domingo, 15 de fevereiro de 2015

O mais belo poema


Imagem da net, em: www.imagensgratis.com.br



Quando te li,
a primeira vez,
foi em verso.

Percorri teu corpo
com o sentido olhar da palavra
e com ela saboreei
os mais apaladados pretextos.

Carente do desejo de ler-te,
em definitivo,
te vislumbrei, interiorizando-te,
da cabeça aos pés.

Depois…
te beijei,
intensamente,
tocando quase todos os teus caminhos.

Então,
te senti,
finalmente,
poema!...

António MR Martins

quinta-feira, 12 de fevereiro de 2015

António Gedeão






Impressão digital

Os meus olhos são uns olhos,
E é com esses olhos uns
que eu vejo no mundo escolhos
onde outros, com outros olhos,
não vêem escolhos nenhuns

Quem diz escolhos diz flores.
De tudo o mesmo se diz.
Onde uns vêem luto e dores
uns outros descobrem cores
do mais formoso matiz.

Nas ruas ou nas estradas
onde passa tanta gente,
uns vêem pedras pisadas,
mas outros, gnomos e fadas
num halo resplandecente.

Inútil seguir vizinhos,
querer ser depois ou ser antes.
Cada um é seus caminhos.
Onde Sancho vê moínhos
D. Quixote vê gigantes.

Vê moínhos? São moínhos.
Vê gigantes? São gigantes.

António Gedeão (1906-1997), in “Poemas escolhidos” (antologia organizada pelo autor), páginas 9 e 10, edições João Sá da Costa, Ld.ª (1996), na 8ª. Edição, Lisboa, