quinta-feira, 30 de abril de 2015

João Carlos Esteves





NO CANSAÇO DA ESPERA

lá fora o dia corre
e tu esperas
em prelúdio de entrega

nas páginas abertas de um livro
imagens de outros dias correm
sem esperas nem prelúdios

as tuas mãos sonolentas
acariciam o vazio da espera
nas linhas que descrevem esses dias

encontras regaço nas letras mudas
em aconchego de sono
e as palavras repousam
perante o teu cansaço desnudado

João Carlos Esteves, in “Inventei-te as manhãs”, página 78, edições Chiado Editora, Julho, 2013.

Com o meu país ao travesseiro


Imagem da net, em: www.mapas.owje.com




Ao mundo esbracejei
As palavras do meu sentir
Sem arrepiar um verso

Inventei notícias novas
Imaginei contos inexistentes
Supri a saudade intensa
Sem te esquecer na memória
Perante um salto que dei
Na conformidade da história

Desbravei novos costumes
Incendiei corações
Libertei inspirações
E jubilei de contentamento

Falei a minha língua
Ante o espanto de tanta gente
E qual foi a minha sina?!

Num mundo de descoberta
Numa qualquer parte incerta
Pude ganhar meu dinheiro
Sonhei forte e altivo
Com firmeza por um motivo
E meu país ao travesseiro

 
António MR Martins

quarta-feira, 29 de abril de 2015

Herberto Helder





já não tenho mão com que escreva nem lâmpada,
pois se me fundiu a alma,
já nada em mim sabe quanto não sei
da noite atrás da luz: livros, frutas na mesa, o relógio que mede
minha turva eternidade
e o tempo da terra monstruosa,
já nada tenho com que morrer depressa,
excepto
tanta hora somada a nada:
e acautela a tua dor que se não torne académica

Herberto Helder (1930-2015), in “Poemas Completos”, Servidões, página 674, edições Porto Editora, Outubro de 2014.

segunda-feira, 27 de abril de 2015

Joaquim Monteiro





LABIRINTO OU PROCURA INICIÁTICA

Tudo é labirinto e forma inútil
Vã glória e beleza efémera.

Beijo a beijo, flor a flor,
Vão chegar os dias transparentes.
O ardor da casa pedra a pedra
Os degraus da sapiência transmutável
Com que os bosques guardam
As falas de antiquíssimos anéis.

Virão; estou convencido, novas melodias,
O silêncio cantado na pausa da escrita.
Novos rostos, novas mãos para afagar
O brilho das estrelas num inextinguível amor
Partilhado, na forma mais pura do voo,
No olhar mais cristalino de etérea profundidade.

Na noite a luz dos espelhos definem-te os contornos.
Mas, só as palavras sussurradas incendeiam a pele
E fazem da nascente o sortilégio de todos os desígnios.

Joaquim Monteiro, in “À Janela do Teu Corpo”, página 102, edições Modocromia, Outubro, 2014.

serei um pouco de tudo isto na liberdade poética


Imagem da net, em: www.carloslavario.blogspot.com



serei outro
e outro
e ainda outro
enquanto me sinta poeta

serei reencontrado caminho
perdido voo profundo
chuva plena estendida
e terra imensa descoberta

serei rastro indefinido
falésia altiva
percalço ou sobressalto
imagem consistente
e definida
através dum olhar pela janela entreaberta

serei mastro simples potência
sentido imperfeito
irreverência
inquietação desdobrável
alinhavar patético
e lunático
nos percursos desenfreados do sistema

serei tudo
ou quase tudo
numa inspiração também negação
entre melancolia ou realidade
e alegria ou intensidade
nesta vida e nesta estrada
sempre imaginando
para conceber o meu poema

 
António MR Martins

domingo, 26 de abril de 2015

Alberto Caeiro





III (de “O Guardador de Rebanhos”)

Ao entardecer, debruçado pela janela,
E sabendo de soslaio que há campos em frente.
Leio até me arderem os olhos
O livro de Cesário Verde.

