quinta-feira, 16 de novembro de 2017

Teresa Brinco de Oliveira


Teresa Brinco de Oliveira, imagem da net.




Dispersão

não eram limites as palavras nem os caminhos.
nem o rio tinha margens.
não era o caso. nunca foi o caso.
havia uma nascente cristalina perto da casa. não foi ultrapassada.
a casa era branca. ficou escura.
só tentei dizer que não entendia
o escuro da casa. as cores diluíram-se. a parede soçobrou
no silêncio. e só tentei o murmúrio da nascente.
e era justo. e não fui injusta.
e as palavras acabaram sendo vãs
e tão poucas. e por isso se perderam como a nascente.

quando as palavras encontraram o vértice do ângulo
entraram num gráfico de dispersão
irremediavelmente.

 
Teresa Brinco de Oliveira, in “O Riso Rasgado do Tempo”, página 64, edições edita-Me, Maio de 2011.       

quarta-feira, 15 de novembro de 2017

A estrelícia do teu olhar


Imagem da net.




Uma flor desponta
no seio do teu olhar.

Vislumbro um mar enorme
por onde navegam os sonhos
e o murmúrio da voz do mundo.

Um sumido eco audível
exulta suavemente a alegria
outrora escondida.

Há um sorriso transparente
no horizonte da tua face
e o teu interior rejubila, intensamente.

A estrelícia do teu encanto
assume-se sem algemas descabidas
numa relevância impune
em simples sublimação.

 
António MR Martins

domingo, 12 de novembro de 2017

Reerguer


Imagem da net.




Partes na manhã adormecida
ante o tremor
das doridas pernas da razão.

Balão de soro
para a tua perspicácia.

A dormência do teu corpo
já não se faz sentir.

Pelo caminho se fará a vida.

 
António MR Martins




sábado, 11 de novembro de 2017

Dalila Moura Baião


Dalila Moura Baião, imagem da net.




ENTRE NÓS E O INFINITO

Amamo-nos assim
entre as palavras e a melodia.
Entre o espasmo dos dias
e a brancura da noite.
Soltam-se os fios de luar e tecemos
a cama e o fogo.
Incendiamos as horas – num único momento –
E toda a labareda alastra como furacão
com olho no mar.
Um barco. Um cais deserto.
Duas mãos que remam num toque de sal
que escorrega no corpo e no silêncio.
As palavras não fazem falta.
A ausência é o local onde nos encontramos.
O verde propaga-se entre os olhos e os limos.
Tudo é mar! Toda a nudez se veste de espuma.
E carícia.
Amamo-nos assim: entre o mel e o silêncio.
Entre nós e o infinito.

 
Dalila Moura Baião, in “Quando o mar corre no peito”, página 34, edições El Taller del Poeta S. L., Pontevedra (Espanha), 2014.

terça-feira, 7 de novembro de 2017

Esquadria poética


Imagem da net.




Abraçam-se em importantes sentidos,
na plenitude de cada poema.

Os esquemas são desavindos
neste caminhar profundo
e de benfazejo fortalecimento.

As linhas endireitam-se
e o percurso curvilíneo
deixou de o ser.

A linha única
passou a ser o nosso caminho.

 
António MR Martins

segunda-feira, 6 de novembro de 2017

Licínia Quitério


Licínia Quitério, imagem da net.




[Nada demais, amigo]

Nada demais, amigo.

Tudo cabe nas nossas águas.

Miragens, dizes, e eu digo torres, tão altas, tão fundas, tão
iguais ao giz com que as traçámos.

Nos nossos sonhos, poderão nadar todos os peixes, nascidos
das conversas adiadas.

Tudo cabe, tudo vive, tudo se move, nos mil andares dos
velhos mitos.

Nas nossas mãos, nada toca, nada mancha, nada fere, nada
queima, nada.

Intacta a carne que o fogo alimenta e não devora.

