quarta-feira, 17 de janeiro de 2018

Vítor Cintra


Vítor Cintra, imagem da net.



(Sempre presente, este saudoso poeta e amigo, que jamais esquecerei. Hoje, dele, trago-vos um poema de um livro que é um autêntico hino à mulher (de que é exemplo o poema aqui publicado, precisamente o primeiro do livro) “Nas brumas da magia”. Amavelmente, concedeu-me o privilégio de escrever o prefácio desta obra, foi um prazer único e inesquecível.)

1.

A Natureza modelou,
nas formas do teu corpo,
a beleza de gerações.

Cinzelando com precisão,
talhou-te a face delicada,
rasgou-te o sorriso sedutor,
acendeu-te o fogo do olhar,
ergueu-te o pescoço esbelto,
ornando-os com o perfume dos teus cabelos.
Com rasgos de génio,
elevou-te os seios sensuais,
alisou-te o ventre fértil,
torneou-te as coxas soberbas,
alongou-te a elegância das pernas
tornando-te um mito, chamado mulher.

Ao dotar-te de sensibilidade,
Deus transformou-te na obra-prima da Criação.


Vítor Cintra, in “Nas brumas da magia”, página 13, edições Temas Originais, 2011.   

terça-feira, 16 de janeiro de 2018

Não há pão para as migalhas humanas


Imagem da net.




Soltam-se as migalhas
do pão perdido no tempo,
ressequido,
que ao travo consumido,
pelo mastigar rude,
traz o rijo sabor
de todas as amarguras.

Tanta migalha desperdiçada
a que as formigas não dão vazão,
no seu peculiar labor,
para se protegerem
de todos os invernos.

Por esse mundo fora…
tanto pedaço de gente
sem as migalhas que bastem.

Em todas as estações,
pelos meses fora,
todos os dias!...


António MR Martins

sexta-feira, 12 de janeiro de 2018

Deusa d'Africa


Deusa d'Africa, imagem da net.




JURO

Juro que ressuscitei
dos teus braços, em que a vida me sepultara,
acompanhada por meio mundo que urinara
hinos melancólicos de júbilo,
sobre a minha desgraça e o meu penico ensurdecido,
por todo o dejecto expelido
por artistas da minha praça sem arte,
que tinham sido convidados,
à minha cerimónia fúnebre.

Juro também,
que tendo sido exterminada a natureza,
com a qual fui soterrada,
desabrocharam meus dias murchos,
na presença de criminosos em debandada
que me saquearam a vida
em troca da alegria, da tristeza e da doença
na jura de Junho junto aos juízes
e aos Padres e Abades
que com a minha família
desvalorizaram-me pelo gado.

Juro que ressuscitei,
da simpática morte que me acolhera,
em seus aposentos, onde teus abraços e beijos,
me enlutavam da venenosa ternura
pela qual fui morta,
não tendo jurado em Junho junto aos juízes
junto aos Padres e Abades
morrer eternamente.


Deusa d’Africa, in “A voz das minhas entranhas”, páginas 68 e 69, Prémio Literário Internacional ALPAS XXI 2011, Grupo Cultural Xitende / Ciedima, Lda., Maputo, 2014.   

quinta-feira, 11 de janeiro de 2018

De volta ao Alentejo profundo


Imagem da net.



Do distante ao perto
de tanto sentir

quando se entrava
naquela rua de casas térreas
ao bom cariz
das aldeias
e vilas alentejanas

o céu queimava
a soalheira cantiga
da sesta adormecida
pelo exterior vazio
da gente
onde o branco se mantinha
num tom
ora brilhante
e mais luzidio
perante o baço turvo dos dias 

na casa do fundo
ouvia-se o cante
na sonoridade  de um rádio a pilhas
numa dolência conformada
pelos trilhos rudes
da sobrevivência

ainda a cegonha
havia abalado há pouco
e as pilhas
demorariam
algumas semanas
a sucumbir


António MR Martins 

segunda-feira, 8 de janeiro de 2018

Rui Cascais


Capa do livro "Returning home dirty with the light", de Rui Cascais.