Que pena que tenho dele! Ele era um camponês
Que andava preso em liberdade pela cidade.
Mas o modo como olhava para as casas,
E o modo como reparava nas ruas,
E a maneira como dava pelas coisas,
É o de quem olha para árvores,
E de quem desce os olhos pela estrada por onde vai andando
E anda a reparar nas flores que há pelos campos…

Por isso ele tinha aquela grande tristeza
Que ele nunca disse bem que tinha,
Mas andava na cidade como quem anda no campo
E triste como esmagar flores em livros
E pôr plantas em jarros…

Alberto Caeiro (1889-1915), in “III Poemas” (Obras Completas de Fernando Pessoa), página 25 (“O Guardador de rebanhos”), Edições Ática, Colecção Poesia, Julho de 1997.  

sábado, 25 de abril de 2015

Armindo Loureiro





PORQUE SOU ASSIM

Perco-me
Não sei quem sou
Quando a tuas mãos em mim sinto
E a tua boca me beija
Com luxúria
Teu corpo louco
Ondula no meu
E eu fico louco
E ao fim
Eu acho pouco
Serei louco
Até ao fim
Ai de mim
Porque sou assim

Armindo Loureiro, in “ Rio de Palavras”, página 100, edições Edium Editores, Abril, 2012.

O enorme valor de um povo





Sonho com as palavras esquecidas
desde o tempo das descobertas,
no rumo de tantas vidas perdidas
que nunca viram as portas abertas.

Sonho o que os poetas escreveram
inspirados num sentir bem profundo,
deles tantos países reconheceram
palavras da nossa terra no mundo.

Foram séculos de enorme labuta
um prestígio a que não renegou luta
este corajoso povo lusitano.

Agora temos tanto mais para ganhar
entre o céu, esta terra e este mar
e o nosso cariz sempre humano.

 
António MR Martins

quinta-feira, 23 de abril de 2015

António Ramos Rosa






[Um peixe cintilante ou uma pequena mão adolescente]

Um peixe cintilante ou uma pequena mão adolescente
um seio azul e róseo de ténues veias delicadas
era o seio da fragilidade da água
e era já o tumulto oceânico da pátria

Tudo o que ela herdou se projecta no horizonte
e ela vê a rapariguinha frágil que ela foi
sobre um potro branco num pomar verdejante
envolta nas espirais de um vento de lasciva doçura

Mas na sua visão perpassam as imagens de outro glorioso
labaredas de sangue espirais de vitória
e os longos anos em que esteve subjugada
Ela vê a sua nudez com voluptuoso orgulho
e abandona-se grávida da sua nobreza ardente
às ondas da sua indolência iluminada

António Ramos Rosa (1924-2013), in “Pátria Soberana seguido de Nova Ficção” (Prémio Literário de Sintra – Ruy Belo / 2001), página 23, edições quasi, 2.ª Edição, Novembro de 2001.

Foto do autor: por João Silva.

quarta-feira, 22 de abril de 2015

Joaquim Pessoa





abismo
 
Caminhei para o sol. Tinha acabado de escrever um desses poemas em que as próprias palavras nos ameaçam, e a voz doía-me. Escutei o grito dos mastros, batidos pelo vento. Uma água de cinza devorava as telhas e um luto desapiedado tinha cerrado todas as portas. Não me habituara ainda a esta inquietação obstinada, ao frio tremor da árvore. O cérebro varria definitivamente as folhas sobre a água. Era um outubro que amanhecia nas paredes mais inquietas, com dois raios de sol presos à magra recordação dos exércitos que habitam as secretas veias da terra. As pedras conheciam-me o desgosto e, delas, o poema ia recolhendo algum remédio. Não precisei que o som me impressionasse a imaginação ou me tocasse o rosto. Subi lentamente ao cântico, com os braços diluídos na terrível espera que os gestos haviam construído, e já as lágrimas gritavam longamente a mais fantástica morte desenhada na boca.
 
Joaquim Pessoa, in “Guardar o Fogo”, a morte absoluta, página 159, Edições Esgotadas, 2013.


Que se levante Abril


Imagem da net, em: www.urechapadinha.blogspot.com


Ante o engodo da fome perdida
secam as veias expostas ao vento…
a frase chave já foi submetida,
mas ao ouvi-la ninguém ficou atento.

Não a escondam no baú das memórias
nem num ficheiro recôndito do PC,
regurgitem e oiçam as histórias
pois quem não sabe é pior do que não vê.

Levantemos a bandeira da nação
da terra morena cantemos a canção!...
Não nos deixemos tombar neste ardil.

A Liberdade já passou por aqui!...
Eu sei do que falo, pois também a senti:
Ora, viva o Vinte e Cinco de Abril !!!

António MR Martins

Pelo 41º aniversário do 25 de Abril – 2015.

terça-feira, 21 de abril de 2015

Carlos Drummond de Andrade







REGISTRO CIVIL

Ela colhia margaridas
quando eu passei. As margaridas eram
os corações de seus namorados,
que depois se transformavam em ostras
e ela engolia em grupos de dez.

Os telefones gritavam Dulce,
Rosa, Leonora, Carmen, Beatriz,
porém Dulce havia morrido
e as demais banhavam-se em Ostende
sob um sol neutro.

