terça-feira, 5 de novembro de 2019

“Marin Alsicó”


"Marin Alsicó" (Sérgio Manuel Fernandes Nunes),
imagem da net.





VIAJANDO COM FANTASMAS

Estou parado na paragem
Olhando o mundo em burburinho
Tudo não passa de miragem
Cada ser caminha sozinho.

O Homem caminha sozinho
Cego na sua viagem
Nem aprecia o caminho
Esbroando-se na sua voragem.

É um silêncio ensurdecedor
No barulho desta viagem
Não há remédio p’ra dor
Falta uma brisa de coragem.

Vou olhando tristemente
A procissão de mortos-vivos
Também eu me sinto demente
Revoltai-vos seres cativos!

“Marin Alsicó” (Sérgio Manuel Fernandes Nunes), in “Justa Mente e Sal e Picos”, página 97, edições “O Declamador”, 2018.

domingo, 3 de novembro de 2019

Supremo êxtase


Imagem da net.




Ardem as mechas do prazer
pelo sopro do vento falante,
guindado aos pontos fulcrais.

No ruído se acrescentam
os gemidos de circunstância
pelo arrepio da pele,
no sentido da virilidade presente.

No aprumo da consistência
se tornam arredios os males
ante o superior sentir dos seres
e a ousadia de toda a naturalidade.

O atear é concludente
e ao rubro se manifesta
com toda a sua pujança,
até ao dilatar de todos os poros.

Depois
resta a suprema sedução
e o êxtase complementar dos corpos.


António MR Martins

sexta-feira, 1 de novembro de 2019

Luís Filipe Sarmento


Luís Filipe Sarmento. Foto de José Poiares photography



5.

“Sete mulheres de noite”

Cabelo-plumagem ao olhar inesperado reflectido no espelho-universo:
o sereno movimento do torso, a fotografia-memória, registo
de desejo: há um corpo-residência no palácio-sombra, a nudez
soberana no achamento de um território de ninguém. Vibro.
Transfiguração do inesperado, metamorfose da hora
num sereno adiamento da luz. Pretexto do acaso,
movimento imperceptível: sugestão entre a boca semiaberta
de silêncio, acidente e abstracção, novo como descoberta,
o corpo que me absorve, a gruta do teu nome, a embriaguez
das águas que em ti residem, o banho que ilumina a eternidade.

Luís Filipe Sarmento, in “Repetição da Diferença – Casa dos Mundos Irrepetíveis”, página 63, poética edições, Outubro de 2016.   

quinta-feira, 17 de outubro de 2019

Desencontros nas veredas


Imagem da net.




Já não se assume a mágoa
ou qualquer sentir profundo
onde emergem os sentimentos.
Esta turbulência abala as normas,
mesmo as mais poderosas
sem permitir indecisões.

Tudo se encontra feito
pela desdita comprometida
com a bala da frustração.
Os tópicos se omitiram,
os versos ficaram contidos
e a palavra já não seduz.

Este chão do desconforto
não desanuvia o clamor,
que urge então gritar!
Mas o grito não é uníssono
remetendo-se ao silêncio
sem ninguém o escutar.

As bandeiras já não desfraldam,
os hinos não são tocados
e as vozes reduzem-se à mudez.
Uma hecatombe acontece
na encruzilhada dos caminhos
onde explode a manifestação.

António MR Martins

terça-feira, 15 de outubro de 2019

Pelo breve estreito da amizade



Imagem da net.





Significados bem diferentes
se obtêm neste caminho,
entre as marés da consciência.
Atingem-se registos maiores
e, geralmente, são aprovados
sem anseios contaminantes.

Outros valores aqui se invocam
nas perspicácias da resolução
alheios a colheitas medíocres,
sem palpites da sujeição,
por onde passam sentires poluídos
mas sem efeito valorativo.

É o emergir das sãs virtudes,
embora possam ser ténues e frágeis,
mas de incalculável valor humano
fluindo um estado diferente
e um sentir bem sorridente,
com espasmos de felicidade.

Haverão abraços pelo meio
e sorrisos mais amplos e abertos
neste alinhar tão sentimental.

Mas num qualquer tempo,
afinal,
tudo voltará ao princípio
e ao mesmo vil ritual.


António MR Martins

sexta-feira, 11 de outubro de 2019

Lília Tavares


Lília Tavares, imagem da net.






