quinta-feira, 23 de maio de 2019

Espelho do tempo


Imagem da net.





Vês em mim a nostalgia perdida
dos anos bons,
as penas queimadas das mudanças
de estação,
a debandada das aves
que procuram o sol num outro lugar,
as rugas emergentes do acumular dos dias.

Vês em mim a saudade
das correrias da juventude,
o traço indefinido que o tempo transformou,
a secura da voz
que se vai tornando inaudível,
o cansaço do corpo
que nos faz parar vezes demais.

Vês em mim os meses passados
pelo olhar algo parado,
um respirar ofegante
de outras paragens humanas,
a ténue margem que nos separa
nesta caminhada.

Vês em mim
tudo o que em ti vejo,
a certeza de aqui estarmos
vendo-nos mutuamente
e de um momento para o outro,
no intervalo de um breve sorriso
ou de uma melancólica tristeza,
nos podermos abraçar.

António MR Martins

domingo, 19 de maio de 2019

A profecia da pálida rosa


Imagem da net.





Rosa branca de claro modo
rasgo de aromatização profunda
entre a palidez das pétalas
onde se encarnam os sentidos.

Um pássaro pousou em ti
e levou um pouco do teu perfume
pelas terras de tantas passagens
até ao cume da alta montanha.

Rosa pálida esbranquiçada
raiz, flor ou novo conceito
no deslumbre de cada alma
iluminada serenamente,

que não sustentas defeito
pelo esplendor profetizado
pelas palavras do vento
permanentemente.

António MR Martins

segunda-feira, 13 de maio de 2019

Aziago impossível retorno


Imagem da net.




No ínfimo toque da flor
o murchar em simulacro da raiz
pelo caule do porvir adormecido
onde a folha polvilha o impasse
por cada certeira razão

ao rubro no devorar do mar
a imperfeição de cada conquista
pelo tempo comum à vida
onde os amantes acontecem
na origem da persistente demora

a derrota será um destino
do caminhar simples a sós
onde morarão os abrigos
dos gestos que apertam
a obscura seiva do desenlace
sem retorno calculado.


António MR Martins

sábado, 27 de abril de 2019

Jidi Majia


Jidi Majia, imagem da net.





MENSAGEM

O que desejo
é o que já desejaste para ti.
Sou apenas um símbolo
na imensidão do firmamento estrelado.
Valho menos que um momentâneo raio de luz.

Procuro simplesmente uma oportunidade inesperada
dentro de uma entropia maior
como um rio de fantasias
que lança gargalhadas e lágrimas
em todos os cantos
de áreas ilusórias.

Acreditava que a terra era muito larga.
Na verdade, esse foi o meu erro.
As formas dos mortos dissipam-se diante de nós.
Ó mar do tempo, podes dizer-me
para onde foram todos?


Jidi Majia (China), in “Palavras de Fogo”, tradução de José Luís Peixoto, página 89, Rosa de Porcelana Editora, Fevereiro de 2019.  

sexta-feira, 26 de abril de 2019

Moderação carnal


Imagem da net.




Trazes o canto oco do cio
no silêncio esquecido das fontes
onde murmuram
as águas mais profundas

desvias o sentido de todas as palavras
e não deixas
despertar a correnteza em teu leito

quando as fontes acordam
a transformação
é única e sedutora

e a inquietude
aquieta-se por entre teus sentidos.


António MR Martins

sábado, 20 de abril de 2019

Gisela Casimiro


Gisela Casimiro, imagem da net.




TU AINDA ESTÁS VIVO

Substituamos então
a serradura, os pregos e alfinetes
pelo meu sorriso,
que o teu olhar pousa em mim
como um casaco destinado
há muito a deixar de servir.

Substituamos então
o alguidar perfumado,
a sede e os lamentos
por este espinho,
que o teu corpo ousa em mim
como uma esperança
desajustada.

O templo pode enfim fechar.
Trago ao peito o pó
das tuas sandálias
 e se me levanto ou deito
as horas parecem mudar.

Em tudo isto um colo
que não ficará por cumprir
e silêncio e brasa
dentro de mim.

Gisela Casimiro, in “Erosão”, página 16, Editora Urutau, 2018.

quinta-feira, 11 de abril de 2019

Pelas ruas de Coloane


Coloane, uma rua da vila. Foto de António Martins.




O oceano pacífico é mesmo ali ao lado
onde inventaram a imitação dos pastéis de belém
ou de nata
como se queira referir
vendem-se às centenas
diariamente
em caixas de seis em duas caixas com doze
ou dezoito pastéis distribuídos por três caixas
mas também se vende individualmente
ou aos pares
muitas vezes em trio

faz trinta anos a criação deste invento macaense
que faz com que centenas de pessoas ocorram
diariamente
à antiga vila piscatória de coloane

mas também por lá existem templos
cafés bares e restaurantes
vistas para a china continental
um antigo estaleiro que se quer monumento
e um rio que corre para o oceano

embarcações fora de vida
barcos fluviais resistentes
outros navegantes viajantes

ah! é verdade
também por lá encontramos uma igreja
escolas e casas de saúde
e uma biblioteca

António MR Martins

sexta-feira, 5 de abril de 2019

Pelo olhar de Xyza Cruz Bacani


Xyra Cruz Bacani (Filipinas), fotógrafa, ex. empregada doméstica.
Imagem da net.




“Somos como o ar”
na efémera palavra estendida
ao longo da objectiva aberta
e pelo olhar com que observas sentindo.
Um clique surge espontâneo
entre o serviço de teus préstimos domésticos
na azáfama da ondulação de cada dia.

Mas descobriram o tesouro
que acomodaste no teu baú
do filipino silêncio.
Todas as imagens com que interpretavas
o que vias de relevante
na nitidez ou não tanto
do inesperado (des)conforto da mente.