SONHEI QUE CHEGAVAM VISITAS

“O Inverno ainda não me abandonou.
Nem sequer eu,” – adormeci a pensar.

Sonhei que entravam todas
pela mesma porta

as suas falas dividiam o ar
e os seus risos carburavam

alguém na casa parecia ocupar-se delas
mas quem, se vivo só?

O homem que vivia só
e não abandonado pelo inverno

sondava e sondava no seu sono
com centelhas

e apercebia palavras irreconhecíveis
que pareciam vir dizer-lhe de si.

Com uma orelha perseguia o sonho
com a outra escutava a mina da casa.

Havia passos na cozinha como os que
dá um anfitrião

e ruídos de chá no vestíbulo
servido de pé.

Estavam de passagem as visitas
que sentia ali escuras e de longe

ouviu-as sair pelo interior
do seu acordar por fim

partindo pelas assoalhadas enquanto
a imagem dele endurecia num espelho.


Rui Cascais, in “Returning home dirty with the light“, páginas 46 e 47, edições COD, Setembro de 2017, Macau.

quinta-feira, 4 de janeiro de 2018

Emersão


Cena do filme "Bravura Indômita" (2010), imagem na net.



Escorre um sangue bravio
que nos incomoda a contenda,
numa confrontação pertinente
e assaz suspeita.

Espevitado jeito
que a calma, por si só,
jamais conseguirá controlar.

Ao fim de tudo,
na inconformidade do ser,
empolgando-se,
surge-restando
um esteio para desbravar.


António MR Martins 

segunda-feira, 18 de dezembro de 2017

Paulo Henriques Britto



Paulo Henriques Britto, imagem da net.



DE VULGARI ELOQUENTIA

A realidade é coisa delicada,
de se pegar com as pontas dos dedos.

Um gesto mais brutal, e pronto: o nada.
A qualquer hora pode advir o fim.
O mais terrível de todos os medos.

Mas, felizmente, não é bem assim.
Há uma saída – falar, falar muito.
São as palavras que suportam o mundo,
não os ombros. Sem o “por quê”, o “sim”,

todos os ombros afundavam juntos.
Basta uma boca aberta (ou um rabisco
num papel) para salvar o universo.
Portanto, meus amigos, eu insisto:
falem sem parar. Mesmo sem assunto.


Paulo Henriques Britto, in “Macau” (Prémio Portugal Telecom de Literatura), página 17, edições Babel, 2010.  

sábado, 2 de dezembro de 2017

Urgências


Imagem da net.




Nessa eupatia blindada,
profusa em tiritares disfarçados,
se aprofunda
o olhamento a tantas dúvidas.

Há tanta barreira paralela
que não ousas ultrapassar
no aquilatar dos teus problemas.

Separam-se as águas
de todas as fontes
e a leveza da tua envolvência
torna-se irrequieta a cada momento.

Tanto ilogismo balança
em tuas mimosas mãos.

 
António MR Martins

quinta-feira, 30 de novembro de 2017

Rui Rocha


Rui Rocha, foto do Jornal Tribuna de Macau (na net).



[todo o lugar é um lugar vazio]

 todo o lugar é um lugar vazio
nem as árvores nem as pessoas
farão menos vazios esses lugares

 o olhar de hoje será diferente
do olhar de amanhã
como dos dias que se seguem

 contudo tudo continuará vazio
tão vazio como a morte de um deus
que nunca existiu

 
Rui Rocha, in “Taotologias”, página 37, edições Editora Labirinto, colecção contramaré / 11, 2016.

quarta-feira, 29 de novembro de 2017

Plena transformação


Em Ansião, foto de António Martins.




no desnudar da árvore
a transformação
da natureza inacabada.

os gestos arredondam-se
perante os extremos dos ramos
vividos
e as folhas sobrevoam
até à momentânea quietude dum chão
que jamais será permitida.

o vento impulsionará
cada esvoaçar circulante
das folhas perdidas
que se vão juntando
ao longo do muro da separação,
enquanto outras
voltarão à terra, virando estrume,
nesse conceito
de um transformar pleno.

há um sentido para todas as coisas
e a memória
permanecerá viva
a qualquer consequência
dos mais inusitados caminhos.

as imagens,
em qualquer âmbito,
darão sentido
à justificação desse mistério.

