quinta-feira, 31 de janeiro de 2013

Melodia bucólica

 
Zona Envolvente do Rio Nabão, em Ansião (hoje).
 

Voam pássaros contentes
entre outros mais dolentes
nesta paisagem que vejo.
Alguns saltitam cantando
nos frios ramos brincando
procurando seu desejo.

O sol surge na timidez
perante esta escassez
que tanto fresco abala.
O vento empurra tudo
na terra de teor mudo
onde por vezes resvala.

Entre um céu que observa
e as estrelas que conserva
o que em baixo se passa.
As nuvens correm a eito
com um ar em desajeito
mas sempre com grande graça.

O cheiro destes silvados
caminho de namorados
e o pão que há na mesa.
São temas dos mais batidos
seguindo rios sofridos
que vestem a natureza.

 
António MR Martins

deixa. não toques mais.






51 - Margarete Silva (Mar)








deixa. deixa, não toques mais. deixa. tenho medo de parecer tarde. mão no coração. amanhã é o dia seguinte. o outono vem sempre depois da primavera. hoje não. tenho um medo. o homem passa por mim com um semideus ao colo. pergunto para onde vai. diz-me que a terra acaba onde a água começa. vou com ele. quero encontrar a água e morrer em paz. reparo que estou grávida, pelo azul do vento trazido nas solas. olhos semi-fechados. queria abrir o mundo. tu sabes. mete-lo numa caixa de música, dar-lhe corda, deixá-lo tocar. amanhã é o dia seguinte. tu sabes. pergunto ao homem onde estava quando me pediram o coração. recua um pouco. o corpo cai-lhe, o semideus no chão. porque não terei medo de um medo nem de outro medo nenhum. que nenhum medo este me transforme em água- pouco antes do anoitecer um pássaro socorre ao meu peito. deixa. deixa ficar assim. não toques mais.

 
margarete silva (mar)

quarta-feira, 30 de janeiro de 2013

Mulher firmeza



Os laços que te enfeitam
cabelos onde se deitam
os meandros do teu rubor.
São flores que nos deleitam
e dessa forma espreitam
delícias de tanto amor.

Nessa maneira singela
tantos fazem sentinela
da guarida que concedes.
Se percebem da certeza
nessa ilustre firmeza
em que quase nunca cedes.

Na rigidez do teu carisma
por quem tanto homem cisma
caminhos de descoberta.
Querendo ancorar no cais
onde vens suspirar teus ais
em tanta hora incerta.

Nada há que te apontem
nem que queiram ou desmontem
a palavra verdadeira.
És firme pelo teu sentir
no presente ou no porvir
já que és mulher inteira.

 
António MR Martins

Terceira Antologia HLC - 2013


 
Autores e colaboradores na HLC - 2013.
 
.........
 
Em ordem sao os siguentes autores:
1 - Antonio MR Martins (Portugal), poeta
2 - Casciano Nivaldo Lopes (Sao Paulo, Brasil), poeta
3 - Katerina Kostaki (Athens, Grecia), poeta, periodista, espiritualista ortodoxe
4 - Mihai Cantuniari (Bucareste, Romania), poeta, novelista, hispanista e translador de Varga Llosa, Perez reverte e outras grandes autores hispanicos del mundo; Premio para Traduccoes de Uniao dos Escritores de Romenia
5 - Elisabeta Isanos (Bucareste, Romenia), poeta e novelista, transladora de frances
6 - Bianca C. Dan (Deva, Romenia), poeta existencialista, periodista
7 - Dorin Cozan (Romenia), poeta
8 - Leonard Ciureanu (Italia-Romenia), poeta migrante
9 - Ion Lazu (Bucareste, Romenia), poeta, novelisto, artista fotografico, periodista
10 - Beatriz Giovanna Ramirez (Colombia - Spanha), poeta
11 - Neda Nunez Gonzalez (Argentina, Buenos Aires) - autora de prosa de ficcao e senzacao, admniradora de Bram Stoker e Dracula
12 - Fra Rodolfo de Jesus Chavez Mercado (Colombia), poeta e monje carmelito, sem trabalho em Bogota, meu bom amigo (foi aqui, em Romenia, o verao pasado)
13 - Manuel Ameneiros (Mexico), poeta, contador, artista fotografico
14 - Roberto Esteves da Fonseca (Brasil(, poeta e pintor de Rio de Janeiro
15 - Oziella Inocencio (Brasil), poeta, escritora, periodista, trabalha em UEPB (Unioversidade Estadual de Paraiba)
16 - Patrizia Boi (Roma, Italia) - novelista, autora de "fiabe" (contos pra meninos)
17 - Alfred Vassallo (Malta Reyno Unido, Londres), poeta, ensaista, director de teatro em Londres
18 - Masud Khan (Bangladesh-Canada), poeta e scientista
19, 20 - Andreia Franco, poeta, novelista, ensaista...
21 - Morelle Smith (Edinburg, Ecocia, reyno Unido), poeta e critico literario

