segunda-feira, 16 de janeiro de 2017

ESTÁTUA


Camilo Pessanha (1867-1926)



Cansei-me de tentar o teu segredo:
No teu olhar sem cor, frio escalpelo,
O meu olhar quebrei, a debatê-lo,
Como a onda na crista dum rochedo.

Segredo dessa alma e meu degredo
E minha obsessão! Para bebê-lo
Fui teu lábio oscular, num pesadelo,
Por noites de pavor, cheio de medo.

E o meu ósculo ardente, alucinado,
Esfriou sobre o mármore correto
Desse entreaberto lábio gelado…

Desse lábio de mármore, discreto,
Severo como um túmulo fechado,
Sereno como um pélago quieto.


Camilo Pessanha (Coimbra, 1867-Macau, 1926), in “Clepsidra”, página 16, edição bilingue, com tradução de Yao Feng, Instituto Internacional de Macau, 2016.   

terça-feira, 10 de janeiro de 2017

À Deusa A Má


Monumento à Deusa A Má, em Coloane, Macau.
Foto de António Martins




Ergueram-te,
de modo soberbo,
na divindade do taoísmo,
observando Coloane,
onde os traços crescem gigantescos,
ali mesmo defronte,
e te enevoam o horizonte.

Às tuas costas, a praia
onde deixaste de proteger
navegantes e pescadores,
já que os mercadores
se mostram, agora,
arredios destas paragens.

Ligam-te às origens de Macau:
Má Chou, Tui Han ou Néong-Má,
te enredam nesse sentido,
pelas metáforas, mais longínquas,
das simples alcunhas electivas
ou na vastidão dos teus pseudónimos.

A tua imagem “Mãe”,
essa, mantém-se intacta
em pleno realce no topo 
da ilha de Coloane.


António MR Martins 

sexta-feira, 23 de dezembro de 2016

caminho a prosseguir



Imagem da net, em: O nosso rasto.



te enlevo
no pensamento penetrante
das minhas íntimas vozes

e das origens bacocas
desprotegidas

te incendeio
nas chamas
do aconchego relevante

com os apetrechos
que invento pelas madrugadas

te exalto
na subtileza do ser
e na desmedida fonte
da riqueza de todas as águas

a tua permanência
me apara o desânimo
e me ilumina
o doce caminho
que devo prosseguir
nesta centelha da vida

 
António MR Martins

quarta-feira, 14 de dezembro de 2016

Gregorio Duvivier






não para não para não para não

a palavra para que antes fazia pessoas
pararem agora já não tem acento igual
à palavra para que indica que as pessoas
estão indo para algum lugar geralmente
sem parar isso é um sinal dos tempos
o que antes parava agora não para não

 
Gregorio Duvivier, in “ligue os pontos (poemas de amor e big bang)”, página 75, edições Companhia das Letras, 2013 (São Paulo – Brasil).

Paradoxos


Imagem da net, em: paradoxosdoedu.blogspot.PT



Amarrotada
a folha mensageira
onde a novidade
se expõe,
sem amarras.

A janela aberta
serviu de arremesso
num indelicado,
e defeituoso, jeito
do ser.

Perdem-se, assim,
as palavras nunca lidas
e o vento
desembrulha a liquidez
de todos os parágrafos.

Um subtil arrepio
intimista
prevalece
e tudo segue em frente,
de um outro modo.

 
António MR Martins

terça-feira, 6 de dezembro de 2016

João Carlos Esteves






REFLEXO IMPERFEITO

viste nos meus olhos o mistério dos silêncios
mas neles não vislumbraste o oceano adormecido
nem os rios que o beijam em devoção

não percebeste o cintilar da minha noite
nem a vontade que desponta na alvorada
apenas viste as nuvens que percorrem os meus dias
e que projectam sombras
nos sorrisos que se soltam

olhaste-me
sem veres as ilhas que abraçam o meu mar
nem as falésias que lhe acalmam o furor

guardaste em ti
um reflexo imperfeito

 
João Carlos Esteves, in “ Inventei-te as manhãs”, página 71, edições Chiado Editora, Julho, 2013.

Jeito de ser feliz




Imagem da net, em: www.mensagenscomamor.com



Dei por ti
na esquina da vida,
depois de tanta omissão contida.

Dei por ti
numa mensagem já lida,
oprimido num beco sem saída.

Dei por ti
pelos dias passivos,
no quintal dos versos cativos.

Dei por ti
pelos silêncios sofridos,
no encontro dos prantos esquecidos.

Senti-te
num abraço verdade,
ante o teu sorrir da felicidade.

Encontrei-te
semente do universo,
tema amor do meu único verso.

 
António MR Martins

sábado, 26 de novembro de 2016

Vera Sousa Silva







Os olhos

São meus olhos que te amam.
Quedam-se em tentação perante teu corpo
e ajoelham-se à tua voz.

