Polesso, Sara F. Costa e Sellma Luanny.

Coordenação: António MR Martins

Prefácio: Ana Paula Dias




Quiosque do Lilau




Num largo com tantas histórias
onde se prendem memórias,
abraços e desprendimentos,
euforias e lamentos,
sorrisos e lágrimas perdidas,
condimentos de tantas vidas.

Num recanto sonhador
onde surge o fumador…
num apelo à cerveja
ou lá aquilo que seja,
ali soletra-se a dor
e o furor dum pleno amor.

Há um lugar encantado
com segredo bem guardado,
para soltar o acanhado
tão só ou bem acompanhado,
traçando imagens do tempo
em hora certa ou a contratempo.

Acolhimento soberbo
quiçá, ali começou o verbo
de todo o entendimento,
num simples desprendimento
onde a secura é regada
a cada frescura esperada.

Venham todos a caminho
aprumados ou em desalinho
por forma a degustar
um intenso paladar,
com a companhia suprema
para todo e qualquer esquema.

Venham todos de vez só
bem limpinhos, ou com pó,
beber pela sede louca
que a água é tão pouca,
caminhem e ponham-se a pau
venham ao Quiosque do Lilau.

Tragam força para um abraço
para o amigo Elias Colaço.


António MR Martins

Junho de 2020

sexta-feira, 29 de maio de 2020

Nesses teus cabelos


Imagem na net.




Nesses teus cabelos
onde branqueiam ondulações
em remoinhos que o vento exulta
nas partituras das melodias intensas
guardando as notas mais efusivas
para adornar o teu semblante.

Nesses teus cabelos
postam as luzes dos olhares imperfeitos
que lapidam e modelam alvas ondas
e os pendentes majestosos
que desmascaram
os atritos da pressão alvoraçada.

Nesses teus cabelos
não se acomodam rancores
nem se eleva a subtileza de um ego altruísta
mas sim o efeito cintilante
de cada sorriso e cada abraço
que nos indicam o melhor caminho.

Nesses teus cabelos
existe passado, presente e futuro
sem haver barcos ancorados
nos cais da perdição 
nem presunção irrealista
e descabida de qualquer vaidade.

Nesses teus cabelos
há uma história de vida  
na simplicidade das palavras
e a verdade sempre à tona
de um rio vivo marginado
que corre continuamente a preceito.

António MR Martins

domingo, 24 de maio de 2020

Conceição Lima ( S. Tomé e Príncipe)


Conceição Lima (S. Tomé e Príncipe). Imagem na net.





CIRCUM-NAVEGAÇÃO



À Maria Olinda Beja



Os barcos regressam
carregados de cidades e distância.

Adormecem os grilos.
Uma criança escuta a concavidade de um búzio.

Talvez seja o momento de outra viagem
Na proa, decerto, a decisão da viragem.

Aqui se engendram alquimias
Lentos hinos bordados em lacerações
Sossegaram os mortos
Há grutas e pássaros de fogo
Rebentos de incómodos recados

O difícil ofício de lavrar a paciência.

Acontece a arte da viagem
Tanta aprendizagem de leme e remendo…

É quando o olho imita o exemplo da ilha
E todos os mares explodem na varanda.

Conceição Lima, in “O País de Akendenguê”, páginas 106 e 107, edições Caminho, outras margens, 2011.   

sábado, 16 de maio de 2020

Robusta escassez


Imagem na net.



Os dias plantados
nas terras da memória
aglomeram equívocos
de vária ordem:

- Um orgulho semeado
algures, sem cabimento,
e implantes desnecessários
ao decurso da história.

A raiz imensa da inveja
e o alimento profícuo 
ao fortalecimento
de todos os umbigos.

Depois restará nada
para todos os vindouros.

António MR Martins

Abril de 2020

quinta-feira, 14 de maio de 2020

Desconfinando desconfiando


Ajuntamento numa rua perpendicular à Av. Horta e Costa, em Macau.
Foto de António Martins.



Desaperta-se o aperto
e solta-se o grito
que só os vizinhos de baixo 
e de cima conseguiam ouvir.

Arrota-se a libertação
sem pressupostos estilizados
argumentos descabidos
ou adendas às férteis leis da verdura
proeminente.

Extravasam-se procedimentos
entre os oitos e os oitentas
que o tempo de estar retido
foi imenso e muito saturante.

Mais vale o cansaço da corrida
sem destino
sem rectilíneos acondicionamentos
mas em ziguezagues sorridentes 
numa ávida fuga às lúcidas apalpadelas
para querer agarrar com todas as forças
as estrelas inalcançáveis.

Às vezes
quando tudo se quer
tudo se perde sem dar por isso
em ápices de frustrantes desilusões.

Esperemos que todos os confinamentos
não tenham acontecido em vão.

António MR Martins

Maio de 2020

segunda-feira, 11 de maio de 2020

terça-feira, 5 de maio de 2020

Questão de cores


Imagem na net.



O verde envolvente
ainda é verde
mas de tonalidade diferente

o azul do céu
ainda é azul (quando é)
mas de um tom mais ténue

os esverdeados ou os azulados das águas
são misturas dessas tonalidades
com cinzentos e castanhos invulgares

e todos se passeiam
pelo conflito das calúnias,
das ideologias, das religiões,
dos estatutos, das hierarquias,
das conveniências e do dinheiro

até que tudo possa vir a ser
a preto ou a cinzento!...

António MR Martins

Abril de 2020

segunda-feira, 27 de abril de 2020

Instantes de saudade


Lisboa antiga, Cais do Sodré. Imagem na net.



Seca o sangue na Terra
e o suor transpira alternâncias
entre o desespero
que acicata os imos.

Então o esplendor desperta
uma miscelânea de emoções
de um tamanho imenso
equiparado à saudade.

António MR Martins

Abril de 2020

domingo, 26 de abril de 2020

A última canção


Imagem na net.



Navegam em mim estórias
palavras mansas
memórias
outras agrestes
longínquas
neste memorando liberto
numa gaiola sem portas.

Oiço ligeiros gritos
gemidos descompostos
alívios e pruridos amorfos
silêncios perturbadores
na eloquência dos mortos

e os vivos permanecem tolhidos
no estreito lugar da voz
em constante apelo 
por todos nós.

Sosseguem mentes doentes
acolhidas em suas moradas
e todos os seus parentes
que a vida jamais acaba

de paragem em paragem
num roteiro desconhecido
talvez irracional
neste mundo aflito
que não encontra viragem
e corre desmedido
para ultimar a viagem.

António MR Martins

Abril de 2020

sábado, 25 de abril de 2020

Amarras inventadas


Imagem na net.



Daqui vejo a Torre de Macau
as pontes e o delta do Rio das Pérolas
os casinos da cidade 
e a azáfama para um novo aterro.

Daqui vejo o céu, às vezes,
as nuvens e a neblina
as luzes das noites turvas
e o brilhantismo de algumas límpidas.

Daqui vejo a cidade
outrora do Santo Nome de Deus
com todos os deuses
a protegerem o seu avançar na idade.

Daqui sinto a felicidade morna
dos trabalhos inacabados
a vida parada pelos cantos
onde os sorrisos moravam.

Daqui há meses te escapo
raiz do medo e da peçonha
proveito de toda a vergonha
de que enferma a Humanidade.

António MR Martins 

Abril de 2020