Tudo acontece na outra face dos nossos lagos.

 
Licínia Quitério, in “O Livro dos Cansaços”, página 38, edição da Autora, Fevereiro de 2015.

sexta-feira, 3 de novembro de 2017

Brindar à (im)perfeição


Em Carvalhal-Miúdo, Góis. Foto de António Martins.



Sede de um vinho já desfeito
alvo propósito indefinido,
secura, desempenho sem jeito,
rumo ao paladar pretendido.

No golpe desferido, mansinho,
seja lá de quem for o proveito,
brindemos com um superior vinho
pelos simples moldes do preceito.

No proteger das vinhas e bagos
dos sublimes sabores, tão vagos,
por onde fervem grandes ilusões.

O suco das uvas de eleição
envolve-nos, assim, na perdição,
aquecendo múltiplos corações.

 
António MR Martins

quinta-feira, 2 de novembro de 2017

Fátima Guimarães


Fátima Guimarães, imagem da net.





 
Não, não quero ser musa, nem ninfa, nem sereia.
Não quero ser palavra calada
nem sonho à margem do desejo.

Quero ser em ti mulher inteira,
aquecer a alvura fria dos lençóis.
Quero ser em ti o sol
duma amena tarde de outono.

Quero-te antes que os sonhos morram,
antes que hibernem em si mesmos.
Quero-te, agora, ao entardecer,
na urgência de quem teme não amanhecer.

 
Fátima Guimarães, in “a voz do nó”, página 58, edição da Autora, Novembro de 2014.     

terça-feira, 31 de outubro de 2017

Renascer ou simplesmente viver


Imagem da net.




Há uma frieza
espontânea,
que antecede
a estática conformação,
num apelo indelével
no começo de cada verso.

Estreita
o muro que nos separa,
na nossa fragilidade
do ser.

Não mais seremos como fomos,
e o futuro
será a surpresa
de cada amanhecer.

 
António MR Martins

sábado, 28 de outubro de 2017

Henrique Levy


Henrique Levy, imagem da net.




OS BRAÇOS

rapazes chegaram
mãos erguidas espigas entre os dedos
rosas brancas nos cabelos

chegaram rapazes
trigueiros morenos
alvas almas de pétalas

nuvens formam o chão

chegaram juntos unidos pelos dedos
que não traziam espigas
os corpos sumidos
suavam mel
com eles vinham abelhas

os rapazes chegaram
chegaram espigas
rosas brancas
abelhas

o trabalho chegou
braços esguios erguendo
pedras constroem caminhos
de pétalas brancas
espigas e mel

piso as rosas brancas
como pão
como mel
os rapazes partiram…

 
Henrique Levy, in “Noivos do Mar”, páginas 25 e 26, edições Labirinto, 25 de Abril de 2017.

terça-feira, 24 de outubro de 2017

Carlos Frias de Carvalho


Carlos Frias de Carvalho, imagem da net.




escrevo nos teus olhos

pelo teu corpo subo
como o fogo
e desço
como um rio
galgando açudes

escrevo nos teus olhos

mas só na tua alma
iluminada
sou a estrela
que adormece

 
Carlos Frias de Carvalho, in “ luz da água”, página 120, edições arcádia, 2010.

sábado, 21 de outubro de 2017

Connosco, mediocridades valorosas / With us, valorous mediocrity


Imagem da net / picture of the net.



Connosco, mediocridades valorosas

Connosco o arrastar
dos caminhos da insegurança
dorida, pela persistência
nas tangentes ao prumo da vida.

Connosco a envolvência,
rebuscada de temores,
galardoada com medalhas de latão,
que brilham, douradamente,
a cada manhã.

Connosco o espraiar desmedido
perante a avidez das ondas desfeitas,
que espumam por todos os sentidos
perdidos.

Connosco as margens inacabadas
onde as águas se tornam desleixadas
e profundas,
pelo leito que as acolhe,
rumando ao sal de tantas outras águas.