Guardadora de ventos

Cheguei a casa quando anoitecia.
Ainda quente, o vento empurrava-me o vestido.
Por um instante senti-me ave
levada por brisas, plumas e enigmas.
A aragem entontecia-me de prazer.
Queria ficar nos braços daquele vento.
Imaginei que o anoitecer me pertencia.
De pé, senti o teu corpo.
O meu, aberto e solto, deixou-se ir.
Sou apenas uma guardadora de ventos.

Lília Tavares, in “ Nomes da Noite”, página 50, Colecção A Água e a Sede, II Volume, edições Modocromia, Janeiro, 2019.  

terça-feira, 8 de outubro de 2019

Renascer na simplicidade de viver


Capa  do livro "Juízos na noite",
Colecção Entre versos, coordenada por Maria Antonieta Oliveira,
uma publicação In-Finita.





Há uma frieza
espontânea,
que antecede
a estática conformação,
num apelo indelével
no começo de cada verso.

Estreita
o muro que nos separa,
na nossa fragilidade
do ser.

Não mais seremos como fomos,
e o futuro
será a surpresa
de cada amanhecer.


António MR Martins
(in “Juízos na noite”, página 16, edição In-Finita, Setembro 2019)

Alberto Cuddel


Alberto Cuddel, imagem da net.





Ilusão?

Reconheço-me estupefacto
Nas águas que me escorrem pelas mãos,
Lágrimas vertidas, areias soltas nos pés,
Neblinas de ideias de homens pequenos,
E madrugadas nascidas do ventre das mães,
Escorro-me onde o vento desfaz as tempestades
Na calma dos corpos… tão belos.

Vejo os horizontes, e os desertos
O voo libertino das aves, asas aladas,
Na palma das minhas mãos escorrem sonhos
Que morrem na rebentação das marés
Por entre luares de Abril, onde navega o coração
Na paisagem gretada pelo sol dos que vivem.
Forço-me navegante no azul do teu olhar
Onde me perco na esperança de me encontrar
O meu corpo sangra, inunda os campos

Desvirginando a terra e as ilusões!


Alberto Cuddel, in “ O silêncio que a noite traz”, página 49, Orquídea Edições, 2018.

sábado, 5 de outubro de 2019

José Tolentino Mendonça


José Tolentino Mendonça, imagem da net.



A casa onde às vezes regresso

A casa onde às vezes regresso é tão distante
da que deixei pela manhã
no mundo
a água tomou o lugar de tudo
reúno baldes,estes vasos guardados
mas chove sem parar há muitos anos

Durmo no mar, durmo ao lado de meu pai
uma viagem se deu
entre as mãos e o furor
uma viagem se deu: a noite abate-se fechada
sobre o corpo

Tivesse ainda tempo e entregava-te
o coração

José Tolentino Mendonça, in "A noite abre meus olhos”, edições Assírio & Alvim.

sexta-feira, 4 de outubro de 2019

João Paulo Esteves da Silva


João Paulo Esteves da Silva, imagem da net.





9

Estou vazio, nada a fazer, resta-me só ficar calado no canto
Rezar que algo venha em visita com o descanso de coisas rápidas

Vou lento contra as superfícies mais baças, chego atrasado, sem ritmo
Vivo na fracção de segundo depois de cada momento

Dou imensos erros de ortografia, os dedos não acertam nas letras
Havia uma criança que se queria matar e não sabia

Acelerava pela encosta abaixo até perder a pedalada e tudo se apagar
Vou contra o escuro que se fez nos olhos dela

Vê se me ligas à corrente, que possa acordar longe do bloco de trevas
Separo o espaço em duas metades, há uma prateleira branca

As cores passam por cima e por baixo, eléctricos, comboios
Está muito escuro dentro do meio, o branco apaga-se por dentro

Saio, atravesso as ruas, ainda vazio, chove dentro dos bolsos
Com a noite, com o acender das luzes, quebra-se um pouco a vontade

De animal encurralado a empurrar a criança encosta abaixo
Formam-se poças extensas na calçada, fico a olhar os brilhos

Sinto afinar-se a linha divisória, afasta-se, apresso o passo, quase acerto
No que se vai dando, o chão sujo e molhado aparece-me belo

Sigo o inverno, a primavera fica bem na fotografia das férias
Acordar vivo no quarto dos avós no dia mais luminoso da memória

Sem medo de molhar os pés, sinto a areia a cair do alto
Pela espinha abaixo, vou-me sentar na beira do passeio e agradecer


João Paulo Esteves da Silva, in “ Vertem-se Bíblias em Quimbundo”, s/n.º de página, edições Miasoave, 2017.

terça-feira, 17 de setembro de 2019

Lançamento do meu livro "Juízos na noite", VII volume da colecção Entre Versos, coordenada por Maria Antonieta Oliveira e produzida por In-Finita






É no próximo dia 29 de Setembro que terá lugar o lançamento do meu novo livro "Juízos na noite", inserido na colecção Entre Versos, produzida pela In-Finita, sendo o seu VII e último volume, com a coordenação de Maria Antonieta Oliveira.