 
António MR Martins

sábado, 25 de novembro de 2017

Hoi An (Vietname)


Um das margens do Rio Thu Bom, em Hoi An.
Foto de António Martins.




nos teus velhos laços
da existência
caminham correntezas
de ânsias e melodias,
sob a vigília
das tuas paredes de antanho.

ante a serenidade
das águas, verde-opaco, do Thu Bon,
as tuas pontes testemunham
a passagem de milhares e milhares
de viajantes.

na paisagem
decorada com balões de tantas cores
existe um cheiro de gastronomia, a teu modo,
e os paladares ajeitam-se de forma consecutiva.

o calor traz-nos
o sabor dos corpos
e o louco excitar dos deuses
perde-se no tempo.

as motorizadas
surgem-nos de todos os lados
desenfreando êxtases,
perante as memórias desguarnecidas.

o arroz é companheiro da alma.

mesmo quando a natureza
age de forma louca
e te desalinha
dos teus preceitos desalinhados.

António MR Martins

quinta-feira, 23 de novembro de 2017

Inez Andrade Paes


Inez Andrade Paes, imagem da net.




FLORES ABERTAS

lembras-te da tarde
em que estavas adormecido junto ao cedro
com pedras castanhas a cobrir-te os pés
essas flores amarelas que saíam aqui e ali
eram as alegrias que teus dedos faziam mexer
por baixo das agonias
que teu coração não quis deixar transparecer

diz-me tens saudades daquele lugar?
onde as árvores cantam
e os pássaros param para ouvir
tudo ali é diferente porque de amor se quis
que naquele cedro perto da raiz nascessem pedras castanhas
todas brilhantes como se pintadas de verniz

ali jazem a tua e a minha mão
em forma de raiz para que delas nasça outro cedro

com flores amarelas abertas

é para ti

 
Inez Andrade Paes, in “Da Estrada Vermelha”, página 46, edição da Autora, 2015.  

quarta-feira, 22 de novembro de 2017

Último bónus


Imagem da net.




Às vezes
chove-nos na infância
e ficam turvas
todas as recordações.

Lembro-me
dos raios de sol
que vieram secar
todas essas imagens.

Quase todas desbotaram
e o deslumbre húmido
escorregou-nos pelas veias.

 
António MR Martins

terça-feira, 21 de novembro de 2017

Rogério Martins Simões (Romasi)


Rogério Martins Simões (Romasi), imagem da net.



Por quem a minha alma se ausenta

Aquela por quem minha alma se ausenta,
Divina musa que o meu tempo laça,
É sal que me tempera; que reinventa
A noite, quando a noite nos abraça…

Aquela que me tenta e tanto atenta:
Ilumina, fascina, e tem na graça:
A graça com que embala e movimenta,
Meu corpo que perdido esvoaça.

Aquela que na dor me faz rochedo;
Que por amor me perco e perco o medo:
É voz deste sofrer intolerante.

E se nem andar sei aquando ausente,
Aquela por quem meu amor tanto sente:
É beijo deste belo e terno instante.

 
Praia das Bicas, 21/10/2013 20:53:10

 
Rogério Martins Simões (Romasi), in “ Golpe de Asa no Sequeiro”, página 80, edições Chiado Editora, Maio, 2014.

sábado, 18 de novembro de 2017

Numa folha de papel


Imagem da net.





Na branca folha de papel
rectângulo do meu sentir,
entre caneta ou pincel
as imagens podem surgir.

Risonha fuga à vida,
metáfora discordante;
na palavra permitida
um verbo desconcertante.

Quatro cantos em si mesma,
um espaço por preencher;
com quinhentas se faz resma
pelo pintar ou escrever.

Dobrável de qualquer modo
rasgável de tanta forma,
mensageira no seu todo
contrária à simples norma.

Legendada a preceito
simples nota, grande carta,
sendo livre seu respeito
de utilização farta.

Secreta anotadora,
alvo de tantos costumes;
mensagem libertadora
das palavras, seus perfumes.

 
António MR Martins