sexta-feira, 21 de julho de 2017

Fui convidado para a sessão de poesia na Biblioteca Municipal da Maia, de 29 de Julho de 2017. Uma organização do grupo Asas de Poesia.


A convite do Grupo Asas de Poesia, no dia 29 de Julho estarei na Maia, na Biblioteca Municipal Dr. José Vieira de Carvalho, a partir das 16 horas, numa grandiosa sessão de poesia, onde na 2.ª parte se falará da vida e obra de Rosa Lobato Faria.
 
Apareçam e tragam mais amigos convosco.
 
 


Vozes silenciadas


Por terras de Pedrógão Grande. Foto de António Martins.



Esgravatam os ânimos rebeldes
Indispostos pela tolerância
E para tantos outros afagos

Os fogos se desvanecem
Os pruridos se elevam
As mentes enlouquecem
E as verdades não se revelam

As melodias são confusas
E a ilusão incorporam
Entre tantas palavras difusas

Os aceiros já não dividem
As pedras esmorecem
As árvores não se agitam
As vozes não têm comando
E as vidas não têm conserto
Pelo desespero que assentam

Há um cântico amordaçado
Em tanta voz do silêncio

 
António MR Martins

Olinda Beja


Olinda Beja, imagem da net.



Fragilidades - II

descia na falésia a sombra de teus olhos
cílios luarentos de papaias e de mangas
flutuava em teu desejo a noite e a madrugada

tamborilavas no zinco do meu peito enquanto a lua
se espreguiçava em nossa verde cama

e eras como a chuva abrindo sulcos fundos no capim
e eras o ossame e o quiabo do meu gosto
e eras a canoa à deriva no meu mar

fundeámos em estrelas de alísios pensamentos
erguemos a coragem e o sextante do navio

remadores ficámos de agitadas águas nas margens de Paguê

 
Olinda Beja, in “À Sombra de Oká” (Prémio Literário Francisco José Tenreiro), página 71, Edições Esgotadas, 2015.

sábado, 15 de julho de 2017

Requinte de um beijo único


Imagem da net em: www.muitofixe.pt



Um beijo. A epopeia de um beijo só,
num sentir profundo e empolgante;
por vezes como o desatar dum nó
envolto num prazer autocolante.

Sufoco pelos minutos em que dura
o emprego dos lábios e adjacentes,
enlevo que suavemente se atura
repleto de sentidos correspondentes.

Sentir a descolagem como união
e no rubor intimista a sensação
do seu perdurar pelo tempo fora.

Olhos fechados, anseio fecundo,
entre o parar ou correr o mundo
ficam uns lábios, outros vão embora.

 
António MR Martins

quarta-feira, 12 de julho de 2017

Maria Dias


Maria Dias, imagem da net.
 


As marcas do tempo

 as paredes envelhecem
as portas apodrecem
mostram as marcas do frio
do forte calor do estio
do inverno tão frio
das chuvas torrenciais
do pouco e de tudo o mais…
mas essas, podem-se reparar
e assim as recuperar

 no ser humano é diferente
ao seguirmos em frente
o tempo deixa marcas
e, deixa lembranças
profundas recordações
que o tempo nos presenteou
marcas nos corações
no corpo desenhadas,
da vida que em nós ficou

 
Maria Dias, in “ Abraço-te”, página 62, edições Boutique da Cultura, com desenhos de Teresa Caio, Março de 2017.

domingo, 9 de julho de 2017

Espinho(s) da vida ou da morte


Espinho, imagem da net.



Trago comigo memórias perdidas
ao relento do teu aroma perfumado
hortelã do teu regaço
e dos pássaros cantando ao desafio
por entre a bruma do esquecimento.

Vieste do outro lado
abraçar-me sem preconceito
num afago abundante
repleto de amizade simples e pura
por entre os sonhos inacabados.

Trago o som das tuas palavras
no meu recôndito espaço-ouvinte
e no âmago um aperto inalterável
perante a tua imagem sentida
e no grave da tua voz,
silenciada nos tempos,
se estende o meu caminho.

