terça-feira, 25 de abril de 2017

Abraão Vicente


Abraão Vicente. Imagem da net.



versos impunes

Já não há contos
de embalar ou
fadas madrinhas
com quem possas
selar alianças e inventar
asas de licórnios
voadores onde
te possas esconder
da vida, do pesar
e das pérolas
ensanguentadas
que o amor
te reserva.

Poe-te a contar
com minúcia e fervor
os dias de alegria
e a incoerência que
ainda te restam, 
nobre criança.

Vem até mim, vem
quero-te embalar
na melodia do antes
do fim.

Andatas, valsas e 
mariachis loucos…

Onde estavam os corpos?
Em que areia movediça,
em que praia as
donzelas trincaram
laranjas ácidas de 
um pomar inaudito?

Sabre, safira,
pedra ume.
Que canção
saberá cantar
o Príncipe
perante o abismo
do teu sexo
descoberto?

Mar, rosas, espinhos
clichés fatais e a
morte da inocência
três tristes tigresas
Simone, Akhmátova
e Florbela
de mãos entrelaçadas
na espuma do vento
que as desfolhou
em versos impunes
pela morte.


Abraão Vicente, in “amor 100 medo, cartas improváveis & outras letras”, páginas 32 e 33, edição do Autor, Dezembro de 2014.

sexta-feira, 21 de abril de 2017

desenho sem planos


Imagem da net.



vejo-te em linhas concretas,
desenhada,
ante as tangentes fugidias das margens
duma sóbria folha de papel cavalinho,
com tuas vestes soltas,
tombando aqui e acolá,
que te desnudam
numa toada simples
e subtilmente frágil.

te vendo assim
apelei ao som das árvores,
que vinham surgindo
num dos topos da folha,
e ao olhar vigilante do rio,
que acabara de galgar
uma das simuladas margens,
por onde acabarias 
de fazer flutuar teu corpo.

a imagem dessa ficção,
visionada em desenho,
completou-se
com o inédito
da tua sublime presença física.

António MR Martins

Escrito em Hoi An, Vietname (Hotel Maison Vy), 15 de Abril de 2017

quinta-feira, 20 de abril de 2017

Sérgio Godinho


Sérgio Godinho. Imagem da net.



De fora para dentro dos olhos

De fora para dentro dos olhos
baixam os fantasmas
trazem sempre roupa nova
nunca a dor foi a mesma em pessoa nenhuma:
se morrermos sozinhos das dores colectivas
é o que diz o cantor
ninguém vem levantar-nos do chão.

A rampa enfeita a porta da garagem.
Paredes-meias com o passado
quem controla o sossego dos fantasmas?
Desfazem-se pelo pouco que há de pó
gastamo-nos na luta.

Quando se dá por ela é meia-noite
de dentro para fora dos olhos
grande saudade
é fogo eterno. 


Sérgio Godinho, in “O Sangue por Um Fio” (poemas), página 79, edições Assírio & Alvim, 2009.

sexta-feira, 7 de abril de 2017

No fascínio do ser


"Freedom", por José Cavaco, in http://olhares.sapo.pt/freedom-foto8623135.html


Palpei tua mão
que repousando em teu corpo,
de delicadas matizes,
se afigurava à minha mercê
ante a matriz do esplendor,
arredia e insegura,
ou, talvez, adormecida.

Sorriste num sono,
que se estendia na quietude
inquieta
das marés infindas,
pelo desvario dos sonhos 
incautos,
que sempre despertam clamores.

Desci ao templo
da misericórdia do corpo
e da hecatombe da mente, 
por onde despertaram
todos os sentires,
num tortuoso sacrifício 
do teu acordar.

Depois, num ritmo alucinante,
o apogeu 
de todas as sensações
e de todos os prazeres humanos,
até ao epílogo final,
que selámos com um beijo.