NOTA: Essa e so uma parte de nosso Equipo.
Ate mais,
Daniel Dragomirescu

Uma entrevista no blogue "Toca a falar disso"


O poeta e amigo Emanuel Lomelino no seu blogue "Toca a falar disso", que sofreu algumas alterações, iniciou hoje um novo tópico: Entrevistas.
Tive o privilégio de ser o primeiro nessa senda, estou-lhe grato pela referência.
Votos de muitas felicidades Emanuel, em particular para o seu novo livro que está aí a surgir.
Meu abraço.
 

terça-feira, 29 de janeiro de 2013

A nova poesia de Minas Gerais, Brasil...

 
Capa do livro "OIRO DE MINAS a nova poesia das GERAIS"
 
 

Amanhã não publicarei o habitual tópico “Poemas de Amigos”, vou proceder a um breve descanso. Não é por falta de textos, pois ainda me restam cerca de 100 autores para publicar.

 
Hoje vou fazer uma alusão à poesia que se vai fazendo por terras brasileiras, mais precisamente no estado de Minas Gerais, publicando um pequeno conteúdo da obra “Oiro de Minas – a nova poesia das Gerais”, numa selecção da poetisa Prisca Agustoni (que também prefaciou o livro), com trabalhos de 10 autores, uma edição (única de 500 exemplares) Pasárgada / Ardosia, coordenação de Ozias Filho, com o apoio da Casa da América Latina e do Espaço Cultural “Quinta de Milflores”, Embaixada do Brasil, em Lisboa, Novembro de 2007. Deliciem-se!...

 

A SOLIDÃO (página 22)

 
A solidão ama
corações completos.
É noiva que propõe
tachonar a liberdade.
Visita qualquer um,
criança ou adulto.
Brota nos travesseiros
como flor de macela.
E muitas vezes arma
seu camarim num tumor.
É a noite terrível
que se adere ao sonho.

Eustáquio Gorgone de Oliveira

……

 
QUEDA (página 31)

 
No outono, a carne soçobra.
As maçãs do rosto cedem
e a testa expõe seus vincos.
Os lagartos procuram as rochas
e pedem sol para suas couraças.
Vista da janela,
a cidade das cinzas
provoca cansaço e náusea.
O mar de pedra soterra
a árvore dos brônquios.

Donizete Galvão

……

 
MOSAICO (página 49)

 
Dissociadas as palavras
e seu desencanto.
Ninguém responderá
pela cor do dia.
Todos vão ficar embaraçados:
(a memória
na curva
de nós mesmos).
Não se erga essa mão,
o grito infirma.
    
No pátio de outra manhã
daremos melhor desculpa.

  
Júlio Polidoro

……

 
DOIS (página 64)

 
dois irmãos no começo. o que sabe o
caminho e o outro: dois. e não há
retorno. dois irmãos desde nunca. um,
o que vê e conta. outro, o que ouve.
dois. não se separam. por onde passam,
o mundo: o coração de um pássaro,
desvios, carcaças de antílopes, cidades
riscadas do mapa, o dorso tigrino de um
presságio, o tempo mais velho, um deus
trocando a pele. dois irmãos ainda agora.

Ricardo Aleixo

……     

 
PAISAGEM COM FRUTAS (página 72)

 
Duas peras sobre a mesa
esperam a tua fome.
O dia é verde
e o vento tem cores provisórias.
 
Sobre o muro
um pássaro mudo
de olhar escuro
perscruta a tua sombra

Ele sabe
que ninguém sabe
em que azul
ocultas
teu absurdo.

Maria Esther Maciel

……

 
AVÓ DEPOIS DE MORTA (página 88)

 
A avó ainda rega o canteiro
onde mirraram os brinquedos.

Mesmo morta ainda
ralha com a tempestade
que escondeu os meninos
em outra idade.

Fernando Fábio Fiorese Furtado

……

 
ARCA (página 104)

 
Para conter a sete chaves dá-se a arca.
Senhora de si, contra cupins e traças,
contra a ameaça dos anfíbios. Maior a do
esquecimento. Passando de casa em casa,
de um parente a outro atinge a inércia de
jamais ancorar. Embora seja esse plural
da vida, alguma raiz reclama seus gumes.
Arcas são abraços de vegetal e homem,
contrato de gravidez. Uma vez no rebojo
se multiplicam em alarmes. Em pugnas
e morte, em lençóis enxovais, em minas.
Para exibir a sete chaves o invisível só
mesmo a arca e a família que nos habita.