Tal evento ocorrerá a partir das 15 horas, no Palácio Baldaya, na Estrada de Benfica, 701 A, em Lisboa.

Apresentação de autor e obra por Alvaro Giesta.

Momentos musicais por Paulo Sanches, que interpretará temas de Zeca Afonso.

Agradeço a presença de todos os que possam e que, esses mesmos, levem consigo mais amigos.

Muito obrigado!

Um abraço de amizade e as sempre sugestivas saudações poéticas. 

Um homem bom


Imagem da net.




Era um homem
de sorriso fácil e olhar meigo
que facilmente distribuía abraços.
Proferia palavras simples
modeladas pelos retoques da vida
que duramente lhe moldou os sentidos.

Era um homem cumpridor
da rude caminhada humana
e perante o desterro social
que lhe foi concedido
simplesmente sorria.

Trazia a humanidade em seus dedos
e nas mãos o rigor do trabalho.
Dos seus lábios se soltavam
palavras mudas
e a prestabilidade sem reticências
emergia-lhe com a sua força de vontade.

Era um homem
que ajudava o seu semelhante
sem quaisquer contrapartidas.
E dos momentos mais tenebrosos
filtrava o condimento
da sua eterna esperança.

O homem por fim morreu
e da sua partida ninguém falou.
Não tinha descendentes
e os antecedentes há muito haviam partido.   

No cemitério uma lápide
“Aqui jaz um homem bom.
Paz à sua alma!”

António MR Martins

segunda-feira, 9 de setembro de 2019

A consistência do teu perfil


Imagem da net.




A leste do teu perfil,
tal como a oeste,
o horizonte parece desfalecer
turvando-se nas suas imagens.

A tua nitidez é sublime
e nem o rasante voo
duma fugidia ave
faz estremecer tal consistência.

É hirta e imóvel
essa pose arrasadora
quiçá com os pés colados
a esse chão
que seguramente te acolhe.

Assim consolidas tua razão
e afastas todas as dúbias
alusões a ti dirigidas
que não te desnudam o âmago
e esclarecem
amplamente
o poderio da tua verticalidade.

António MR Martins

sexta-feira, 6 de setembro de 2019

Domingos da Mota


Domingos da Mota, imagem da net.





PRENÚNCIO

Mal vejo a cor das palavras líquidas,
a não ser das que têm sangue e fel;
o tom das que vejo é terroso e seco
como as fragas cobertas pelo musgo

que acentua a ferrugem salgada
dos seus veios; realço a cor
das palavras sólidas,
erectas como esteios;

o tom bruscamente encanecido,
como se fosse o prenúncio de um
nevão, é dum quadro gélido, vivido,
e não há como dar-lhe outra demão.

Domingos da Mota, in “Pequeno Tratado das Sombras”, página 46, edições Busílis, Dezembro 2018.

terça-feira, 3 de setembro de 2019

Momento breve


Capa de Sob Epígrafe
Tributo a Sophia de Mello Breyner Andresen
(no ano em que se assinalam os 100 anos sobre o seu nascimento)
Temas Originais, 2019






“Quero
Nos teus quartos forrados de luar
Onde nenhum dos meus gestos faz barulho…”
Sophia de Mello Breyner Andresen


Momento breve


Na noite que baixa
lentamente
descubro a ansiedade da palavra
a busca intensa do verbo
pelo silêncio da madrugada.

Tanto te quero
num corrupio de vibrações
emolduradas pelo gesto do medo
que me encobre a nostalgia.

Não
não vou deixar de dizer
que te amo
e que a tua ausência
é o limite da resistência
que assumo.

Vem
abraça-me fortemente
de forma derradeira
juntos gritaremos livres
sem contemplações.


António MR Martins, in “Sob Epígrafe – Tributo a Sophia de Mello Breyner Andresen”, pelos 100 anos do seu nascimento, Obra Colectiva, edições Temas Originais, Coimbra, 2019.