quarta-feira, 20 de setembro de 2017

Sintonias balofas


Imagem da net.



Batem às portas do passado,
fechadas pelo tempo
pelas chaves da imortalidade,
em pausados e suaves timbres.

O vento está fugidio
e a chuva arredia,
nestes dias de seca constante.

O verso traz-nos vivências
já esquecidas
ao rubro empolgante da memória,
num intenso aperto
enredado em saudade.

 
António MR Martins

segunda-feira, 18 de setembro de 2017

Lita Lisboa


Lita Lisboa, imagem da net.




ROSA DOS VENTOS

Num tempo de fogo,
quantas pelejas
teremos de hastear?

Com a alma febril do desespero
se espera a hora do milagre,
redentor dos pesadelos.

Até lá, morre-se no crepúsculo.

As essências aromáticas,
dissipam-se nas cinzas voláteis
e sem rota.

O sol derrete-se!
As estrelas choram
reinos de sombras…

E a rota dos ventos,
perde-se nas entrelinhas
dos poemas que não escrevo,
porque as memórias mágicas
adormeceram!

 
Lita Lisboa, in “Crepúsculo”, página 44, edições Temas Originais, 2012.   

sexta-feira, 15 de setembro de 2017

Baloiçar constante


Imagem da net.



Apedrejam-me as memórias
que vou guardando,
cuidadosamente,
nas minhas caixas da vida.

O azul dos meus afectos
resulta
da proeminência das valências
com que encaramos o futuro.

A raiz de cada medo
não é âncora
para a navegação nestes mares.

As ondas entre nós
baloiçam a termo fixo.

 
António MR Martins

quarta-feira, 13 de setembro de 2017

Alvaro Giesta


Alvaro Giesta, imagem da net.




(23 / Set / 2013) – ao Mestre

 

 
O cavalo do tempo
navega
por entre madrugadas cíclicas
e sóis;

desvenda mistérios e rumos
nas suas crinas soltas
de luz-infinita;

grita…

crinas rebeldes
soltas da sombra,
mistérios
nas areias do deserto,

rios por correr
na arena solta e veloz
do tempo…

o pensamento tardio
corre

faminto

por pradarias
de mistérios
por desvendar

 
Alvaro Giesta, in “Um Arbusto no Olhar”, página 38, edições Calçada das Letras, Outubro de 2014.

sexta-feira, 8 de setembro de 2017

Aprumo necessário


Imagem da net.




A céu aberto
as imagens dos percalços da vida.

Os corações cotejam sentires
na ambiguidade específica
de cada paixão.

Tudo balança
entre as expressões, os olhares,
as falas e os sorrisos,
de grosso modo.

Mas há sempre um aperto
em cada intimidade,
aprumo alfanado
de todas as emoções.

 
António MR Martins

quinta-feira, 7 de setembro de 2017

Camilo Pessanha (1867/2017)


Camilo Pessanha, imagem da net.




Foi há 150 anos o seu nascimento!...

OLVIDO

Desce por fim sobre o meu coração
O olvido. Irrevocável. Absoluto.
Envolve-o grave como véu de luto.
Podes, corpo, ir dormir no teu caixão.

A fronte já sem rugas, distendidas
As feições, na imortal serenidade,
Dorme enfim sem desejo e sem saudade
Das coisas não logradas ou perdidas.

O barro que em quimera modelaste
Quebrou-se-te nas mãos. Viça uma flor…
Pões-lhe o dedo, ei-la murcha sobre a haste…

Ias andar, sempre fugia o chão,
Até que desvairavas, do terror.
Corria-te um suor, de inquietação…

 
Camilo Pessanha, in “Clepsidra”, página 18, edição especial bilingue (português/chinês) do Instituto Internacional de Macau, Março, 2016.

terça-feira, 5 de setembro de 2017

Rio Lis, seio de paixões


Nascente do Lis, foto de M@rio M, in Olhares, Fotografia online.




Da nascente à tua foz
são quase quarenta quilómetros
onde se trapeiam formosuras
e se surpresam sentidos,
entre a eutimia e a tremedeira
e ante o olhar das olgas
situadas nas tuas margens,
perante o esmiuçar observador
dos locais mais oncos e inacessíveis.