Edimilson de Almeida Pereira

……  

 
DILÚVIO (página 121)

 
lento
por entre os autos
o amor elabora seu queixume

as águas vieram
perfurar a ordenação dos meses
arquitetura que se entrega
à escarpa amarelecida
por seus tomos

o amor sedimentou meu corpo
no corpo de outros viventes
ouço ainda
o trabalho dessas fusões

o seu leve fascínio
pelo extermínio

Iacyr Anderson Freitas

……  

 
A COMPOSIÇÃO DA PALAVRA (página 133)

 
a derradeira nascente
acende a ilha cercada de águas
à derradeira vertente
os lobos
é que varam atrás de alimento
e a primípara seta eu é que lanço
e vôo

Wilmar Silva

……

 
FICANDO TARDE (página 144)

 
Estou ficando tarde. E o tempo
vai carpindo antes do tempo
rugas de cansaço e lucidez.

Com ar de melancolia
(estou ficando tarde)
percorre o rosto um sorriso.

As horas se gastam, amarelam
como quando a vida arde
- ó albor – na pele, sem aviso.

Fabrício Marques

tombo contínuo



o tropeção
esfria o ânimo

a queda
não é finita

erguendo-se

à estação seguinte

a força regressa
lentamente

contudo
tanto se desvanece

quando o tombo
de novo
acontece

 
António MR Martins

Adeus até à eternidade


 



50 - José Manuel Brazão








Da janela da minha Vida
olho esse mar da ilusão,
de ondas e maresia de amor,
que me lembram
esses momentos de fervor
de amor intenso
ora sonhado
ora vivido
e agora sofrido,
deixando dor
a quem um dia
se teve amor...
... hoje olhamos
as nossas imagens,
sentimos o cheiro
desse amor
e da saudade por inteiro
em nossas almas!

 
José Manuel Brazão


segunda-feira, 28 de janeiro de 2013

Salpicos de mulher fatal

 
"Mulher Fatal II", in clubedospoetasmalditos.blogspot.com (na net).
 
 
Nesse salivar sensual
onde te abrigas fatal
despertas ânimos loucos.
Miras todos de soslaio
em volta desse teu raio
onde filtras muito poucos.

Passas de lado estreita
a silhueta perfeita
nesse andar bambeado.
Depois respiras profundo
e no teu sublime mundo
trazes nariz empinado.

Não ligas a um piropo
manténs-te sempre no topo
enredada em teu perfil.
Passeias o teu perfume
aquecendo nesse lume
cada olhar por mais viril.

Os cães ladram sem rodeios
e tu segues com teus meios
num aprumo sem ter igual.
Só se ouve o suspirar
pela mulher de deslumbrar
num segredo de ser fatal.

 
António MR Martins

Madrigais…






49 - Antónia Ruivo





Dá-me um abraço perdido no tempo
Divide comigo por um momento
A tentação de ter lugar além
Onde o imaginário acontece. Porém
É temível a pergunta
E depois.

Quando os rios secarem e as fontes cessarem
Perdemos subitamente a vontade
Repetidas palavras vãs
Dá-me um abraço na frescura das manhãs
Olha as ruas desertas, as portas fechadas
Onde a cidade ainda acontece
E os passos vadios calcam a calçada, solenemente

Dá-me um abraço, diz-me contudo a cor dos dias
Reparte comigo verdes trigais
Diz-me apenas o teu nome, madrigais

Sejam por fim as tuas mãos estendidas

 
Antónia Ruivo



domingo, 27 de janeiro de 2013

Escassez de proventos



Já não sei que mais nos espera
no anseio que vem da alma
como feixe que dilacera
o coração que não acalma

no neurótico abandono
neste trauma desintegrador
que a tantos tira o sono
e nos provoca imensa dor

não há mais moeda de troca
para este desvario sem fim
que nos supre de alimentos

grande rancor também provoca
por esta conjuntura assim
e tanta falta de proventos

 
António MR Martins

“Pacto no silêncio dos versos”



 
48 - Libânia Madureira
 
 

Plantemos uma rosa entre as estrelas
e por entre elas
dancemos sem horas
...sem gemidos
e no silêncio dos versos.
Sem demoras,
se unam os sentidos
díspares e controversos.

Pacto de silêncio das palavras
sussurro d’afectividade,
paz da alma
retrato feliz das chegadas
bem imensurável de realização.
Encontro da verdade
que dulcifica e acalma
as frias madrugadas,
verdadeiro alimento do coração.

Ausência de discordância,
íntimo extermínio de perturbação.
Harmonia em abundância,
convergindo na mesma direcção.
Sublime conviver
edificando o sentimento maior
na essência de O ser.
Pacto de Amizade, fraternidade.