Sinto-te todos os dias
companheiro das horas calmas
e da agitação das conversas,
sorridas ou choradas,
conforme as circunstâncias.

Verde ou azul
vale o verbo da vida
na diferença das margens do ser
e do pendor proeminente
dos laços que unirão para sempre
nossas vivas (in)existenciais.

 
António MR Martins

sexta-feira, 7 de julho de 2017

Joaquim Pessoa


Joaquim Pessoa, imagem da net.



BOM DIA, MEU AMOR!

Acordo-me. Acordo-te. Sorrio.
E sobre a tua pele que a minha adora,
navega o meu desejo, esse navio
que sempre parte e nunca vai embora.

E como um animal uivando o cio
de um milénio, de um mês ou uma hora,
não sei se morro ou vivo, ou choro ou rio,
só sei que a eternidade é o agora.

E calam-se as palavras, uma a uma,
feitas de sal, saliva, dor e espuma,
com a exacta dosagem da alegria.

Bom dia, meu amor! O teu sorriso
é tudo o que me falta, o que eu preciso
para acender a luz de cada dia.

Joaquim Pessoa, in “Os dias não andam satisfeitos”, página 53, Edições Esgotadas, Março 2017.

domingo, 25 de junho de 2017

Destino


Imagem da net.




Na voz do silêncio
Se ouve o rigor.

Matéria de ensino
Aperto na dor,
Última soalheira
Ou agreste inverno.

Verso-poema
Em campo de abrigo,
Memórias perdidas
No fado da vida.

 
António MR Martins

sábado, 24 de junho de 2017

Sandra Freitas


Sandra Freitas, imagem da net.




Nome

O orvalho do meu nome
traz-me ribeiros mansos
e a infância que ainda não tive,
vai mergulhar o rosto num
pólen de aventura e esperar
que um astro luminoso me
avalie com sabedoria.
Hei-de sentar-me ao lado da
minha fonte, com silvas aos
pés, e deixar que todos os sons
matinais refresquem a minha sede.

Sandra Freitas, in “111”, página 145, edições Chiado Editora, Fevereiro, 2017.  

sexta-feira, 23 de junho de 2017

Ilogismo absoluto


Fogo de Pedrógão Grande, imagem da net.



Neutro assumir,
peremptório posicionamento
entre as moléstias desavindas
nos resquícios da inconformação.

Um prurido constante
cinde os sentidos do plano
e nada acontece em conformidade.

Profligam-se todas as teses da perfeição,
o estabelecido torna-se inconsequente
e impossível de se concretizar.

Ultimam-se novas peripécias
na encruzilhada da hecatombe
que surpreende os minutos seguintes,
entrando tudo fora de controlo.

Tiritam os temores
perante um calor avassalador
e os estalidos ressoam nos ouvidos
de todas as sentidas escutas.

Ao fundo a labareda
planeia seu ritmo devorador
e a carne atónita
é queimada no seu interior,
num alarmante súbito sentido.

O aprazível verdum vira acastanhado
e o fumo evidencia o tapear empolgante.

O absurdo rodeia a circunstância
e o galarim fenece,
na firmeza selectiva do implexo lume
tudo fica feito em tristes cacos.

O doidivanas tudo aglutina
e a resignação
de quem mais nada pode
faz-se observar no rude horizonte.

Valeram os homens de vermelho
que jamais se renderão
a tão estouvado demolidor.

Mas a morte mora ali
e ficará para sempre
na nossa memória.

 
António MR Martins

terça-feira, 20 de junho de 2017

Henrique Levy


Henrique Levy, imagem da net.



ANOITECE

o corpo não pede gestos
nem pétalas perfumadas de gerânios
nem naus em portos longínquos
nem mãos sobre altares buscando preces
nem o último olhar do sol sobre a ilha antes de adormecer

o meu corpo é agora o lugar
de lábios demorados que
sobre ele desatam beijos

no entardecer dos teus olhos
brilha em repouso o requiem da entrega

noite em que os muros as roseiras bravas
vieram debruar de alvíssima seda
em que o lamento das borboletas
das asas se desprende no crepúsculo cintilante
mergulhando o mar…

Henrique Levy, in “Noivos do Mar”, página 37, edições Labirinto, colecção contramaré / 13, Abril de 2017.

segunda-feira, 19 de junho de 2017

Sessão de autógrafos


Sessão de autógrafos no Espaço Chiado, da Chiado Editora, na 87.ª Feira do Livro de Lisboa, dia 17 de Junho de 2017, pelas 22H00, com o meu livro "Empresta-me a Palavra".
 