António MR Martins

quinta-feira, 6 de abril de 2017

Vinícius de Moraes




Vinícius de Moraes 
(Rio de Janeiro, 19 de outubro de 1913 — Rio de Janeiro, 9 de julho de 1980)



Aquarela

Numa folha qualquer eu desenho um sol amarelo
E com cinco ou seis retas é fácil fazer um castelo
Corro o lápis em torno da mão e me dou uma luva
E se faço chover com dois riscos tenho um guarda-chuva
Se um pinguinho de tinta cai num pedacinho azul do papel
Num instante imagino uma linda gaivota a voar no céu

Vai voando, contornando
A imensa curva norte-sul
Vou com ela viajando
Havaí, Pequim ou Istambul
Pinto um barco a vela branco navegando
É tanto céu e mar num beijo azul
Entre as nuvens vem surgindo
Um lindo avião rosa e grená
Tudo em volta colorindo
Com suas luzes a piscar
Basta imaginar e ele está partindo
Sereno indo
E se a gente quiser
Ele vai pousar

Numa folha qualquer eu desenho um navio de partida
Com alguns bons amigos, bebendo de bem com a vida
De uma América a outra consigo passar num segundo
Giro um simples compasso e num círculo eu faço o mundo
Um menino caminha e caminhando chega num muro
E ali logo em frente a esperar pela gente o futuro está

E o futuro é uma astronave
Que tentamos pilotar
Não tem tempo nem piedade
Nem tem hora de chegar
Sem pedir licença muda nossa vida
E depois convida a rir ou chorar
Nessa estrada não nos cabe
Conhecer ou ver o que virá
O fim dela ninguém sabe
Bem ao certo onde vai dar
Vamos todos numa linda passarela
De uma aquarela que um dia enfim
Descolorirá

Numa folha qualquer eu desenho um sol amarelo
Que descolorirá
E com cinco ou seis retas é fácil fazer um castelo
Que descolorirá
Giro um simples compasso e num círculo eu faço o mundo
Que descolorirá

………………………………………………….


Um belíssimo poema, que nos relata o percurso existencial em torno da vida, que veio a resultar numa não menos belíssima melodia / canção, com a interacção de Toquinho, Guido Morra e Maurizio Fabrizio.

quarta-feira, 5 de abril de 2017

Empatia


"Olhares", imagem da net.



Tenho o meu olhar
preso ao teu, almejando
a razão para a descoberta,
num anseio
pendente de concretização.

Há um apelo mútuo
à sedução, desde a origem
à consumação da nossa rota
das descobertas.

Tudo se roboriza
numa amplitude sem limites
e numa eloquência
única
sem restrições
e ambiguidades.

Continuo com o meu olhar
preso ao teu!... 



António MR Martins

quarta-feira, 29 de março de 2017

O tempo é poesia


Imagem da net.




E a hora desesperou
tardia
num tempo 
que tardou 
sem ter tempo.

Entre o tempo 
em que tardou a espera
daquele verso
que o poema não findou.

Demorou tanto a chegada
que pela partida ansiou.

Logo a palavra
com entusiasmo
num sem tempo 
se deslumbrou.

O poema nessa quimera
quedo ali se finou
amargurado pela espera
que o verso nunca criou.

Autópsia da descoberta
num tempo morto
futilizado 
quase ocaso afinal.

Surge a montante
o sentido para o verso
e acontece a palavra certa
para o poema renascer.

Este o tempo de existir
do criar
e do porvir
ou a simples evidência
da poesia a acontecer.


António MR Martins

sábado, 25 de março de 2017

Grace Chia


Grace Chia, 6.º Festival Literário de Macau -
Rota das Letras 2017. Foto de António Martins.



@lice

I swallow the seed of
curiosity to find myself
tumbling through the fog
of my screensaver
into the dark ages -
down a hole, infinite,
plunging head first,
my flailing, marshmallowy
limbs waving farewell
to silverfish scuttling
inside the pages of my face
book.

White Rabbit,
you lead me eyes wide
to the fantastic, away
from this everyday motif
of duties for the greater good.
I am munching mushrooms,
flexing mercurial nerves to
become giant then dwarf,
aloft then squat,
cat-talking, sword-wielding;
playing monsters that go
gibberish-jabberish wock.

The Queen has my head
so I can’t think straight,
stumbling without faculty,
lost within four walls
typing this with vigour,
punching out words
till they are blue black
as furious and bruised
as I am; in my vendetta,
I become, mad hatter,
spurned, anonymous vigilante,
trying to right a wrong, Knave, 
the plague you inflict in me.

Grace Chia, in "Cordelia", pages 88 and 89, edition Ethos Books, Singapore, 2012.