O Pinhal de Leiria,
tal como a cidade,
te aconchegam no berço do teu leito,
desde o teu aquinhoar
com um outro da mesma espécie.

Nas Fontes das Cortes o início
e o teu culminar ondejante
acontece no lado norte
da Praia de Vieira,
onde se espraiam todos os teus sentires.

Estavanado por vezes
na tua profundez te acalmas
e, depois,  profuso imperturbado
te dás ao oceano.
 
Cincas-te como todos,
mas nem com o redar das armas
dos pescadores te envolves,
num recruzar de trocas e acolhimentos
pela natureza da abundância.

És o rio
do subitâneo único desejo
dum singelo abordar
e nessa tua fluvial caminhada
nos fazes apaixonar.

 
António MR Martins

quinta-feira, 31 de agosto de 2017

Chen Li, do Taiwan


Chen Li, imagem da net.



Tunnel

Your sobs, in the distance,
drilled a tunnel in my body.
This morning I was back again to the familiar darkness.
I entered the cell of the honeycomb wnere I belong
and waited for my sorrow to drip like honey.

In the amber hours I congealed myself,
reared by imaginary death, by
fudge of void. Silently your sobs
were tattooed on the leaves of my ears,
and then at the end of the tunnel they sparkled into a

transparent rain tree.

Search for its shape, not its entrance.
A tunnel passes through a life of distress to connect you and me.

 

 
Túnel

Seus soluços, na distância,
perfuram um túnel no meu corpo.
Esta manhã, voltei para a escuridão familiar.
Entrei na célula do favo a que eu pertenço
e esperei que minha tristeza gotejasse como mel.

Nas horas da âmbar eu congelei-me,
criado pela morte imaginária, pela
mentira do vazio. Silenciosamente seus soluços
foram tatuados nas folhas dos meus ouvidos,
e, no final do túnel, eles brilharam numa

árvore de chuva transparente.

Procurei a sua forma, não a sua entrada.
Um túnel atravessou uma vida de angústia para nos conectar.

 
Chen Li, in “The Edge of the Island”, página 152, edição Bookman Books, Taiwan, 2014.

segunda-feira, 28 de agosto de 2017

Epílogo


Imagem da net.



Sinto as dores da conformação
onde a palavra já não mexe
e o apêndice de cada verso
tem uma fugaz presença
no apagão das memórias.

As brancas inodoras permanecem
como devaneio oposto ao seu estatuto.

Cada princípio tem um fim,
dizem! Mas não ultimem a palavra.

Ai
estas dores não abalam
e a resistência
já não tem a força de outrora.
Os registos já não existem
e a consonância entre que já está feito
evapora-se.

Sinto as dores do conflito
das gerações esquecidas
na omissão de cada poema.

Os laços afectam a mediocridade
sem sentido qualificativo
e em quantidades efémeras.
Tudo é passageiro,
ao fim e ao cabo.

Ai
como as dores penetram em meus ossos
num aguçado percurso
em maldição exasperada,
nada parece ter sentido.

Fica o aperto das palavras
pelo nó da discórdia
e na envolvência do verso
que anseia pela liberdade!...

 
António MR Martins

terça-feira, 22 de agosto de 2017

Camilo Pessanha


Camilo Pessanha, imagem da net.




CANÇÃO DA PARTIDA

Ao meu coração um peso de ferro
Eu hei-de prender na volta do mar.
Ao meu coração um peso de ferro…
Lançá-lo ao mar.

Quem vai embarcar, que vai degredado,
As penas do amor não queira levar…
Marujos, erguei o cofre pesado,
Lançai-o ao mar.

E hei-de mercar um fecho de prata.
O meu coração é o cofre selado.
A sete chaves: tem dentro uma carta…
- A última, de antes do teu noivado.

A sete chaves, - a carta encantada!
E um lenço bordado… Esse hei-de o levar,
Que é para o molhar na água salgada
No dia em que enfim deixar de chorar.

 
Camilo Pessanha, nasceu em Coimbra, 7 de Setembro de 1867 (vão passar 150 anos do seu nascimento), faleceu em Macau (China), 1 de Março de 1926, in “Clepsidra”, página 74, edição bilingue pelo Instituto Internacional de Macau, Março de 2016.

segunda-feira, 21 de agosto de 2017

Minha naturalidade Lisboa


Lisboa, Castelo de S. Jorge (visto do Elevador de Santa Justa). Foto de António Martins. 


Lisboa, sete colinas em verso
num íntimo poema da saudade;
de ti nunca, ou jamais me despeço,
Lisboa, ó minha velha cidade.

Tua monumentalidade garante
no passado, presente ou futuro,
da História teu trajar elegante
junto ao Tejo, teu suporte tão puro.

Martim Moniz não deixou fechar portas
entre tantas linhas direitas ou tortas
que te bordaram nesses séculos fora.

És arte, cultura, até ao Chiado,
forte ventre donde nasceu o fado
musa presente da noite à aurora.

 
António MR Martins

sexta-feira, 18 de agosto de 2017

João Luís Barreto Guimarães


João Luís Barreto Guimarães, imagem da net.




Em segunda mão

Uma
casa de artigos à venda em segunda mão é
o lugar ideal para conheceres alguém. Puído
cerzido
mais sábio (a utopia perdida quanto à
duração do amor). Uma loja de usados é
o local ideal para revenderes a tristeza
(livrares-te da ilusão de que a inocência persiste)
deixares cair o apelido que trazias
algemado. Aí
entre coisas raras (sem uso
à espera de vez) está alguém a quem o tempo
ensinou a temperança
(alguém a quem o pesar ministrou paciência)
que recebeu em esperteza o que entregou em
esperança. Numa casa de artigos à venda
em segunda mão quem sabe tens para dizer
o que alguém vem escutar.

João Luís Barreto Guimarães, in “Mediterrâneo”, página 68, edições Quetzal Editores, Março de 2016.

quinta-feira, 17 de agosto de 2017

Nas marcas da areia


Imagem da net.



Na areia molhada a dois tempos
onde se transformam tantos costumes,
se recriam antigos passatempos
e se instalam perdidos cardumes.

Nova onda se espraia na areia
demonstrando tamanhas evidências,
do oceano não surge qualquer sereia
e água se esvai pelas saliências.

Neste filtrar de enorme beleza
puro representar da natureza
navegam as ondas, no seu vai e vem.

Pelo embalar delicado ou rude
belo marear de grande virtude
e o partir ou chegar me faz refém.

 
António MR Martins

domingo, 13 de agosto de 2017

António Duarte Mil-Homens


António Duarte Mil-Homens, imagem da net.



Poema que alguém não escreveu

Não me consolem!
Não me confortem!
Não me adormeçam o ódio!
Deixem-me soltá-lo e bebê-lo!
Quero respirá-lo e sê-lo!
Quero programá-lo e dizê-lo!
Não mo apaguem!
Não mo corrijam!
Não o estanquem!
Deixem correr…
Quero espalhá-lo ao escrevê-lo,
e para o escrever preciso tê-lo.
Quero fazer dele o ébola
em que cada um de vós,
ao lê-lo, sinta incubar,
virulenta, a indignação,
o medo, o horror,
quiçá a admiração,
o pasmo, a revolta…
mas não o sono, a indiferença.
Que seja a cura ou a doença,
jamais o mono, o forra estantes,
o objecto decorativo.
Figurativo, nunca! Antes abjecto!
Quero que o tenham à perna,
vingador e vingativo
dum passado que vomito,
que exorciso quando escrito.
Que não se afoga no tinto.
Que não se dilui quando o pinto,
disforme e feio.
Que não se cala quando o grito!
Que não me importa se o minto,
se assim o sinto…e ODEIO!!


António Duarte Mil-Homens, in “Voda ou Morte duma Esperança anunciada”, páginas 61 e 62, Edição de Autor, Macau, Setembro de 2010.    

quinta-feira, 10 de agosto de 2017

Naturalidades



Imagem da net.




É mesmo natural
o paladar das coisas simples
e a estratégia que as define,
sem modos,
sem preconceitos,
sem devaneios,
sem a ávida intenção
de uma crua resolução,
à imagem do prevaricador.

É mesmo natural
o respirar da revolta permitida,
porque nada supera
aquilo que é (im)possível fazer,
mesmo que vá para lá
de toda a imaginação.

É mesmo natural
o sonho,
a esperança,
o desejo,
na vida existencial…
mas tão difícil de alcançar!..

 
António MR Martins