Weydson Barros Leal, imagem da net.
NOITES DE IPANEMA
Da janela vejo o Cristo Redentor.
Seu perfil totêmico – a cabeça levemente
inclinada sobre o peito – em nada faz lembrar
a forma em cruz de quando visto de frente.
Este ângulo dissolve-lhe os braços,
e com a mão direita
a estátua aponta para mim.
A cidade segue
sob seu olhar pétreo e impassível,
como deve ser o olhar de um deus.
Abaixo da corcova em que flutua,
marcham os homens uma estranha
procissão, e tudo gira ao redor desse andor.
Ela não mais saberá se as tardes daqui anunciam mudanças.
O silêncio confunde a memória, apaga seus rios e
escreve nas pedras uma nova maneira de secar.
Sobre seu nome restará um alfabeto
que já não terá descendentes.
O tempo mistura cores e formas
na tentativa de perdurar paisagens, mas em vão.
Em breve a noite virá e a estrela de hoje
morreu há um milhão de anos.
Passam as horas e não chegará uma palavra sua.
O seu silêncio é sua sirene,
sua emergência,
seu escudo de luzes.
Pela janela chega a certeza de que
a estrela de ontem não retornou esta noite.
Outra falta ilumina a sua ausência.
Weydson Barros Leal, in “A Quarta Cruz”, páginas 30 e 31, edições Topbooks, 2009.
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