* My simple translation, trying not to denigrate the poetics and the plot of the story, in the relevance of the user addiction of this virtual world, through facebook.

………………………………………………

@lice

Engulo a semente da
curiosidade de me encontrar
deambulando pela bruma
da minha protecção de tela
para a idade das trevas -
afundei num buraco, infinito,
mergulhando a cabeça primeiro,
agitando, no lodo dum pântano
removendo os membros
entre peixes prateados correndo
no interior das páginas da face
livro (facebook).

Coelho Branco,
leva-me os olhos bem abertos
para o fantástico, longe
deste quotidiano motivo
de deveres para um bem maior.
Estou devorando cogumelos,
flexiono os nervos mercuriais
na dimensão entre anã e gigante,
agachando-me de seguida,
voz de gato, espada empunhada;
e os monstros vão jogando
palavras sem nexo.

A Rainha possui-me a mente
e assim não consigo raciocinar,
tropeçando inconscientemente,
perdida entre quatro paredes
mas digitando tudo com vigor,
escavarei outras palavras
até que todos fiquem arroxados
de tão furiosos e magoados
como estou; na minha vingança,
me transformo, loucura extrema,
desprezada, vigilante anónima,
tentando corrigir o erro, Valete,
da praga que você infligiu em mim.

Grace Chia, in “Cordelia”, páginas 88 e 89, edição Ethos Books, Singapura, 2012.


* Minha singela tradução, tentando não denegrir a poética e o enredo da estória, na relevância do vício usuário deste mundo virtual, via facebook. 

quinta-feira, 23 de março de 2017

Deusa d’África


Deusa d'África, imagem da net.


A VIDA QUE NÃO TIVE

Um abraço
Um apreço
Um vaso
Para jogar a semente e irrigá-la
E clientes para fornecer-lhes
A água vinda das minhas pupilas.

Um afecto
Como um insecto
Cujo pai ensina-o a voar.

Um punhal
Para encravar
Em minhas entranhas,
A liberdade, 
E livrar-me da colonização da vida.


Deusa d’África, in “A Voz das Minhas Entranhas”, página 48, edição Deusa d’África / Grupo Cultural Xitende / Ciedima, Lda., Maputo, 2014.

terça-feira, 21 de março de 2017

escritores.online


Pode ver a minha página de escritor aqui.


Caos desembargador


Imagem da net.



Saem dum recôndito espaço mental
tais enredos promíscuos temporais;
num primoroso ensaio colossal
entre facetas algo desiguais.

Jocosas inerências sem virtudes,
dúbio apelar sem conformidade;
imo trespassado de vicissitudes
revelando larga incapacidade.

Saem bocejos, sendo camuflados,
em conceitos outrora desbravados,
síndrome oponente à rebelião.

Saem deplorados brandos costumes
das montanhas que pariram p’los cumes
ratazanas fomentando a confusão.


António MR Martins

segunda-feira, 20 de março de 2017

Apresentação do meu livro "Empresta-me a Palavra" em Macau, 19 de Março de 2017


No Edifício do Antigo Tribunal de Macau


Foi no último dia do 6.º Festival Literário de Macau - Rota das Letras 2017, que aconteceu a minha intervenção final, a apresentação do meu último livro "Empresta-me a Palavra", com a chancela da Chiado Editora, com a coordenação do amigo João Manuel Vicente. Fez-se uma conversa à volta do livro, da poesia e dos mais diversos temas que o João fez questão de abordar, levando-os ao conhecimento público. Sucedeu uma sessão repleta de sentires e emoções. Foram dezasseis dias com as palavras e os autores em plena interacção, que ficarão registados no meu imo para todo o meu sempre. A organização e a equipa da Rota das Letras foram inexcedíveis em simpatia, atenção, amabilidade e labor, isso... acima de tudo labor, e muito! Um muito obrigado ao Ricardo Pinto, ao Hélder Beja e ao Yao Feng, tentando, deste modo, abranger todos. Hoje é o dia seguinte, já nasceram as saudades!...

quinta-feira, 16 de março de 2017

JAM SESSION DE POESIA / BRANCO & VERMELHO - 14 de Março, pelas 21H30


No Vasco Bar, Grand Lapa em Macau.