As cidades perdiam os nomes
que o funcionário com um pássaro no ombro
ia guardando no livro de versos.
Na última delas, Sodoma,
restava uma luz acesa
que o anjo soprou.
E na terra
eu só ouvia o rumor
brando, de ostras que deslizavam
pela garganta implacável.

Carlos Drummond de Andrade (1902-1987), in “Brejo das Almas”, página 19, Editora Record, Rio de Janeiro, 2001.

segunda-feira, 20 de abril de 2015

Vera Sousa Silva





Instantes sem ti

Que fazer nos intervalos
de ti, do tempo que não se move
nem aquieta, como se
não houvesse mais nada,
como se tudo fosse negro
e saudade.

Como explicar o fogo
que ateaste em meu peito
e fazer dele lume e luz
dos dias que percorro
quando estás tão longe.

Como viver nos pequenos instantes
em que sais de dentro de mim.

Vera Sousa Silva, in “até amanhã”, página 51, edições Lua de Marfim, Novembro de 2014.

Emigrante de outro tempo


Imagem da net.



Andei por serras e vales
nos caminhos desta vida,
enfrentando tantos males
em causa sempre perdida.

Não recusei minha luta
na terra que tanto amo,
o porvir de forma abrupta
mal me fez mas não reclamo.

Percorri mundos castanhos
e estradas que não sabia…
vi caminhos tão estranhos
com uma outra alegria.

Levei a terra no peito
gritei seu nome ao mundo,
lutei forte d’outro jeito
deixei de ser vagabundo.

Portugal é a bandeira
da minha felicidade,
mas a asa aventureira
deu-me viver de verdade.

 
António MR Martins

domingo, 19 de abril de 2015

Florbela Espanca





O MEU ORGULHO

Lembro-me o que fui dantes. Quem me dera
Não me lembrar! Em tardes dolorosas
Eu lembro-me que fui a Primavera
Que em muros velhos fez nascer as rosas!

As minhas mãos, outrora carinhosas,
Pairavam como pombas… Quem soubera
Porque tudo passou e foi quimera,
E porque os muros velhos não dão rosas!

São sempre os que eu recordo que me esquecem…
Mas digo para mim: «Não me merecem…»
E já não fico tão abandonada!

Sinto que valho mais, mais pobrezinha:
Que também é orgulho ser sozinha,
E também é nobreza não ter nada!

Florbela Espanca (1894-1930), in “Sonetos”, com introdução por Maria da Graça Orge Martins, página 68, edições Biblioteca Ulisseia de Autores Portugueses, nº. 32, 4.ª Edição, Junho de 2002.

sábado, 18 de abril de 2015

José Gabriel Duarte





DESERTO

Quando atravesso o deserto
Sem de ti saber
Se estou longe, se estás perto
Quando me afasto, quando me perco
É como se o vento me cegasse
Me levasse
Me escondesse nas areias
Cálidas de silêncio
Na ausência do tempo
Sem que me possa lembrar.

Atravesso o vazio do que me falta
Perdendo o rasto das ideias
Sem saber onde chegar
Sem saber como voltar.

José Gabriel Duarte, in “No outro lado de mim”, página 66, edições Chiado Editora, Outubro, 2012.

Empatias sem fim


Imagem da net, em: www.mensagens.culturamix.com



Tenho este meu olhar preso a ti
desde que te cruzas neste caminho,
anseio tua nova passagem por aqui
para te poder ver passar bem juntinho.

E prender de novo meu olhar ao teu
num comprido passar de tempo sem fim,
sentindo esse teu calor junto do meu
e permanecendo todos os dias assim.

Nesta esquina onde nos cruzamos
nossos olhares, a gosto, nós trocamos,
assim se recria nosso porto de abrigo.

Aqui levitamos pensamentos ao luar
navegamos nossas paixões neste mar,
esquecendo do mundo o seu perigo.

António MR Martins

sexta-feira, 17 de abril de 2015

Tomás Ribeiro (Thomaz Ribeiro)





N’UM ALBUM

Somos dois viajantes: vós, senhora,
andais talvez em busca de prazeres ;
                   eu… sem destino ! á toa !
Percorremos um dia a mesma estrada ;
o acaso nos juntou, e pernoitámos
                   no grande hotel – Lisboa .

Pois que partis primeiro, auras benignas
vos acompanhem sempre, e vos segredem
                   meus votos d’amizade .
Se elas voltarem junto a mim de novo,
que me tragam de vós uma lembrança ;
                   se fosse uma saudade !...