 
 
 


quinta-feira, 15 de junho de 2017

Sessão de autógrafos com "Empresta-me a Palavra", na Feira do Livro de Lisboa 2017


Vou estar na Feira do Livro de Lisboa 2017, no Parque Eduardo VII, no próximo dia 17 de Junho, pelas 22H00, para uma sessão de autógrafos no Espaço Chiado (Chiado Editora), com o meu livro "Empresta-me a Palavra".

Apareçam e tragam mais amigos convosco.

Muito obrigado.

Meu abraço.





Soalheiro quotidiano


Imagem da net.




Há um grito prenhe
que ecoa
nas feridas da seara
onde o trigo amanhece
com os silenciosos grilos,
ante a única causa
da verdade permitida.

A imagem visionada
emoldura-se
pela lentidão nos dias soalheiros,
num contexto,
quase,
habitual,
mesmo a qualquer dia domingo
de um mês qualquer.

Fosse ele um sábado
ou uma segunda-feira!...

 
António MR Martins

terça-feira, 30 de maio de 2017

Fernanda Dias


Fernanda Dias, foto Hoje Macau.



o lótus e a libélula

eu queria-te sagaz e livre
voando sobre um lótus de cetim carnudo

a vida fervilhando inteira
no charco limoso
um denso vapor letal
subindo, sublimando o visco
polindo o olho facetado e arisco
de um insecto cor de opala

eu queria isto e queria-te à janela
sobre os lagos de Nam Van
eu queria tudo.


Fernanda Dias, in “chá verde”, página 38, edições Círculo dos Amigos da Cultura de Macau, 1.ª edição, 09/09/2002.

segunda-feira, 29 de maio de 2017

No suor do teu vindimar


Imagem da net.



Na dorna
onde adormece a vinha vindimada
fervem os prazeres líquidos
dos deuses,
o néctar da tua essência
na agitação
de um apelo soberbo
ao cálice da tua magnificência.

Restauro de um engaço
em resíduos do único delírio
pelo cheiro dos vinhedos
desnudados
ante o teu rosto resplandecente
e tua boca sensual
de travo agridoce.

Viajas pelo esmagar dos bagos,
sonhadora,
como que levitando teu corpo
misturado
com o prazer do teu transpirar
por entre as castas da madrugada.


António MR Martins

sábado, 27 de maio de 2017

António Ramos Rosa


António Ramos Rosa (1924-2013), imagem da net.



A FACILIDADE DO AR

A facilidade escreve-se.
A mão do dia é branca.
A luz do mistério
é animal.
Amar é olvidar
com estas árvores
com estas nuvens
com este sopro vermelho sobre as coisas.
A evidência do mundo é o barco do ar.
Visível a respiração da ausência.
Sem destino, para além dos signos,
o rosto confiante é o puro espaço
onde todo o vago é insinuante afirmação
e a paixão um murmúrio de leveza.
O sangue circula em palavras claras
e a doçura delira
na iminência que dura num rumor iluminado.

António Ramos Rosa (1924-2013), in “Facilidade do Ar”, página 19, edições Caminho, da Poesia, Junho de 1990.

quarta-feira, 24 de maio de 2017

A. M. Pires Cabral


A. M. Pires Cabral, imagem da net.




DESESPERANÇA

Já não sei que mais navios
buscarão este insalubre
litoral nosso desfeito
dentro da própria espuma

Já não sei que mais navios
cortarão na noite intensa
velhas ânsias de chegar
sua renascida pressa

Já não sei que mais navios
virão com carga no ventre
abastecer a distância
interior da minha gente


A. M. Pires Cabral, in “Artes Marginais”, página 52, edições Guimarães Editores, Novembro de 1998.

terça-feira, 23 de maio de 2017

Nas tuas ameias


Imagem in pixabay.com



Rasgo em ti
sombrias fronteiras amedrontadas
em gemidos ponteados de sedução
numa aromática melodia
que saboreio prazerosamente
em devaneios cúmplices
de extenuante sentido único.

