quinta-feira, 23 de fevereiro de 2017

Sima Xiangru


Sima Xiangru (179 a.C.-117 a.C.), imagem da net.



31. Prosa Ritmada

Com seda autêntica se compõe o poema
E com garantia é exposto o brocado.
Cada urdidura, cada trama,
Cada mandarim, cada comerciante,
Tais os traços da prosa ritmada.

O pensamento do poeta de prosa ritmada
Abarca o universo.
Tudo observa nas personagens.
Isto só pode ser obtido através do interior,
Nunca obtido segundo a tradição.

(tradução Alexandre Li Ching)

Sima Xiangru (179 a.C.-117 a.C.), in “Quinhentos Poemas Chineses”, de diversas épocas e dinastias, vários autores, vários tradutores, página 61, coordenação de António Graça de Abreu e Carlos Morais José, edições Livros do Meio / Casa de Portugal em Macau, Setembro de 2013.

Sobre Sima Xiangru:

Inovador no trabalho poético, de vida agitada e complexa, é um dos grandes poetas do período inicial da dinastia Han. Proibido de casar com a sua apaixonada Zhuo Wenjun, por ser filha de um milionário, os dois amantes acabaram por fugir e sobreviver graças a uma pequena taberna, onde durante um período trabalharam. (na referida obra)

quarta-feira, 22 de fevereiro de 2017

apogeu


Imagem da net.



não logres
a oportunidade de partir
quando a floresta
se abre sem temores
aos olhos da perturbação

não mendigues
lonjuras
quando tudo o que te envolve
é o sentir profundo
de todas as ocorrências

não pressiones
domicílios
na resiliência desprotegida
ante a insegurança
que habita em teu redor

não vilipendies
a sorte
se o sol te assegurar
a luminosidade
crescente da vida

não te sufoques
no ar da inexistência
desabita teu estado amorfo
que logo serás desabitada
e rumarás ao máximo livre sentir


António MR Martins

segunda-feira, 20 de fevereiro de 2017

Tao Yuanming


Tao Yuanming (365-427). Imagem da net.


XIII

dois homens partilham a mesma casa
cada um rejeita aquilo de que o outro gosta
vivem em mundos opostos
um está sempre embriagado,
o outro sempre sóbrio
ambos, zombam um do outro
só nisso estão de acordo
embora nenhum deles compreenda
seja o que for das palavras do outro
ser circunspecto! não será isso estúpido?
e ser exaltado? não será muito mais judicioso?
só um conselho para aquele que se dedica ao vinho
e assim se embriaga,
quando o Sol se deitar que ele não se esqueça
de acender as velas.

Tao Yuanming (365-427), in “Poemas de Tao Yaunming”, página 97, edição bilingue, versão portuguesa e prefácio de Manuel Afonso Costa, uma edição Livros do Meio / Instituto Cultural do Governo da RAEM, Macau, Junho de 2013.

Sobre Tao Yuanming:

“Não há muitos anos, os deuses da poesia decidiram convidar os maiores poetas da China para um banquete de príncipes e letrados, algures num terraço entre nuvens pendurado numa das montanhas mágicas do velho Império do Meio. Vieram Qu Yuan (343-278 a. C.) nostálgico e triste, Tao Yuanming (365-427), precocemente envelhecido, sereno, sobraçando um ramo de crisântemos, Li Bai (701-762), imortal no exílio, com uma botija de vinho (…)”, António Graça de Abreu, in Prefácio, “Poemas de Han Shan”, citação de Manuel Afonso Costa no seu prefácio a “Poemas de Tao Yuanming”.

domingo, 19 de fevereiro de 2017

Han Shan



Han Shan (séc. VIII?), Dinastia Tang. Imagem na net.



65

O homem vive na poeira, no caos,
como um verme num caldeiro.
Dia após dia, sempre às voltas,
incapaz de sair lá de dentro.
Imortais, estamos a falar de quê?
Tanta inquietação e desassossego!
Os meses, os anos, a água a correr,
de repente, acordamos já velhos.

Han Shan (séc. VIII?), in “Poemas de Han Shan”, página 99, tradução, prefácio e notas de António Graça de Abreu, colecção Letras do Meio, edição COD, Macau, 2009. Apoio da Fundação Jorge Álvares.  

Sobre Han Shan, do prefácio:

“…Do Poeta e da Bruma
Não foram estas as razões. Han Shan não veio porque ninguém sabe ao certo quem foi o poeta, quando viveu, ninguém sabe onde o encontrar. O seu nome, que significa “Montanha Fria”, corresponde por certo a um pseudónimo e, por detrás destes dois caracteres, esconde-se um letrado estranho, evanescente, quase ignorado pelas muitas e desvairadas gentes que têm vivido debaixo do céu.

No entanto, numa China que, pelo menos desde o século II a. C., se acostumou a biografar os seus filósofos, poetas, letrados e mandarins, Han Shan acabou também por ser objecto de uma curiosa nota biográfica, acredita-se que redigida no século IX por um tal mandarim Liu Qiuyin de cuja existência real igualmente se duvida, apesar dos títulos imperiais que ostenta…”, por António Graça de Abreu.

Ponto de vista


"As ondas desfazem-se na areia...", praia de Cheoc Van. Foto de António Martins.



Ponto nascente
ponto mistério
ponto presente
um caso sério.

Ponto resistente
ponto intermédio
ponto poente
simples assédio.

Ponto tangente
ponto adultério
ponto descrente
gesto silvério.

Ponto indiferente
ponto médio
ponte dolente
enorme tédio.

