sábado, 27 de maio de 2017

António Ramos Rosa


António Ramos Rosa (1924-2013), imagem da net.



A FACILIDADE DO AR

A facilidade escreve-se.
A mão do dia é branca.
A luz do mistério
é animal.
Amar é olvidar
com estas árvores
com estas nuvens
com este sopro vermelho sobre as coisas.
A evidência do mundo é o barco do ar.
Visível a respiração da ausência.
Sem destino, para além dos signos,
o rosto confiante é o puro espaço
onde todo o vago é insinuante afirmação
e a paixão um murmúrio de leveza.
O sangue circula em palavras claras
e a doçura delira
na iminência que dura num rumor iluminado.

António Ramos Rosa (1924-2013), in “Facilidade do Ar”, página 19, edições Caminho, da Poesia, Junho de 1990.

quarta-feira, 24 de maio de 2017

A. M. Pires Cabral


A. M. Pires Cabral, imagem da net.




DESESPERANÇA

Já não sei que mais navios
buscarão este insalubre
litoral nosso desfeito
dentro da própria espuma

Já não sei que mais navios
cortarão na noite intensa
velhas ânsias de chegar
sua renascida pressa

Já não sei que mais navios
virão com carga no ventre
abastecer a distância
interior da minha gente


A. M. Pires Cabral, in “Artes Marginais”, página 52, edições Guimarães Editores, Novembro de 1998.

terça-feira, 23 de maio de 2017

Nas tuas ameias


Imagem in pixabay.com



Rasgo em ti
sombrias fronteiras amedrontadas
em gemidos ponteados de sedução
numa aromática melodia
que saboreio prazerosamente
em devaneios cúmplices
de extenuante sentido único.

Sinto em ti
os poros desbravados 
à míngua de uma língua cativante
enquanto o suor das nuvens
salpica a terra ressequida
ao som do tocante embalo
de todos os grilos cantantes.

Aquece em ti
a loucura saborosa
de um libido insinuante
no desembocar da perfuração
entre as raízes da árvore
que nos presenteia a sombra 
de todas as sentidas frescuras.

Resta em ti
o fragor de todas as ondas
na esbelta sensatez do corpo
ao teu areal de acolhimento
ante o voo duma gaivota
e um sensual sorriso
na busca de um sono sonhador.


António MR Martins

terça-feira, 16 de maio de 2017

António Ferreira


Capa do livro "O Comboio de Lúcifer", de António Ferreira.
Edições Assírio & Alvim.




PHOTO-PIECE

As olheiras perversas glosam
a banal liturgia do andrógino:
a camisa desabotoada no peito, o jeito felino da cabeça.
Tudo isto outrora foi escrito em nome de
uma sabedoria qualquer,
do espelho votivo a que celebramos,
da ânsia carnal de estar entre a tribo.
Tudo hoje se consome no desalento da pose,
sob a voz impudica da sibila,
na estúrdia que nos absolve do caos.


António Ferreira, in “O Comboio de Lúcifer”, página 16, edições Assírio & Alvim, Setembro de 1997.

domingo, 14 de maio de 2017

Ler-te avidamente


Foto: © André Brito



Folheei as páginas
das tuas memórias
renascidas
com o ímpeto
de quem desflora
a vulva pela vez certeira
e de forma intensa.

Folheei as sentidas palavras 
escondidas
que me paralisaram o olhar
imprimindo ávido fulgor
na ansiedade
da concretização
da mais prazerosa leitura.


António MR Martins

Festival da Eurovisão da Canção 2017 (Eurovision Song Contest 2017) - Final (Grand Final) - Ao vivo (Live). Portugal, país vencedor com a canção "Amar pelos dois", interpretada por Salvador Sobral. Letra e música de Luísa Sobral, irmã do intérprete.


Kiev (Ucrânia)

Sábado, 13 de Maio de 2017


terça-feira, 9 de maio de 2017

Manuel Resende




Manuel Resende. Imagem da net.



MORRER NÃO CUSTA 
3.