Dizendo a minha poesia lida. Foto de Eduardo Martins.

quarta-feira, 15 de março de 2017

Yao Feng


Yao Feng, lendo um seu poema, na sessão
"Café dos Poetas", do 6.º Festival Literário de Macau - Rotas das Letras 2017, 
no Edifício do Antigo Tribunal, 4 de Março, pelas 20,30 horas. 



Relíquia

A cama do doente, velha e gasta,
e, na mesa, as flores de plástico que não sabem o que é
murchar
Os familiares, ainda saudáveis, cercam a cama a chorar
formando um muro de lágrimas
Lá fora, as sumaúmas, bem florescentes
refletem-se no vidro da janela como manchas de sangue

Começamos a arrumar os pertences pessoais do defunto:
agenda, telemóvel, espelho, pente, casaco,
sapatos, remédios
Entre eles o velho relógio Seiko
continua a fazer
tiquetaque, tiquetaque, tiquetaque…


Yao Feng (Pequim, China), in “Palavras Cansadas da Gramática” (poesia e fotografia), página 81, edições Gradiva, Novembro de 2014.

terça-feira, 14 de março de 2017

JAM SESSION DE POESIA / BRANCO & VERMELHO - 14 de Março, pelas 21H30


6.º Festival Literário de Macau - Rota das Letras 2017


Hoje irei dizer a minha poesia, durante cinco minutos, na sessão "Jam Session de Poesia", que terá lugar no Vasco Bar, no Grand Lapa Macau, pelas 21H30, na programação estabelecida para o 6.º Festival Literário de Macau - Rota das Letras 2017. 
Esta sessão estabelece-se com uma outra "Branco & Vermelho", o que vai dar azo a que ocorra uma interacção plena entre diversas artes, a poesia, a música, o teatro, a declamação, a dança, o gesto, etc.

Se quiser, e puder, apareça! 

E beba um copo, também!...

sexta-feira, 3 de março de 2017

Infinita beleza


Imagem na net.




Tu és a plenitude
do meu anseio,
superior patamar deste caminho.
Árvore sentido para a vida,
expoente da casa
no meu singelo ninho.

Tu és
a janela entreaberta, 
o sal benéfico
da existência,
o nascimento estratégico
de robustez e potência.

Tu és a palavra amor,
semente-abraço no infinito,
abrigo ao frio e ao calor.

Para mim,
o Ser mais bonito!...



António MR Martins

segunda-feira, 27 de fevereiro de 2017

A minha participação no 6.º Festival Literário de Macau - Rota das Letras 2017





4 de Março

20H30

舊法院大樓  | Edifício do Antigo Tribunal | Old Court Building

詩人咖啡館 | Café dos Poetas | The Poets’ Café

陳黎 Chen li, António MR Martins, 陸奧雷Rai Matsu, 王家新 Wang Jiaxin, 及澳門其他詩人 |e poetas de Macau | and other poets from Macau




19 de Março

14H00

何東圖書館 |  Biblioteca Sir Robert Ho Tung Sir Robert | Ho Tung Library

言葉之庭 ﹣ 詩歌朗誦會 |  Jardim das Palavras - Sessão de Poesia | The Garden of Words - Poetry Reading

James Shea, António MR Martins 及本地詩人 | e Poetas Locais | and local poets




19 de Março

15H00

舊法院大樓 | Edifício do Antigo Tribunal | Old Court Building

作家和他們的作品 | Autores e os Seus Livros | The Writers and Their Books

José Manuel Simões - "Deus Tupã"

Carlos Morais José -  "O Arquivo das Confissões: Bernardo Vasques e a Inveja"

António MR Martins - "Empresta-me a Palavra"  



Consulte a agenda completa do festival aqui

sábado, 25 de fevereiro de 2017

Wenceslau de Moraes


Wenceslau de Moraes (1854-1929)



Aqui

Aqui, entre os juncos e as flores do lótus,
compreendi que o inferno e o céu,
por mais que os deuses e os livros nos levem
a pensar o contrário, estão no coração do homem.
Eu conheci ambos deambulando por dentro de mim
e fazendo boa sombra um desejo de luz
e da luz um secreto desejo de sombra.
Não foi o sol que me queimou o rosto,
foi o lume das inquietações fatais,
e quedei-me assim, apátrida e só,
numa terra a que chamo minha
mas que faz o longe tornar-se fatalidade.