Ponto ideal
ponto do prédio
ponto final
fim do remédio.


António MR Martins

sexta-feira, 17 de fevereiro de 2017

Yu Xuanji


Yu Xuanji (844-869), poetisa chinesa da Dinastia Tang. Imagem da net.



Uma alegoria

A primavera às flores de pêssego espalha-se
Em todo pátio à lua cintilam os salgueiros
Cá em cima estou, no quarto, perfeita a maquiagem
recém-vestida, à espera da noite, o silêncio
Ao lago sob as flores de lótus os peixes
Em volta do arco-íris revoam pardais
Tudo nesta vida é sonho, alegria ou pena
vêm-nos aos pares; possa eu por fim acordar


Yu Xuanji (844-869), in (Poesia completa de Yu Xuanji), página 61, tradução, organização, apresentação e notas de Ricardo Primo Portugal e Tin Xiao, edição da Fundação Editora da Unesp (FEU), São Paulo, Brasil, 2011.  

terça-feira, 14 de fevereiro de 2017

Pela Casa do Mandarim


Na Casa do Mandarim. Foto de António Martins.



Sobram salas e corredores
nas fileiras de tanta riqueza,
sonhei amores e desamores
pelos anéis impuros da perdição.

A submissão terá estado presente
em cada concubina 
da sentida espera,
os despojos das vestes perdidas
aromatizaram
a fragilidade das memórias 
e as flores quase decoram
toda a (im)perfeição.

As gaiolas desabitadas
potenciam o desalento
da inconveniência
e de tanto espaço frio
na imprudência humana,
onde o calor se esfumou.

Há rituais que se não cumprem
e um passado inquietante,
talvez alheio,
a tamanha riqueza sem palavras.

Os corredores ultimam
uma sã imagem da ilusão. 


António MR Martins

segunda-feira, 13 de fevereiro de 2017

Complementaridades


Imagem da net.


No limite de tanta cena
apogeu de tanto porvir,
num céu que nos acena
até ao momento de partir.

Ténue luz
sem condimento,
truz, truz…
bater sem fundamento.

A vida não é só estar
num anseio sem limites;
é canseira a desbravar
por renovados apetites.

Tanto passo dado em falso…
sustos, surpresas e ilusões
e por cada mero percalço
lá vêm extensos sermões.

Caminharei neste dilema
que me ilumina o caminho,
avançar é como emenda
que tratarei com carinho.

Cá estarei sempre a lutar
com armas de que disponho,
que passo a referenciar
porque delas me componho:

Mãos, coração,
pernas, braços,
mente…
ou seja: eu!


António MR Martins

Autores participantes no 6.º Festival Literário de Macau - Rota das Letras 2017


No site da Rota das Letras, no item Autores, estão indicados todos os participantes no 6.º Festival Literário de Macau 2017, por ordem alfabética, pode conhecê-los aqui

domingo, 12 de fevereiro de 2017

António MR Martins em escritores.online


O meu perfil na plataforma online escritores.online pode ser visto aqui.

sexta-feira, 10 de fevereiro de 2017

Entrevista ao jornal "Ponto Final", de língua portuguesa, em Macau


1.ª página do jornal "Ponto Final", com alusão
à entrevista nas páginas 4 e 5, edição de 2017.02.10 (sexta-feira).
Um trabalho de Sílvia Gonçalves (entrevista) e
Eduardo Martins (fotos).

Página 4.


Página 5.

quinta-feira, 9 de fevereiro de 2017

Henrique Levy


Henrique Levy



morri para ser teu

procura na terra
desbravada imersa
na solidão da noite
o meu corpo transformado
na aurora luminosa
cada manhã
envolta em branco
noiva viúva
viverás nesse encanto
procura amor nas minhas mãos
o sabor onde a tua alma repousa

e a luz meu deus!

tão branca parece a manhã
já clara dos teus olhos em êxtase
quando a minha boca
a tua percorria ardente

fui teu
morri para ser teu
tu ressuscitaste
deixando-me só
morto
envolto no meu burel
de noivo prometido
à vida 
que já tarda


Henrique Levy, in “O Silêncio das Almas”, página 23, edições CriarInovar, Macau, 2015.

Pelo Café Caravela




Café Caravela. Foto de António Martins.



Ao centro uma mesa vazia
e um expresso pedido ao balcão,
depois gente
algumas mesas cheias
outras com gente, também.

A caravela é presença
nas paredes daquele espaço
e há uma na vitrina exposta
semi tapada
pela ementa do dia.

A maior parte das palavras sopradas
soa a uma linguagem diferente,
aquela em que se diz saudade,
sem uma tradução sentida 
em tantas outras línguas.

Olham-se chegadas e partidas,
fala-se de quem acabou de sair
e da sua incapacidade pendente.

Quando alguém entra
também se ouvem tecer elogios, 
que feitios, que artimanhas,
que insensatez,
que mesquinhez…

Existe uma esplanada no exterior,
onde o silêncio não se tolera
e a roupa mais mal lavada
se tenta sujar um pouco mais, 
consecutivamente.

Entretanto chega o expresso,
Delta, cremoso,
mas sem o sabor da saudade.

Olho para o lado
e lá vejo, outra vez,
a ementa do dia tapando uma caravela,
daquelas dos descobrimentos…

Mais uma descoberta!


António MR Martins 

Cartaz oficial do 6.º Festival Literário de Macau - Rota das Letras 2017


Uma obra fantástica do artista Eric Fok.


terça-feira, 7 de fevereiro de 2017

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