Na areia suguei o sumo de frutos ausentes,
Fazendo da minha boca a sua própria taça.
Na água bebi o ar que não havia.

Uma anca de areia
Sem braços, nem pernas, nem púbis,
Nem frescas axilas, nem cabelos, nem sequer pele,
Mas apenas o tacto disso.
Última fronteira! Depois de ter andado aos círculos
Numa guerra de mil anos contra um povo vencido,
Mas eternamente cercado,
O invasor entrava pelas casas adentro.

Última fronteira: a mais íntima porta dos sentidos.


Manuel Resende, in “Natureza Morta com Desodorizante”, página 55, edições Gota de Água e Imprensa Nacional - Casa da Moeda, Maio 1983.

segunda-feira, 8 de maio de 2017

Salpicando amor


Jardim One Oasis, em Coloane. Foto de António Martins.



Parti ao encontro de ti
pelas tranças da estrada
e nesse apuro te vi
correr por tudo e nada.

Saudei tua pele morena
e o teu sorriso sem fim;
perdi-te, e tive pena
de não esperares por mim.

Foste partindo no tempo
que guardarei na memória,
fiquei com esse lamento
retido nesta estória.

Teu nome nunca entendi
por isso jamais te chamei,
somente recordo ali
as flores que por lá deixei.

Há uma luz bem desperta
na origem do que falo,
colhi-te à descoberta
e num poema t’embalo.

A vida tem este cismar
entre paixão e amor,
antes de tudo esfumar
te canto com muito rigor.


António MR Martins

quinta-feira, 4 de maio de 2017

Gonçalo Lobo Pinheiro


Gonçalo Lobo Pinheiro. Foto de António Martins.



Se a saudade falasse

Se a saudade falasse
E tu, como as águas de um rio,
Seria eu a tua represa
Para te reter em mim e me banhar.
Seria leito, seria caminho
Para te levar, para te acompanhar
Seria ar, seria fogo
Oxigénio puro, luz, calor.

Se a saudade falasse
Seria discurso, seria voz
Para a escrita te oferecer
Num simples e terno poema.
Seria essência, seria razão
Pensamento sim, porque não?
Eloquência, primazia
A tua cor, o teu sabor, com certeza… seria.

Se a saudade falasse
Serias sempre tu
Ocupante do meu sentimento,
Nas horas de longe e de lamento
Porque te amo com tudo o que posso
E serei sempre, a todo o tempo,
Os passos firmes de alguém,
Envolto em ti, seriamente, mais ninguém.


Gonçalo Lobo Pinheiro, in “Sofá das Ilusões”, página 51, edições Temas Originais, 2011.

Inseguras opções


Imagem da net.



Passo torpe, desconexo, sem firmeza,
raiz do medo, rastreio dum sonho
misturado, contínua incerteza
que implora um derramar tristonho.

Passo estreito, imperfeito, mas lesto,
pedaço desfigurado, oblíquo,
denodo incompreendido, o resto,
batalhado caminhar improfícuo.

Passo resistente, foto descartada,
inconveniência calafetada
que silencia qualquer circunstância.

Passo varrido num trémulo discernir,
insustentável feito por conseguir,
que nos perturba a cada instância.


António MR Martins

terça-feira, 2 de maio de 2017

Rui Rocha


Rui Rocha. Imagem da net.



[na cama da noite procuro]

na cama da noite procuro
a tua voz um rasto do teu corpo
um cheiro doce e leve a adormecer
no sono mais próximo do meu

assento o meu queixo desperto
na primeira estrela da noite
e conto as ideias acordadas
que encontro nos teus olhos 

do outro lado da noite
há um prodígio quente do tempo
na sombra dos teus lábios
que espera a claridade dos dias


Rui Rocha, in “Taotologias”, página 43, colecção contramaré / 11, edições Editora Labirinto, Dezembro de 2016.

segunda-feira, 1 de maio de 2017

O olhar da despedida


Imagem da net.



Sinto o adeus no teu olhar,
restante página da vida
que tanto teria para contar.

Sinto a pressão dos teus olhos,
penumbra retida num pranto
moldada por mais de mil folhos.

Tens um vínculo metafórico,
enleio duma tez mais exposta
em baladas de imprecisão.

Vês a esmola não colhida
em substância dissolvente,
ansiando pela partida.

Sinto-te no enlevo do verbo,
aguardando nova gestação
em profícua continuação.

Tanto terias para contar
neste adeus da tua vida,
pressinto isso no teu olhar.


António MR Martins

sábado, 29 de abril de 2017

Carlos Morais José


Carlos Morais José, foto de Gonçalo Lobo Pinheiro.



Reservatório

Lá por ter acreditado num espelho onde
tudo se reflectiria, não teria forçosamente de o encontrar.
O vasto céu acaricia a água e o vento estremece-a de
prazer. Não há mais nada, mais nada interessa: só há 
vento, só há céu. E tudo isto na água.


Carlos Morais José, in “MACAU - O Livro dos Nomes”, edições COD, Macau, 2010.


Reservatório de Macau, foto de António Martins.

quinta-feira, 27 de abril de 2017

no findar de uma caminhada


Borboletas pretas, imagem da net.



no parapeito,
onde adormecem as saudades
das remotas horas da infância,
há uma janela semi fechada
entre as madeiras,
que quase a encerram.

daquela trémula imagem
se esconde um mortiço olhar,
resultante duma idade dos tempos,
na penumbra do interior
perante um genuíno silêncio.

de vez em quando
uma convulsiva tosse,
de voz grave e rouca,
perturba todos os sons inaudíveis.

e o quase vazio da vida,
ganho pelo passar dos anos,
naquele último espaço
de uma caminhada existencial
afugenta o pousar das borboletas.

será na residência final
que a flor última
desencadeará o retorno
de todas as mariposas. 


António MR Martins

terça-feira, 25 de abril de 2017

Abraão Vicente


Abraão Vicente. Imagem da net.



versos impunes

Já não há contos
de embalar ou
fadas madrinhas
com quem possas
selar alianças e inventar
asas de licórnios
voadores onde
te possas esconder
da vida, do pesar
e das pérolas
ensanguentadas
que o amor
te reserva.

Poe-te a contar
com minúcia e fervor
os dias de alegria
e a incoerência que
ainda te restam, 
nobre criança.

Vem até mim, vem
quero-te embalar
na melodia do antes
do fim.

Andatas, valsas e 
mariachis loucos…

Onde estavam os corpos?
Em que areia movediça,
em que praia as
donzelas trincaram
laranjas ácidas de 
um pomar inaudito?

Sabre, safira,
pedra ume.
Que canção
saberá cantar
o Príncipe
perante o abismo
do teu sexo
descoberto?

Mar, rosas, espinhos
clichés fatais e a
morte da inocência
três tristes tigresas
Simone, Akhmátova
e Florbela
de mãos entrelaçadas
na espuma do vento
que as desfolhou
em versos impunes
pela morte.


Abraão Vicente, in “amor 100 medo, cartas improváveis & outras letras”, páginas 32 e 33, edição do Autor, Dezembro de 2014.

sexta-feira, 21 de abril de 2017

desenho sem planos


Imagem da net.



vejo-te em linhas concretas,
desenhada,
ante as tangentes fugidias das margens
duma sóbria folha de papel cavalinho,
com tuas vestes soltas,
tombando aqui e acolá,
que te desnudam
numa toada simples
e subtilmente frágil.

te vendo assim
apelei ao som das árvores,
que vinham surgindo
num dos topos da folha,
e ao olhar vigilante do rio,
que acabara de galgar
uma das simuladas margens,
por onde acabarias 
de fazer flutuar teu corpo.

a imagem dessa ficção,
visionada em desenho,
completou-se
com o inédito
da tua sublime presença física.

António MR Martins

Escrito em Hoi An, Vietname (Hotel Maison Vy), 15 de Abril de 2017

quinta-feira, 20 de abril de 2017

Sérgio Godinho


Sérgio Godinho. Imagem da net.



De fora para dentro dos olhos

De fora para dentro dos olhos
baixam os fantasmas
trazem sempre roupa nova
nunca a dor foi a mesma em pessoa nenhuma:
se morrermos sozinhos das dores colectivas
é o que diz o cantor
ninguém vem levantar-nos do chão.

A rampa enfeita a porta da garagem.
Paredes-meias com o passado
quem controla o sossego dos fantasmas?
Desfazem-se pelo pouco que há de pó
gastamo-nos na luta.

Quando se dá por ela é meia-noite
de dentro para fora dos olhos
grande saudade
é fogo eterno. 


Sérgio Godinho, in “O Sangue por Um Fio” (poemas), página 79, edições Assírio & Alvim, 2009.

sexta-feira, 7 de abril de 2017

No fascínio do ser


"Freedom", por José Cavaco, in http://olhares.sapo.pt/freedom-foto8623135.html


Palpei tua mão
que repousando em teu corpo,
de delicadas matizes,
se afigurava à minha mercê
ante a matriz do esplendor,
arredia e insegura,
ou, talvez, adormecida.

Sorriste num sono,
que se estendia na quietude
inquieta
das marés infindas,
pelo desvario dos sonhos 
incautos,
que sempre despertam clamores.

Desci ao templo
da misericórdia do corpo
e da hecatombe da mente, 
por onde despertaram
todos os sentires,
num tortuoso sacrifício 
do teu acordar.

Depois, num ritmo alucinante,
o apogeu 
de todas as sensações
e de todos os prazeres humanos,
até ao epílogo final,
que selámos com um beijo.


António MR Martins

quinta-feira, 6 de abril de 2017

Vinícius de Moraes




Vinícius de Moraes 
(Rio de Janeiro, 19 de outubro de 1913 — Rio de Janeiro, 9 de julho de 1980)



Aquarela

Numa folha qualquer eu desenho um sol amarelo
E com cinco ou seis retas é fácil fazer um castelo
Corro o lápis em torno da mão e me dou uma luva
E se faço chover com dois riscos tenho um guarda-chuva
Se um pinguinho de tinta cai num pedacinho azul do papel
Num instante imagino uma linda gaivota a voar no céu

Vai voando, contornando
A imensa curva norte-sul
Vou com ela viajando
Havaí, Pequim ou Istambul
Pinto um barco a vela branco navegando
É tanto céu e mar num beijo azul
Entre as nuvens vem surgindo
Um lindo avião rosa e grená
Tudo em volta colorindo
Com suas luzes a piscar
Basta imaginar e ele está partindo
Sereno indo
E se a gente quiser
Ele vai pousar

Numa folha qualquer eu desenho um navio de partida
Com alguns bons amigos, bebendo de bem com a vida
De uma América a outra consigo passar num segundo
Giro um simples compasso e num círculo eu faço o mundo
Um menino caminha e caminhando chega num muro
E ali logo em frente a esperar pela gente o futuro está

E o futuro é uma astronave
Que tentamos pilotar
Não tem tempo nem piedade
Nem tem hora de chegar
Sem pedir licença muda nossa vida
E depois convida a rir ou chorar
Nessa estrada não nos cabe
Conhecer ou ver o que virá
O fim dela ninguém sabe
Bem ao certo onde vai dar
Vamos todos numa linda passarela
De uma aquarela que um dia enfim
Descolorirá

Numa folha qualquer eu desenho um sol amarelo
Que descolorirá
E com cinco ou seis retas é fácil fazer um castelo
Que descolorirá
Giro um simples compasso e num círculo eu faço o mundo
Que descolorirá

………………………………………………….


Um belíssimo poema, que nos relata o percurso existencial em torno da vida, que veio a resultar numa não menos belíssima melodia / canção, com a interacção de Toquinho, Guido Morra e Maurizio Fabrizio.

quarta-feira, 5 de abril de 2017

Empatia


"Olhares", imagem da net.



Tenho o meu olhar
preso ao teu, almejando
a razão para a descoberta,
num anseio
pendente de concretização.

Há um apelo mútuo
à sedução, desde a origem
à consumação da nossa rota
das descobertas.

Tudo se roboriza
numa amplitude sem limites
e numa eloquência
única
sem restrições
e ambiguidades.

Continuo com o meu olhar
preso ao teu!... 



António MR Martins

quarta-feira, 29 de março de 2017

O tempo é poesia


Imagem da net.




E a hora desesperou
tardia
num tempo 
que tardou 
sem ter tempo.

Entre o tempo 
em que tardou a espera
daquele verso
que o poema não findou.

Demorou tanto a chegada
que pela partida ansiou.

Logo a palavra
com entusiasmo
num sem tempo 
se deslumbrou.

O poema nessa quimera
quedo ali se finou
amargurado pela espera
que o verso nunca criou.

Autópsia da descoberta
num tempo morto
futilizado 
quase ocaso afinal.

Surge a montante
o sentido para o verso
e acontece a palavra certa
para o poema renascer.

Este o tempo de existir
do criar
e do porvir
ou a simples evidência
da poesia a acontecer.


António MR Martins

sábado, 25 de março de 2017

Grace Chia


Grace Chia, 6.º Festival Literário de Macau -
Rota das Letras 2017. Foto de António Martins.



@lice

I swallow the seed of
curiosity to find myself
tumbling through the fog
of my screensaver
into the dark ages -
down a hole, infinite,
plunging head first,
my flailing, marshmallowy
limbs waving farewell
to silverfish scuttling
inside the pages of my face
book.

White Rabbit,
you lead me eyes wide
to the fantastic, away
from this everyday motif
of duties for the greater good.
I am munching mushrooms,
flexing mercurial nerves to
become giant then dwarf,
aloft then squat,
cat-talking, sword-wielding;
playing monsters that go
gibberish-jabberish wock.

The Queen has my head
so I can’t think straight,
stumbling without faculty,
lost within four walls
typing this with vigour,
punching out words
till they are blue black
as furious and bruised
as I am; in my vendetta,
I become, mad hatter,
spurned, anonymous vigilante,
trying to right a wrong, Knave, 
the plague you inflict in me.

Grace Chia, in "Cordelia", pages 88 and 89, edition Ethos Books, Singapore, 2012.

* My simple translation, trying not to denigrate the poetics and the plot of the story, in the relevance of the user addiction of this virtual world, through facebook.

………………………………………………

@lice

Engulo a semente da
curiosidade de me encontrar
deambulando pela bruma
da minha protecção de tela
para a idade das trevas -
afundei num buraco, infinito,
mergulhando a cabeça primeiro,
agitando, no lodo dum pântano
removendo os membros
entre peixes prateados correndo
no interior das páginas da face
livro (facebook).

Coelho Branco,
leva-me os olhos bem abertos
para o fantástico, longe
deste quotidiano motivo
de deveres para um bem maior.
Estou devorando cogumelos,
flexiono os nervos mercuriais
na dimensão entre anã e gigante,
agachando-me de seguida,
voz de gato, espada empunhada;
e os monstros vão jogando
palavras sem nexo.

A Rainha possui-me a mente
e assim não consigo raciocinar,
tropeçando inconscientemente,
perdida entre quatro paredes
mas digitando tudo com vigor,
escavarei outras palavras
até que todos fiquem arroxados
de tão furiosos e magoados
como estou; na minha vingança,
me transformo, loucura extrema,
desprezada, vigilante anónima,
tentando corrigir o erro, Valete,
da praga que você infligiu em mim.

Grace Chia, in “Cordelia”, páginas 88 e 89, edição Ethos Books, Singapura, 2012.


* Minha singela tradução, tentando não denegrir a poética e o enredo da estória, na relevância do vício usuário deste mundo virtual, via facebook. 

quinta-feira, 23 de março de 2017

Deusa d’África


Deusa d'África, imagem da net.


A VIDA QUE NÃO TIVE

Um abraço
Um apreço
Um vaso
Para jogar a semente e irrigá-la
E clientes para fornecer-lhes
A água vinda das minhas pupilas.