Apego-me à sabedoria volátil e certa dos provérbios
e aprendo neles que sou, que sempre fui,
um insecto do estio a voar para a chama
e que após a neve vem o Nirvana.
Sempre encaminhei os meus passos na direcção da luz,
mas foi a treva que encontrei, fixando os pedaços
de reboco que se soltam do tecto
presos ao voo dos besouros, enquanto
eu me perco no labirinto da minha solidão.

Vê como eu morro devagar
enquanto a chuva desenha de poeira
as metáforas do Outono e do assombro.
Vê como eu apodreço à ilharga da música
que sai do interior das conchas
junto à rebentação das ondas,
no sítio onde os poetas há muito
deixaram de escrever e de sonhar.
Vê como eu me torno estrangeiro absoluto
numa terra que quer ser minha
mas que eu não consigo guardar no coração
como coisa essencial da minha vida.

Wenceslau de Moraes (30 de Maio de 1854 - 1 de Julho de 1929), in “O Profeta do Orvalho”.

quinta-feira, 23 de fevereiro de 2017

Antologia de Poetas Portugueses, na Roménia

Já tenho em minhas mãos um exemplar da "Antologia poeților portughezi", uma obra da qual tive o privilégio de ser coordenador. O livro, com chancela da Editura Pim, trata-se de uma publicação bilingue (Português-Romeno) e mostra o trabalho poético de 11 autores portugueses, Edgardo Xavier, Conceição Oliveira, Alvaro Giesta, Lília Tavares, Maria Jorgete Teixeira, António MR Martins, Conceição Bernardino, Severino Moreira, Teresa Brinco de Oliveira, Joaquim Pessoa e Gonçalo Lobo Pinheiro, com a tradução de Daniel Dragomirescu, edição de Janeiro de 2017.




Sima Xiangru


Sima Xiangru (179 a.C.-117 a.C.), imagem da net.



31. Prosa Ritmada

Com seda autêntica se compõe o poema
E com garantia é exposto o brocado.
Cada urdidura, cada trama,
Cada mandarim, cada comerciante,
Tais os traços da prosa ritmada.

O pensamento do poeta de prosa ritmada
Abarca o universo.
Tudo observa nas personagens.
Isto só pode ser obtido através do interior,
Nunca obtido segundo a tradição.

(tradução Alexandre Li Ching)

Sima Xiangru (179 a.C.-117 a.C.), in “Quinhentos Poemas Chineses”, de diversas épocas e dinastias, vários autores, vários tradutores, página 61, coordenação de António Graça de Abreu e Carlos Morais José, edições Livros do Meio / Casa de Portugal em Macau, Setembro de 2013.

Sobre Sima Xiangru:

Inovador no trabalho poético, de vida agitada e complexa, é um dos grandes poetas do período inicial da dinastia Han. Proibido de casar com a sua apaixonada Zhuo Wenjun, por ser filha de um milionário, os dois amantes acabaram por fugir e sobreviver graças a uma pequena taberna, onde durante um período trabalharam. (na referida obra)

quarta-feira, 22 de fevereiro de 2017

apogeu


Imagem da net.



não logres
a oportunidade de partir
quando a floresta
se abre sem temores
aos olhos da perturbação

não mendigues
lonjuras
quando tudo o que te envolve
é o sentir profundo
de todas as ocorrências

não pressiones
domicílios
na resiliência desprotegida
ante a insegurança
que habita em teu redor

não vilipendies
a sorte
se o sol te assegurar
a luminosidade
crescente da vida

não te sufoques
no ar da inexistência
desabita teu estado amorfo
que logo serás desabitada
e rumarás ao máximo livre sentir


António MR Martins

segunda-feira, 20 de fevereiro de 2017

Tao Yuanming


Tao Yuanming (365-427). Imagem da net.


XIII

dois homens partilham a mesma casa
cada um rejeita aquilo de que o outro gosta
vivem em mundos opostos
um está sempre embriagado,
o outro sempre sóbrio
ambos, zombam um do outro
só nisso estão de acordo
embora nenhum deles compreenda
seja o que for das palavras do outro
ser circunspecto! não será isso estúpido?
e ser exaltado? não será muito mais judicioso?
só um conselho para aquele que se dedica ao vinho
e assim se embriaga,
quando o Sol se deitar que ele não se esqueça
de acender as velas.