 
Lisboa, 16 de Abril de 1863 .

Thomaz Ribeiro (1831-1901), in “Sons que passam”, páginas 85 e 86, edições Ernesto Chardron – Editor, 4.ª Edição, Porto, 1884.  

quarta-feira, 15 de abril de 2015

Miguel Almeida





Todos somos vida

Todos somos escravos
E senhores da vida,
Porque todos somos fardos
E carregadores,
Onde a vida se vive,
Para se poder fazer vida;
Todos somos carga
E transporte,
Onde a vida viaja,
Para nos fazer viajar;
Todos somos (a) gente
E acção,
Onde a vida se dá,
Para se poder realizar;
Todos somos vida
E sem nós,
A vida seria diferente,
Pior, iria ser com certeza
Seria sempre vida menos viva,
Seria sempre menos vida, sem nós.

Miguel Almeida, in “SobreViver Ad Ritmo Poetae”, página 69, capítulo Viver (instantâneos), poema 4, edições Esfera do Caos, Março de 2013.

quando se esfarrapam as palavras


Imagem da net, em: www.etcetaljornal.pt



propago a dor da palavra ferida,
aquela que esvoaçando perdida,
se destrói,
levada em farrapos,
pelos ventos de todos os destinos.

promovo a ferida dorida da palavra,
daquela que amargurada se fragiliza
e se despedaça,
sem a força da revitalização.

trago-vos as sequelas da ferida incurável
da palavra esquecida, adormecida
e esquartejada,
aquela que se expõe sem trancas,
sem algemas ou ameias,
mas jamais é acarinhada e fortalecida,
a preceito.

divulgo o anseio dos povos
pelo “ressuscitar” da palavra,
com a força que representa.

aquela que passa de boca em boca,
perante a estranha indiferença
dos últimos habitantes do mundo.

sentem-se os ventres
inundados de dor, de mágoa
e de inconformação,
neste vil destino acomodado.

propago, então, a dor da última palavra ferida,
nos tempos de todos os tempos:
a palavra… LIBERDADE !!!

António MR Martins

terça-feira, 14 de abril de 2015

Manuel Maria Barbosa du Bocage






[Não sou vil delator]

Não sou vil delator, vil assassino,
Ímpio, cruel, sacrílego, blasfemo;
Um Deus adoro, a eternidade temo,
Conheço que há vontade e não destino.

Ao saber e à virtude a fronte inclino;
Se chora e geme o triste, eu choro, eu gemo;
Chamo à beneficência um dom supremo;
Julgo a doce amizade um bem divino.

Amo a Pátria, amo as leis, precisos laços
Que mantêm dos mortais a convivência,
E de infames grilhões oiço ameaços !

Vejo-me exposto à rígida violência,
Mas folgo e canto e durmo nos teus braços,
Amiga da Razão, pura Inocência.

Manuel Maria Barbosa du Bocage (1765-1805), in “Poesias”, colecção Pequeno Tesouro, página 82, edições Círculo de Leitores, selecção, introdução e revisão de Orlando Neves.

quinta-feira, 9 de abril de 2015

Dalila Moura Baião





SINTO

No outro lado da margem
onde estremecem estrelas e desejos
onde o mar vem beijar o areal
e em sobressalto me alcança…

Embala-me devagar como alga adormecida
colho a espuma que se esvai por entre os dedos
e teço no olhar horizontes voados de gaivotas
que descalças me acenam em danças embevecidas.

No outro lado da margem
vou tocando na maré inventando nos meus braços
a leveza dos remos que atravessam um destino
onde anémonas se distraem num breve sonho
preso na janela de conchas e cores de mar!

Na outra margem, navega o beijo que me espera
dobrando a distância que a idade não roubou.

Há corais escondidos
num lençol de luar
onde o vento se delicia
quando se juntam as margens
e os beijos nos vêm aprisionar.

Dalila Moura Baião, in “Quando o mar corre no peito”, página 67, edições El Taller del Poeta S. L., Pontevedra, Espanha, 2014. 

Criações artísticas





Pincela-se um roedor
Pelos seus aparelhos auditivos
Um coelhinho janota
Tema: Cinzento-rato
Em primeira mão.

Cortam-se tecidos
Por entre manuseamentos
Guardados de antemão.

Desalinham-se
E entrelinham-se
As meadas dos fios novelados
Com atenção.

E constrói-se
Uma nova peça decorativa
No plano da ilusão.

Há um veículo
Anos setenta
A ser pintado rosa-leve
À condição.

Eis o burilar
De vidas sonhadoras
Em símbolos de magia
E imaginação.

António MR Martins