Um afecto
Como um insecto
Cujo pai ensina-o a voar.

Um punhal
Para encravar
Em minhas entranhas,
A liberdade, 
E livrar-me da colonização da vida.


Deusa d’África, in “A Voz das Minhas Entranhas”, página 48, edição Deusa d’África / Grupo Cultural Xitende / Ciedima, Lda., Maputo, 2014.

terça-feira, 21 de março de 2017

escritores.online


Pode ver a minha página de escritor aqui.


Caos desembargador


Imagem da net.



Saem dum recôndito espaço mental
tais enredos promíscuos temporais;
num primoroso ensaio colossal
entre facetas algo desiguais.

Jocosas inerências sem virtudes,
dúbio apelar sem conformidade;
imo trespassado de vicissitudes
revelando larga incapacidade.

Saem bocejos, sendo camuflados,
em conceitos outrora desbravados,
síndrome oponente à rebelião.

Saem deplorados brandos costumes
das montanhas que pariram p’los cumes
ratazanas fomentando a confusão.


António MR Martins

segunda-feira, 20 de março de 2017

Apresentação do meu livro "Empresta-me a Palavra" em Macau, 19 de Março de 2017


No Edifício do Antigo Tribunal de Macau


Foi no último dia do 6.º Festival Literário de Macau - Rota das Letras 2017, que aconteceu a minha intervenção final, a apresentação do meu último livro "Empresta-me a Palavra", com a chancela da Chiado Editora, com a coordenação do amigo João Manuel Vicente. Fez-se uma conversa à volta do livro, da poesia e dos mais diversos temas que o João fez questão de abordar, levando-os ao conhecimento público. Sucedeu uma sessão repleta de sentires e emoções. Foram dezasseis dias com as palavras e os autores em plena interacção, que ficarão registados no meu imo para todo o meu sempre. A organização e a equipa da Rota das Letras foram inexcedíveis em simpatia, atenção, amabilidade e labor, isso... acima de tudo labor, e muito! Um muito obrigado ao Ricardo Pinto, ao Hélder Beja e ao Yao Feng, tentando, deste modo, abranger todos. Hoje é o dia seguinte, já nasceram as saudades!...

quinta-feira, 16 de março de 2017

JAM SESSION DE POESIA / BRANCO & VERMELHO - 14 de Março, pelas 21H30


No Vasco Bar, Grand Lapa em Macau.

Dizendo a minha poesia lida. Foto de Eduardo Martins.

quarta-feira, 15 de março de 2017

Yao Feng


Yao Feng, lendo um seu poema, na sessão
"Café dos Poetas", do 6.º Festival Literário de Macau - Rotas das Letras 2017, 
no Edifício do Antigo Tribunal, 4 de Março, pelas 20,30 horas. 



Relíquia

A cama do doente, velha e gasta,
e, na mesa, as flores de plástico que não sabem o que é
murchar
Os familiares, ainda saudáveis, cercam a cama a chorar
formando um muro de lágrimas
Lá fora, as sumaúmas, bem florescentes
refletem-se no vidro da janela como manchas de sangue

Começamos a arrumar os pertences pessoais do defunto:
agenda, telemóvel, espelho, pente, casaco,
sapatos, remédios
Entre eles o velho relógio Seiko
continua a fazer
tiquetaque, tiquetaque, tiquetaque…


Yao Feng (Pequim, China), in “Palavras Cansadas da Gramática” (poesia e fotografia), página 81, edições Gradiva, Novembro de 2014.

terça-feira, 14 de março de 2017

JAM SESSION DE POESIA / BRANCO & VERMELHO - 14 de Março, pelas 21H30


6.º Festival Literário de Macau - Rota das Letras 2017


Hoje irei dizer a minha poesia, durante cinco minutos, na sessão "Jam Session de Poesia", que terá lugar no Vasco Bar, no Grand Lapa Macau, pelas 21H30, na programação estabelecida para o 6.º Festival Literário de Macau - Rota das Letras 2017. 
Esta sessão estabelece-se com uma outra "Branco & Vermelho", o que vai dar azo a que ocorra uma interacção plena entre diversas artes, a poesia, a música, o teatro, a declamação, a dança, o gesto, etc.