 
Libânia Madureira


sábado, 26 de janeiro de 2013

náufragos intemporais

 
Tiniguibah (Filipinas), by Gonçalo Lobo Pinheiro.


tem a vida a intensidade
e a morte
a efémera consistência dela

tal como um búzio vazio
acolhe a areia
que todas as conchas abandonaram

ao som do murmurar
de um mar
que foi sua casa

 
António MR Martins

O bailado




47 - Edite Pinheiro






Soltaram-se os fios,
libertaram-se os cabelos.
...

Dançou ao som do silêncio
embalada pelo vento,
em movimento calmo e lento
no remanso sereno da noite.
...

Edite Pinheiro
 
 

sexta-feira, 25 de janeiro de 2013

Tela do amor

 
"Bom dia dos namorados", de João Moreira.
Óleo s/tela, 40x40, 2011.


Olha, olha p’ra mim amor
com esse olhar sedutor
olhando de qualquer jeito.
Com esses teus olhos de mel
tu me pintas sem ter pincel
numa tela sem defeito.

Galopam ideias novas
onde pintas belas trovas
que decoram o cinzento.
Na vertente dos desejos
dentre afagos e beijos
esquecemos o lamento.

Entre verdes ramos cantei
as palavras que inventei
em cantigas de embalar.
Quase sempre me procurei
se contigo imaginei
conjugar o verbo amar.

Está feita a pintura
que em teu olhar perdura
entre tintas de tanta cor.
Não é preciso legenda
nem outra qualquer adenda
para a tela do amor.

 
António MR Martins

Velhotes…






46 - António Boavida Pinheiro






 
 
Olho em redor, e que vejo eu?
Todos querem ser o centro do mundo,
sem dar aos outros um pouco do seu
amor e calor humano profundo.

Na voragem do tempo que se deu,
com orgulho para quererem tudo,
sem darem conta que algo aconteceu.
…desespero com dedos de veludo!

Sem que nos quedemos, estaremos sós,
mesmo que tenhamos estatuto de avós,
todos julgarão estar ultrapassado…

Como tal nos esquecerão num canto,
sofrendo de tudo, de tal…, de tanto,
apesar de termos, saber consumado…

 
António Boavida Pinheiro

in livro “ Poemas ao correr da pena…”, página 78, edições Temas Originais, Coimbra, 2010.
 
 

quinta-feira, 24 de janeiro de 2013

Foste embora

 
Imagem da net: "adeus"
in impressoesdigitais.blogspot.com
 

Disseste-me por fim adeus,
levando os presentes meus
sem sequer olhar para trás.
E eu sem saber que dizer,
não fazendo por merecer
tal partida tão pertinaz.

Mirei-te nesse destino
ao lado do desatino
esvaído de contexto.
Abalando nessa hora
sem teres qualquer demora
num silêncio sem pretexto.

Senti enorme vazio,
do calor passei ao frio
pelos ossos deste meu ser.
Esta única negação
incendiou meu coração
por deste modo te perder.

A vida tem destas coisas,
nem todo giz tem as loisas
p’ra escrever seu meditar.
Ficam lembranças vividas
algumas horas sofridas
por tanto te querer amar.

 
António MR Martins

Silêncio da Vida






45 - Ana Claré
 


no silêncio da vida

há olhares que se misturam
há mãos que se enleiam

há sonhos arquitectados
castelos de areia demolidos

há tumultos amansados
desejos retraídos

há corpos engendrados
em amálgamas de amor

há rostos encaixilhados
em telas sem cor

há vidas cruzadas
labirintos por atinar

há presenças quiméricas
em qualquer lugar

o silêncio da vida

não emite palavras
é capturado
num restrito olhar

em lavas sombrias
vulcões por revelar

o silêncio da vida

é mar a enroscar
é areia a esgueirar-se
é vida a desgarrar-se
é amar sem amar
 

Ana Claré
 
 
 



quarta-feira, 23 de janeiro de 2013

Glosando Gastão Cruz



Mote:

Porque ninguém nos salva de não ser
 Também de ser já nada nos resgata
Não estamos preparados para o nada
Certamente que não para morrer
                                                                                                                     
Gastão Cruz

 

Carambola de vidas

 
Padecemos no seguir da idade
Nas mágoas do nosso permanecer
Más ilusões da felicidade
Porque ninguém nos salva de não ser

Traste é a rude opinião
De quem o faz de forma pirata
Restando denegrir sem contenção
Também de ser já nada nos resgata

Sempre temos ao alcance o infinito
De tanto que é vida e a ela dada
Que se avance de contra o que é dito
Não estamos preparados para o nada

Da luta intensa se faz vida
Que jamais se possa desfalecer
A batalha não seja perdida
Certamente que não para morrer

 
António MR Martins

 
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 Mote: Terceira estrofe do poema “Dentro da vida”, da obra “A Moeda do Tempo”, edições Assírio & Alvim, página 26, Lisboa, 2006.