Sinto em ti
os poros desbravados 
à míngua de uma língua cativante
enquanto o suor das nuvens
salpica a terra ressequida
ao som do tocante embalo
de todos os grilos cantantes.

Aquece em ti
a loucura saborosa
de uma libido insinuante
no desembocar da perfuração
entre as raízes da árvore
que nos presenteia a sombra 
de todas as sentidas frescuras.

Resta em ti
o fragor de todas as ondas
na esbelta sensatez do corpo
ao teu areal de acolhimento
ante o voo duma gaivota
e um sensual sorriso
na busca de um sono sonhador.


António MR Martins

terça-feira, 16 de maio de 2017

António Ferreira


Capa do livro "O Comboio de Lúcifer", de António Ferreira.
Edições Assírio & Alvim.




PHOTO-PIECE

As olheiras perversas glosam
a banal liturgia do andrógino:
a camisa desabotoada no peito, o jeito felino da cabeça.
Tudo isto outrora foi escrito em nome de
uma sabedoria qualquer,
do espelho votivo a que celebramos,
da ânsia carnal de estar entre a tribo.
Tudo hoje se consome no desalento da pose,
sob a voz impudica da sibila,
na estúrdia que nos absolve do caos.


António Ferreira, in “O Comboio de Lúcifer”, página 16, edições Assírio & Alvim, Setembro de 1997.

domingo, 14 de maio de 2017

Ler-te avidamente


Foto: © André Brito



Folheei as páginas
das tuas memórias
renascidas
com o ímpeto
de quem desflora
a vulva pela vez certeira
e de forma intensa.

Folheei as sentidas palavras 
escondidas
que me paralisaram o olhar
imprimindo ávido fulgor
na ansiedade
da concretização
da mais prazerosa leitura.


António MR Martins

Festival da Eurovisão da Canção 2017 (Eurovision Song Contest 2017) - Final (Grand Final) - Ao vivo (Live). Portugal, país vencedor com a canção "Amar pelos dois", interpretada por Salvador Sobral. Letra e música de Luísa Sobral, irmã do intérprete.


Kiev (Ucrânia)

Sábado, 13 de Maio de 2017


terça-feira, 9 de maio de 2017

Manuel Resende




Manuel Resende. Imagem da net.



MORRER NÃO CUSTA 
3.

Na areia suguei o sumo de frutos ausentes,
Fazendo da minha boca a sua própria taça.
Na água bebi o ar que não havia.

Uma anca de areia
Sem braços, nem pernas, nem púbis,
Nem frescas axilas, nem cabelos, nem sequer pele,
Mas apenas o tacto disso.
Última fronteira! Depois de ter andado aos círculos
Numa guerra de mil anos contra um povo vencido,
Mas eternamente cercado,
O invasor entrava pelas casas adentro.

Última fronteira: a mais íntima porta dos sentidos.


Manuel Resende, in “Natureza Morta com Desodorizante”, página 55, edições Gota de Água e Imprensa Nacional - Casa da Moeda, Maio 1983.

segunda-feira, 8 de maio de 2017

Salpicando amor


Jardim One Oasis, em Coloane. Foto de António Martins.



Parti ao encontro de ti
pelas tranças da estrada
e nesse apuro te vi
correr por tudo e nada.

Saudei tua pele morena
e o teu sorriso sem fim;
perdi-te, e tive pena
de não esperares por mim.

Foste partindo no tempo
que guardarei na memória,
fiquei com esse lamento
retido nesta estória.

Teu nome nunca entendi
por isso jamais te chamei,
somente recordo ali
as flores que por lá deixei.

Há uma luz bem desperta
na origem do que falo,
colhi-te à descoberta
e num poema t’embalo.

A vida tem este cismar
entre paixão e amor,
antes de tudo esfumar
te canto com muito rigor.