Tao Yuanming (365-427), in “Poemas de Tao Yaunming”, página 97, edição bilingue, versão portuguesa e prefácio de Manuel Afonso Costa, uma edição Livros do Meio / Instituto Cultural do Governo da RAEM, Macau, Junho de 2013.

Sobre Tao Yuanming:

“Não há muitos anos, os deuses da poesia decidiram convidar os maiores poetas da China para um banquete de príncipes e letrados, algures num terraço entre nuvens pendurado numa das montanhas mágicas do velho Império do Meio. Vieram Qu Yuan (343-278 a. C.) nostálgico e triste, Tao Yuanming (365-427), precocemente envelhecido, sereno, sobraçando um ramo de crisântemos, Li Bai (701-762), imortal no exílio, com uma botija de vinho (…)”, António Graça de Abreu, in Prefácio, “Poemas de Han Shan”, citação de Manuel Afonso Costa no seu prefácio a “Poemas de Tao Yuanming”.

domingo, 19 de fevereiro de 2017

Han Shan



Han Shan (séc. VIII?), Dinastia Tang. Imagem na net.



65

O homem vive na poeira, no caos,
como um verme num caldeiro.
Dia após dia, sempre às voltas,
incapaz de sair lá de dentro.
Imortais, estamos a falar de quê?
Tanta inquietação e desassossego!
Os meses, os anos, a água a correr,
de repente, acordamos já velhos.

Han Shan (séc. VIII?), in “Poemas de Han Shan”, página 99, tradução, prefácio e notas de António Graça de Abreu, colecção Letras do Meio, edição COD, Macau, 2009. Apoio da Fundação Jorge Álvares.  

Sobre Han Shan, do prefácio:

“…Do Poeta e da Bruma
Não foram estas as razões. Han Shan não veio porque ninguém sabe ao certo quem foi o poeta, quando viveu, ninguém sabe onde o encontrar. O seu nome, que significa “Montanha Fria”, corresponde por certo a um pseudónimo e, por detrás destes dois caracteres, esconde-se um letrado estranho, evanescente, quase ignorado pelas muitas e desvairadas gentes que têm vivido debaixo do céu.

No entanto, numa China que, pelo menos desde o século II a. C., se acostumou a biografar os seus filósofos, poetas, letrados e mandarins, Han Shan acabou também por ser objecto de uma curiosa nota biográfica, acredita-se que redigida no século IX por um tal mandarim Liu Qiuyin de cuja existência real igualmente se duvida, apesar dos títulos imperiais que ostenta…”, por António Graça de Abreu.

Ponto de vista


"As ondas desfazem-se na areia...", praia de Cheoc Van. Foto de António Martins.



Ponto nascente
ponto mistério
ponto presente
um caso sério.

Ponto resistente
ponto intermédio
ponto poente
simples assédio.

Ponto tangente
ponto adultério
ponto descrente
gesto silvério.

Ponto indiferente
ponto médio
ponte dolente
enorme tédio.

Ponto ideal
ponto do prédio
ponto final
fim do remédio.


António MR Martins

sexta-feira, 17 de fevereiro de 2017

Yu Xuanji


Yu Xuanji (844-869), poetisa chinesa da Dinastia Tang. Imagem da net.



Uma alegoria

A primavera às flores de pêssego espalha-se
Em todo pátio à lua cintilam os salgueiros
Cá em cima estou, no quarto, perfeita a maquiagem
recém-vestida, à espera da noite, o silêncio
Ao lago sob as flores de lótus os peixes
Em volta do arco-íris revoam pardais
Tudo nesta vida é sonho, alegria ou pena
vêm-nos aos pares; possa eu por fim acordar


Yu Xuanji (844-869), in (Poesia completa de Yu Xuanji), página 61, tradução, organização, apresentação e notas de Ricardo Primo Portugal e Tin Xiao, edição da Fundação Editora da Unesp (FEU), São Paulo, Brasil, 2011.  

terça-feira, 14 de fevereiro de 2017

Pela Casa do Mandarim


Na Casa do Mandarim. Foto de António Martins.