Connosco o caule que nos sustenta
e fortalece,
da árvore, que mesmo ardida,  nos impele
à reforçada busca da liberdade.

Eis a felicidade, porventura suprema,
que nos alimenta o âmago,
a cada nova manhã de nossas vidas,
exposta a tanto olhar matreiro,
quiçá invejoso, neste encantamento.

António MR Martins

(Português /portuguese)


 
With us, valorous mediocrity

With us or drag
of the ways of insecurity
painful, persistent
in tangents to the plumb of life.

With us,
full of fears,
awarded with medals of brass,
which glow, golden,
every morning.

With us the overstretching
before the greed of the waves undone,
that foams by all the senses
lost.

With us the unfinished margins
where the waters become sloppy
and deep,
by the bed’s water that receives them,
leading to the salt of so many other waters.

With us the stem that sustains us
and strengthens,
of the tree, which even burns, impels us
the pursuit of freedom.

This is the happiness, perhaps supreme,
which feeds us the core,
with each new morning of our lives,
exposed to both looking sly,
perhaps envious, in this enchantment.

António MR Martins

(Inglês / english)

(com alguma ajuda do tradutor “Google”)

quinta-feira, 12 de outubro de 2017

Pelos meus livros


Imagem da net.




Se enformam estes versos
pura mensagem secreta,
entre sentires dispersos
dalgum simples “Ser Poeta”.

Por vezes palavras duras,
outras de trato mais fino,
pelas suaves canduras
em “Quase do Feminino”.

Diversos temas sociais
revisitando a vida,
as sentenças são vendavais
entre cada “Foz Sentida”.

Pressentimentos à vista
com carinho e doçura,
enleio que nos assista
pelas “Águas de Ternura”.

Criações imagéticas
seguem enredo que seduz,
as linhas estratégicas
em qualquer “Máscara da Luz”.

Os poemas caminhando
sempre ávidos de crescer,
as palavras saltitando
nas folhas de “Margem do Ser”.

Dos mistérios por polir
nas dificuldades não caio,
impera o simples pedir
tudo passa “De Soslaio”.

Cada vida, sua distância,
rebuscado desatino,
na partida tanta ânsia:
- há um “Severo Destino”!

Mesmo que tudo termine
da maneira mais incerta,
há tanto que se aspire
p’la “Porta Entreaberta”.

Ao trejeito patético
onde tanto se desbrava,
faltando chão poético
“Empresta-me a Palavra”.

 
António MR Martins

Montserrat Villar González


Montserrat Villar Gonzalez, imagem da net.




Por fim, a terra

O ar não consegue apagar
a pequena sombra dos homens
de tão absurdos e arrogantes que somos.

O mar, às vezes, avança
sobre toda a criatura
para demonstrar que somos
seres débeis e finitos.

A terra revolve-se
e remove as mentiras
em sinal de poder.

A lua segue fluindo sempre
num vaivém contínuo e mágico
apesar do pranto
dos que já se sabem frágeis.

Todos desapareceremos e o sol
apagará, por fim, as nossas sombras,
cobrindo de luz
os vazios mais obscuros
que povoaram este mistério.

 
Montserrat Villar González, in “Terra Habitada”, página 25, edições Palimage, Outubro 2014.  

terça-feira, 3 de outubro de 2017

Naperon de seda pura


Imagem da net.




Surge um ligeiro toque
e um ténue sobressalto
revestidos pela fala do silêncio,
cimentando a apalpação
dos dedos de todas as necessidades,
exercitando-se
a empreendedora manobra
da efervescente sedução oculta.

Na rapidez das diversas performances
desalinham-se beijos e gestos
e os dedos de mãos-ambas circulam
pelo apelativo desespero da pele,
numa contínua sofreguidão
até ao rubor do selectivo beijar.

Onde os lábios se laceram
de mágoas
e de saudades profundas.

 
António MR Martins