António MR Martins

quinta-feira, 4 de maio de 2017

Gonçalo Lobo Pinheiro


Gonçalo Lobo Pinheiro. Foto de António Martins.



Se a saudade falasse

Se a saudade falasse
E tu, como as águas de um rio,
Seria eu a tua represa
Para te reter em mim e me banhar.
Seria leito, seria caminho
Para te levar, para te acompanhar
Seria ar, seria fogo
Oxigénio puro, luz, calor.

Se a saudade falasse
Seria discurso, seria voz
Para a escrita te oferecer
Num simples e terno poema.
Seria essência, seria razão
Pensamento sim, porque não?
Eloquência, primazia
A tua cor, o teu sabor, com certeza… seria.

Se a saudade falasse
Serias sempre tu
Ocupante do meu sentimento,
Nas horas de longe e de lamento
Porque te amo com tudo o que posso
E serei sempre, a todo o tempo,
Os passos firmes de alguém,
Envolto em ti, seriamente, mais ninguém.


Gonçalo Lobo Pinheiro, in “Sofá das Ilusões”, página 51, edições Temas Originais, 2011.

Inseguras opções


Imagem da net.



Passo torpe, desconexo, sem firmeza,
raiz do medo, rastreio dum sonho
misturado, contínua incerteza
que implora um derramar tristonho.

Passo estreito, imperfeito, mas lesto,
pedaço desfigurado, oblíquo,
denodo incompreendido, o resto,
batalhado caminhar improfícuo.

Passo resistente, foto descartada,
inconveniência calafetada
que silencia qualquer circunstância.

Passo varrido num trémulo discernir,
insustentável feito por conseguir,
que nos perturba a cada instância.


António MR Martins

terça-feira, 2 de maio de 2017

Rui Rocha


Rui Rocha. Imagem da net.



[na cama da noite procuro]

na cama da noite procuro
a tua voz um rasto do teu corpo
um cheiro doce e leve a adormecer
no sono mais próximo do meu

assento o meu queixo desperto
na primeira estrela da noite
e conto as ideias acordadas
que encontro nos teus olhos 

do outro lado da noite
há um prodígio quente do tempo
na sombra dos teus lábios
que espera a claridade dos dias


Rui Rocha, in “Taotologias”, página 43, colecção contramaré / 11, edições Editora Labirinto, Dezembro de 2016.

segunda-feira, 1 de maio de 2017

O olhar da despedida


Imagem da net.



Sinto o adeus no teu olhar,
restante página da vida
que tanto teria para contar.

Sinto a pressão dos teus olhos,
penumbra retida num pranto
moldada por mais de mil folhos.

Tens um vínculo metafórico,
enleio duma tez mais exposta
em baladas de imprecisão.

Vês a esmola não colhida
em substância dissolvente,
ansiando pela partida.

Sinto-te no enlevo do verbo,
aguardando nova gestação
em profícua continuação.

Tanto terias para contar
neste adeus da tua vida,
pressinto isso no teu olhar.


António MR Martins

sábado, 29 de abril de 2017

Carlos Morais José


Carlos Morais José, foto de Gonçalo Lobo Pinheiro.



Reservatório

Lá por ter acreditado num espelho onde
tudo se reflectiria, não teria forçosamente de o encontrar.
O vasto céu acaricia a água e o vento estremece-a de
prazer. Não há mais nada, mais nada interessa: só há 
vento, só há céu. E tudo isto na água.


Carlos Morais José, in “MACAU - O Livro dos Nomes”, edições COD, Macau, 2010.


Reservatório de Macau, foto de António Martins.

quinta-feira, 27 de abril de 2017

no findar de uma caminhada


Borboletas pretas, imagem da net.



no parapeito,
onde adormecem as saudades
das remotas horas da infância,
há uma janela semi fechada
entre as madeiras,
que quase a encerram.

daquela trémula imagem
se esconde um mortiço olhar,
resultante duma idade dos tempos,
na penumbra do interior
perante um genuíno silêncio.

de vez em quando
uma convulsiva tosse,
de voz grave e rouca,
perturba todos os sons inaudíveis.

e o quase vazio da vida,
ganho pelo passar dos anos,
naquele último espaço
de uma caminhada existencial
afugenta o pousar das borboletas.

será na residência final
que a flor última
desencadeará o retorno
de todas as mariposas. 