Não sou eu!
Nunca fui eu quem te amou
nas ardências das lágrimas,
nos soluços dos gritos.

Foram eles – os olhos!
Traiçoeiros do meu ser extinto,
monólogo dos meus lábios
silenciosos…

São eles, os olhos,
que te amam assim

loucamente!

 
Vera Sousa Silva, in “Bipolaridades”, página 32, edições Lua de Marfim, Maio de 2012.

Invento-te para a vida


Imagem da net, em: Pinterest




A boca, rastreio dos olhos
na raiz do medo
em vida decorada de escolhos.
A luz ao fim da estrada
que liberta o segredo.

Querer-te
na imensa gestão da lágrima,
semente do meu chão
corpo do meu ventre.
Gélido passo
no desconforto de tanta estima,
surreal razão, sentido único,
o laço da grandeza humana.

Plena descoberta,
qual sensação?!
Jamais, um custoso dilema.

Para ti invento o verão,
num sorriso em poema!

 
António MR Martins

quinta-feira, 17 de novembro de 2016

Fátima Guimarães






Plenitude

Tudo arde.

Não há sol
nem lua
nem terra ou mar.

Há silêncio
plenitude
e a pele
enlouquecida
respirando nos teus dedos.

Fátima Guimarães, in “a voz do nó”, página 14, edição da autora, Novembro de 2014.

Sem solução


Imagem da net, em: www.fotolog.com



Brando céu, hostil comando, folha morta,
ponte quebrada, porto escondido,
estrela cadente, vida tão torta,
margem mínima, género perdido.

Suprema virtude, rosa sem canto,
apelo à saúde… sem direcção,
bocejo profundo, sinal de espanto,
aperto viral… tenho a sensação!...

Tanto devaneio, tal negligência,
rastreio tão mole, tal competência,
nestes tempos de tamanha espera.

Tantos furtos, corruptos da sedução,
ideias balofas, múltipla sugestão,
eis o vil pecado desta quimera.

 
António MR Martins

domingo, 30 de outubro de 2016

Ana Wiesenberger





[Dissipar os medos]

Dissipar os medos
Construir esperanças
Pequenos castelos
Dourados
Triangulares
Com cabeças de esfinge
Nas extremidades

Agarrar o teu rosto
Trazê-lo comigo, à hora do meio-dia,
Para dentro da minha noite

Fazer-te Ser
Estar
Querer
Os meus sonhos de menina
Com a alça da minha mala, frágil
Macerada de tempo

Ana Wiesenberger, in “Idades”, página 38, edições Esfera do Caos, Maio de 2012.

terça-feira, 25 de outubro de 2016

Alice, meu tesouro





Pedaço de gente,
por quem se envolvem sentires
de uma ternura sem fim.

É entre o teu cabelo escuro
e o teu sorriso sonhador,
que brotam os caminhos
para as maravilhas que sonhas
nessa tua observação contínua.

Tesouro incalculável,
valor infinito,
que faz bater no peito
o palpitar do aconchego
e o mais amplo sentido
que me faz sentir um avô único.

Eis a riqueza almejada
e o vaticínio cumprido
no sorteio surpreendente
para um patamar milionário da vida.

É tão bom chamar-te Alice!...
Minha doce netinha,
que anseio o momento-próximo
em que, alegremente,
me chamarás: avô!
 
António MR Martins

terça-feira, 18 de outubro de 2016

Carlos Nuno Granja (texto) & José Fangueiro (fotografia)






Pêndulo

Tu és o pêndulo.
Tu és o meu equilíbrio.
Tu és o meu solstício de Inverno,
a água no meu inferno,
a calma de um fogo terno.
Tu és as paredes do meu castelo…
o fio deste céu azul
que me atravessa o desafio.
Tu és uma só estrada
que me orienta um só caminho.
Tu és o meu solstício de Verão…
sem multidão… sem confusão…
em que vou eu ao teu encontro…
à minha espera no outro lado.





Carlos Nuno Granja & José Fangueiro, in “Poesia Objectiva” (texto de Carlos Nuno Granja e fotografia de José Fangueiro), página 51, foto na página 50, edições Alfarroba, Outubro de 2013.

Ficar ou partir


Imagem na net, em: Página a Página - WordPress.com



Pelo silêncio da minha saudade
resta a balada do rubor perdido,
sigla definidora da verdade
ante lampejos dum amor proibido.

Síntese da coerência permitida
êxodo dos átomos da ansiedade,
paradigma no decurso da vida
rastreio da ínfima felicidade.

No pulsar esfriado pelo tempo
sonegado por tanto contratempo
pela emergência de cada partir.

Atiçar da labareda fervente
e de todo o queixume consequente,
que só nos dá vontade de fugir.

 
António MR Martins