Sobram salas e corredores
nas fileiras de tanta riqueza,
sonhei amores e desamores
pelos anéis impuros da perdição.

A submissão terá estado presente
em cada concubina 
da sentida espera,
os despojos das vestes perdidas
aromatizaram
a fragilidade das memórias 
e as flores quase decoram
toda a (im)perfeição.

As gaiolas desabitadas
potenciam o desalento
da inconveniência
e de tanto espaço frio
na imprudência humana,
onde o calor se esfumou.

Há rituais que se não cumprem
e um passado inquietante,
talvez alheio,
a tamanha riqueza sem palavras.

Os corredores ultimam
uma sã imagem da ilusão. 


António MR Martins

segunda-feira, 13 de fevereiro de 2017

Complementaridades


Imagem da net.


No limite de tanta cena
apogeu de tanto porvir,
num céu que nos acena
até ao momento de partir.

Ténue luz
sem condimento,
truz, truz…
bater sem fundamento.

A vida não é só estar
num anseio sem limites;
é canseira a desbravar
por renovados apetites.

Tanto passo dado em falso…
sustos, surpresas e ilusões
e por cada mero percalço
lá vêm extensos sermões.

Caminharei neste dilema
que me ilumina o caminho,
avançar é como emenda
que tratarei com carinho.

Cá estarei sempre a lutar
com armas de que disponho,
que passo a referenciar
porque delas me componho:

Mãos, coração,
pernas, braços,
mente…
ou seja: eu!


António MR Martins

Autores participantes no 6.º Festival Literário de Macau - Rota das Letras 2017


No site da Rota das Letras, no item Autores, estão indicados todos os participantes no 6.º Festival Literário de Macau 2017, por ordem alfabética, pode conhecê-los aqui

domingo, 12 de fevereiro de 2017

António MR Martins em escritores.online


O meu perfil na plataforma online escritores.online pode ser visto aqui.

sexta-feira, 10 de fevereiro de 2017

Entrevista ao jornal "Ponto Final", de língua portuguesa, em Macau


1.ª página do jornal "Ponto Final", com alusão
à entrevista nas páginas 4 e 5, edição de 2017.02.10 (sexta-feira).
Um trabalho de Sílvia Gonçalves (entrevista) e
Eduardo Martins (fotos).

Página 4.


Página 5.

quinta-feira, 9 de fevereiro de 2017

Henrique Levy


Henrique Levy



morri para ser teu

procura na terra
desbravada imersa
na solidão da noite
o meu corpo transformado
na aurora luminosa
cada manhã
envolta em branco
noiva viúva
viverás nesse encanto
procura amor nas minhas mãos
o sabor onde a tua alma repousa

e a luz meu deus!

tão branca parece a manhã
já clara dos teus olhos em êxtase
quando a minha boca
a tua percorria ardente

fui teu
morri para ser teu
tu ressuscitaste
deixando-me só
morto
envolto no meu burel
de noivo prometido
à vida 
que já tarda


Henrique Levy, in “O Silêncio das Almas”, página 23, edições CriarInovar, Macau, 2015.

Pelo Café Caravela




Café Caravela. Foto de António Martins.



Ao centro uma mesa vazia
e um expresso pedido ao balcão,
depois gente
algumas mesas cheias
outras com gente, também.

A caravela é presença
nas paredes daquele espaço
e há uma na vitrina exposta
semi tapada
pela ementa do dia.

A maior parte das palavras sopradas
soa a uma linguagem diferente,
aquela em que se diz saudade,
sem uma tradução sentida 
em tantas outras línguas.

Olham-se chegadas e partidas,
fala-se de quem acabou de sair
e da sua incapacidade pendente.

Quando alguém entra
também se ouvem tecer elogios, 
que feitios, que artimanhas,
que insensatez,
que mesquinhez…

Existe uma esplanada no exterior,
onde o silêncio não se tolera
e a roupa mais mal lavada
se tenta sujar um pouco mais, 
consecutivamente.

Entretanto chega o expresso,
Delta, cremoso,
mas sem o sabor da saudade.

Olho para o lado
e lá vejo, outra vez,
a ementa do dia tapando uma caravela,
daquelas dos descobrimentos…

Mais uma descoberta!


António MR Martins