António MR Martins

terça-feira, 25 de abril de 2017

Abraão Vicente


Abraão Vicente. Imagem da net.



versos impunes

Já não há contos
de embalar ou
fadas madrinhas
com quem possas
selar alianças e inventar
asas de licórnios
voadores onde
te possas esconder
da vida, do pesar
e das pérolas
ensanguentadas
que o amor
te reserva.

Poe-te a contar
com minúcia e fervor
os dias de alegria
e a incoerência que
ainda te restam, 
nobre criança.

Vem até mim, vem
quero-te embalar
na melodia do antes
do fim.

Andatas, valsas e 
mariachis loucos…

Onde estavam os corpos?
Em que areia movediça,
em que praia as
donzelas trincaram
laranjas ácidas de 
um pomar inaudito?

Sabre, safira,
pedra ume.
Que canção
saberá cantar
o Príncipe
perante o abismo
do teu sexo
descoberto?

Mar, rosas, espinhos
clichés fatais e a
morte da inocência
três tristes tigresas
Simone, Akhmátova
e Florbela
de mãos entrelaçadas
na espuma do vento
que as desfolhou
em versos impunes
pela morte.


Abraão Vicente, in “amor 100 medo, cartas improváveis & outras letras”, páginas 32 e 33, edição do Autor, Dezembro de 2014.

sexta-feira, 21 de abril de 2017

desenho sem planos


Imagem da net.



vejo-te em linhas concretas,
desenhada,
ante as tangentes fugidias das margens
duma sóbria folha de papel cavalinho,
com tuas vestes soltas,
tombando aqui e acolá,
que te desnudam
numa toada simples
e subtilmente frágil.

te vendo assim
apelei ao som das árvores,
que vinham surgindo
num dos topos da folha,
e ao olhar vigilante do rio,
que acabara de galgar
uma das simuladas margens,
por onde acabarias 
de fazer flutuar teu corpo.

a imagem dessa ficção,
visionada em desenho,
completou-se
com o inédito
da tua sublime presença física.

António MR Martins

Escrito em Hoi An, Vietname (Hotel Maison Vy), 15 de Abril de 2017

quinta-feira, 20 de abril de 2017

Sérgio Godinho


Sérgio Godinho. Imagem da net.



De fora para dentro dos olhos

De fora para dentro dos olhos
baixam os fantasmas
trazem sempre roupa nova
nunca a dor foi a mesma em pessoa nenhuma:
se morrermos sozinhos das dores colectivas
é o que diz o cantor
ninguém vem levantar-nos do chão.

A rampa enfeita a porta da garagem.
Paredes-meias com o passado
quem controla o sossego dos fantasmas?
Desfazem-se pelo pouco que há de pó
gastamo-nos na luta.

Quando se dá por ela é meia-noite
de dentro para fora dos olhos
grande saudade
é fogo eterno. 


Sérgio Godinho, in “O Sangue por Um Fio” (poemas), página 79, edições Assírio & Alvim, 2009.

sexta-feira, 7 de abril de 2017

No fascínio do ser


"Freedom", por José Cavaco, in http://olhares.sapo.pt/freedom-foto8623135.html


Palpei tua mão
que repousando em teu corpo,
de delicadas matizes,
se afigurava à minha mercê
ante a matriz do esplendor,
arredia e insegura,
ou, talvez, adormecida.

Sorriste num sono,
que se estendia na quietude
inquieta
das marés infindas,
pelo desvario dos sonhos 
incautos,
que sempre despertam clamores.

Desci ao templo
da misericórdia do corpo
e da hecatombe da mente, 
por onde despertaram
todos os sentires,
num tortuoso sacrifício 
do teu acordar.

Depois, num ritmo alucinante,
o apogeu 
de todas as sensações
e de todos os prazeres humanos,
até ao epílogo final,
que selámos com um beijo.


António MR Martins