Se quiser, e puder, apareça! 

E beba um copo, também!...

sexta-feira, 3 de março de 2017

Infinita beleza


Imagem na net.




Tu és a plenitude
do meu anseio,
superior patamar deste caminho.
Árvore sentido para a vida,
expoente da casa
no meu singelo ninho.

Tu és
a janela entreaberta, 
o sal benéfico
da existência,
o nascimento estratégico
de robustez e potência.

Tu és a palavra amor,
semente-abraço no infinito,
abrigo ao frio e ao calor.

Para mim,
o Ser mais bonito!...



António MR Martins

segunda-feira, 27 de fevereiro de 2017

A minha participação no 6.º Festival Literário de Macau - Rota das Letras 2017





4 de Março

20H30

舊法院大樓  | Edifício do Antigo Tribunal | Old Court Building

詩人咖啡館 | Café dos Poetas | The Poets’ Café

陳黎 Chen li, António MR Martins, 陸奧雷Rai Matsu, 王家新 Wang Jiaxin, 及澳門其他詩人 |e poetas de Macau | and other poets from Macau




19 de Março

14H00

何東圖書館 |  Biblioteca Sir Robert Ho Tung Sir Robert | Ho Tung Library

言葉之庭 ﹣ 詩歌朗誦會 |  Jardim das Palavras - Sessão de Poesia | The Garden of Words - Poetry Reading

James Shea, António MR Martins 及本地詩人 | e Poetas Locais | and local poets




19 de Março

15H00

舊法院大樓 | Edifício do Antigo Tribunal | Old Court Building

作家和他們的作品 | Autores e os Seus Livros | The Writers and Their Books

José Manuel Simões - "Deus Tupã"

Carlos Morais José -  "O Arquivo das Confissões: Bernardo Vasques e a Inveja"

António MR Martins - "Empresta-me a Palavra"  



Consulte a agenda completa do festival aqui

sábado, 25 de fevereiro de 2017

Wenceslau de Moraes


Wenceslau de Moraes (1854-1929)



Aqui

Aqui, entre os juncos e as flores do lótus,
compreendi que o inferno e o céu,
por mais que os deuses e os livros nos levem
a pensar o contrário, estão no coração do homem.
Eu conheci ambos deambulando por dentro de mim
e fazendo boa sombra um desejo de luz
e da luz um secreto desejo de sombra.
Não foi o sol que me queimou o rosto,
foi o lume das inquietações fatais,
e quedei-me assim, apátrida e só,
numa terra a que chamo minha
mas que faz o longe tornar-se fatalidade.

Apego-me à sabedoria volátil e certa dos provérbios
e aprendo neles que sou, que sempre fui,
um insecto do estio a voar para a chama
e que após a neve vem o Nirvana.
Sempre encaminhei os meus passos na direcção da luz,
mas foi a treva que encontrei, fixando os pedaços
de reboco que se soltam do tecto
presos ao voo dos besouros, enquanto
eu me perco no labirinto da minha solidão.

Vê como eu morro devagar
enquanto a chuva desenha de poeira
as metáforas do Outono e do assombro.
Vê como eu apodreço à ilharga da música
que sai do interior das conchas
junto à rebentação das ondas,
no sítio onde os poetas há muito
deixaram de escrever e de sonhar.
Vê como eu me torno estrangeiro absoluto
numa terra que quer ser minha
mas que eu não consigo guardar no coração
como coisa essencial da minha vida.