Agora já não serves
nem de ti se servem
de um outro qualquer modo.
Explanas a corrente dos dias,
sem contares o tempo como outrora,
das gentes que te rodeiam
entre os minutos e os segundos
das vidas em contínua viagem
e de todo o seu breve esfumar.

Agora tens um livro, o teu livro,
repleto de imagens do teu olhar
onde a cada foto tu sentes:
- “somos como ar”!

António MR Martins
2019.04.05 (Dia dos mortos em Macau, China)

sexta-feira, 29 de março de 2019

Passagens de peões, vulgo passadeiras


Imagem da net.




Tanta passadeira descontente
na travessia das ruas
não há calma que enfrente
tanto andar atabalhoado
por um pé que passa em frente
sem o dono olhar para o lado.

Às vezes fora delas
atravessam calmamente
e só olham para a frente
ou para o lado contrário
e sempre em linha corrente.

Até param ligeiramente
em sentido consciente
num apelo à buzinadela
e lá continuam seu percurso
com orelhas sempre moucas
e os condutores de sentinela.

Vem um grito cá de dentro
esfumado num sopro valente
e o coração bate premente
que na esquina seguinte
outra passadeira nos afronta
da mesma forma insistente.

Pois também há condutores
que olham de soslaio
e não respeitam a prumo
a passagem de um peão
que sendo simples lacaio
só quer seguir seu rumo.


António MR Martins

quarta-feira, 27 de março de 2019

António Duarte Mil-Homens


António Duarte Mil-Homens, imagem da net.




[Vulcões que de erupções me aqueceram]

Vulcões que de erupções me aqueceram,
que de lava me arderam
e no mar, da realidade,
magma vertido arrefeceram.
No mapa da memória são ilhas,
mais desertas que românticas,
naufragadas a muitas milhas,
ecoadas em semânticas…
Por isso te quero nascente,
pura e calma, refrescante,
que num leito firme e crescente
me lave contradições e medos,
nos irrigue os sentimentos
em lezírias inundadas
sem vítimas nem outros estragos,
desaguado num estuário
sem recifes nem rochedos,
navegado o teu corpo
sem mágoas nem mais fadário,
novos rumos traçando
sem bússola nem sextante,
em busca da aventura
solidária e constante,
bebida em grandes tragos
feita prazer e ventura.

António Duarte Mil-Homens, in “Universália”, página 24, edições Temas Originais, 2019.   

quarta-feira, 20 de março de 2019

Macau


Vista nocturna de Macau (parcial). Foto tirada da Taipa, 
por António Martins




Da varanda deste prédio
vislumbro num só olhar
a apoteose macaense
perante tantas das luzes
que iluminam tuas noites

saltam-me ideias na mente
imaginárias e verdadeiras
será que existo
ou tu existes
nesta globalidade planetária

e só me apetece mirar-te
observar-te no horizonte
ante as pérolas
que dão nome ao rio
das águas que te abraçam
num imenso delta de memórias

e quero

agarrar o universo
com uma simples palavra
ou em silêncio ficar
simplesmente
dizendo nada.


António MR Martins

sexta-feira, 1 de março de 2019

Curriculum vitae


Imagem da net.




Há morangos a descoberto
por entre a folhagem do teu olhar

e a luminosidade constante
num sorriso de tanta espera

há um trejeito uniforme
que se complementa
com o agridoce da tua voz

e nesse composto vinhedo
são versos e poemas
que te enfeitam o perfil

tua presença
é o antídoto para todas as maleitas

e é no mel dos teus lábios
que as abelhas da perfeição
acolhem as colmeias de todos os sentires.

António MR Martins

sábado, 16 de fevereiro de 2019

Sonora apoteose


Imagem da net.




Tenho a voz enrouquecida
por entre os meandros do silêncio

todos os sons inquietantes
sintetizam a parcialidade
audível de todas as formas polarizadas

nem o altifalante sustenta
os decibéis aleatórios à conformação

a carapaça do ruído jaz
na ambígua insustentabilidade
de toda a sonoridade ambiental
na mais digna cidade de todas as falas.


António MR Martins

Lília Tavares


Lília Tavares, imagem da net.




Guardadora de ventos

Cheguei a casa quando anoitecia.
Ainda quente, o vento empurrava-me o vestido.
Por um instante senti-me ave
levada por brisas, plumas e enigmas.
A aragem entontecia-me de prazer.
Queria ficar nos braços daquele vento.
Imaginei que o anoitecer me pertencia.
De pé, senti o teu corpo.
O meu, aberto e solto, deixou-se ir.
Sou apenas uma guardadora de ventos.

Lília Tavares, in “Nomes da Noite”, página 50, Colecção “A Água e a Sede”, edições Modocromia, Janeiro, 2019.

terça-feira, 12 de fevereiro de 2019

Arnaldo Saldanha Abreu


Arnaldo Saldanha Abreu, imagem da net.




Transparências

Em cima da mesa uma ampola de sangue.
A criança fervilha de curiosidade para agarrá-la.
Uma luz branca incide no tampo envernizado.
O reflexo percorre a transparência do pai estilhaçando
as delicadas extremidades de vidro.
O homem verte vinho para um jarro e tinge de tintura a água.
A mulher abre um frasco de amor e escurece de vermelho
fatias de pão.
As filhas têm tranças de cabelo azeitona e de trigo dourado.
À mesa todos se riem por ele ter a boca pintada de ameixa.

Na manhã seguinte quebrou a ampulheta e destruiu
o mecanismo de conta-gotas.

O reflexo imobilizou-se no rapaz que cresceu
e que vê pelas mãos à transparência.

Arnaldo Saldanha Abreu, in “Transparências e outros anexos”, página 7, edição de autor Euedito, 2014.