Wenceslau de Moraes (30 de Maio de 1854 - 1 de Julho de 1929), in “O Profeta do Orvalho”.

quinta-feira, 23 de fevereiro de 2017

Antologia de Poetas Portugueses, na Roménia

Já tenho em minhas mãos um exemplar da "Antologia poeților portughezi", uma obra da qual tive o privilégio de ser coordenador. O livro, com chancela da Editura Pim, trata-se de uma publicação bilingue (Português-Romeno) e mostra o trabalho poético de 11 autores portugueses, Edgardo Xavier, Conceição Oliveira, Alvaro Giesta, Lília Tavares, Maria Jorgete Teixeira, António MR Martins, Conceição Bernardino, Severino Moreira, Teresa Brinco de Oliveira, Joaquim Pessoa e Gonçalo Lobo Pinheiro, com a tradução de Daniel Dragomirescu, edição de Janeiro de 2017.




Sima Xiangru


Sima Xiangru (179 a.C.-117 a.C.), imagem da net.



31. Prosa Ritmada

Com seda autêntica se compõe o poema
E com garantia é exposto o brocado.
Cada urdidura, cada trama,
Cada mandarim, cada comerciante,
Tais os traços da prosa ritmada.

O pensamento do poeta de prosa ritmada
Abarca o universo.
Tudo observa nas personagens.
Isto só pode ser obtido através do interior,
Nunca obtido segundo a tradição.

(tradução Alexandre Li Ching)

Sima Xiangru (179 a.C.-117 a.C.), in “Quinhentos Poemas Chineses”, de diversas épocas e dinastias, vários autores, vários tradutores, página 61, coordenação de António Graça de Abreu e Carlos Morais José, edições Livros do Meio / Casa de Portugal em Macau, Setembro de 2013.

Sobre Sima Xiangru:

Inovador no trabalho poético, de vida agitada e complexa, é um dos grandes poetas do período inicial da dinastia Han. Proibido de casar com a sua apaixonada Zhuo Wenjun, por ser filha de um milionário, os dois amantes acabaram por fugir e sobreviver graças a uma pequena taberna, onde durante um período trabalharam. (na referida obra)

quarta-feira, 22 de fevereiro de 2017

apogeu


Imagem da net.



não logres
a oportunidade de partir
quando a floresta
se abre sem temores
aos olhos da perturbação

não mendigues
lonjuras
quando tudo o que te envolve
é o sentir profundo
de todas as ocorrências

não pressiones
domicílios
na resiliência desprotegida
ante a insegurança
que habita em teu redor

não vilipendies
a sorte
se o sol te assegurar
a luminosidade
crescente da vida

não te sufoques
no ar da inexistência
desabita teu estado amorfo
que logo serás desabitada
e rumarás ao máximo livre sentir


António MR Martins

segunda-feira, 20 de fevereiro de 2017

Tao Yuanming


Tao Yuanming (365-427). Imagem da net.


XIII

dois homens partilham a mesma casa
cada um rejeita aquilo de que o outro gosta
vivem em mundos opostos
um está sempre embriagado,
o outro sempre sóbrio
ambos, zombam um do outro
só nisso estão de acordo
embora nenhum deles compreenda
seja o que for das palavras do outro
ser circunspecto! não será isso estúpido?
e ser exaltado? não será muito mais judicioso?
só um conselho para aquele que se dedica ao vinho
e assim se embriaga,
quando o Sol se deitar que ele não se esqueça
de acender as velas.

Tao Yuanming (365-427), in “Poemas de Tao Yaunming”, página 97, edição bilingue, versão portuguesa e prefácio de Manuel Afonso Costa, uma edição Livros do Meio / Instituto Cultural do Governo da RAEM, Macau, Junho de 2013.

Sobre Tao Yuanming:

“Não há muitos anos, os deuses da poesia decidiram convidar os maiores poetas da China para um banquete de príncipes e letrados, algures num terraço entre nuvens pendurado numa das montanhas mágicas do velho Império do Meio. Vieram Qu Yuan (343-278 a. C.) nostálgico e triste, Tao Yuanming (365-427), precocemente envelhecido, sereno, sobraçando um ramo de crisântemos, Li Bai (701-762), imortal no exílio, com uma botija de vinho (…)”, António Graça de Abreu, in Prefácio, “Poemas de Han Shan”, citação de Manuel Afonso Costa no seu prefácio a “Poemas de Tao Yuanming”.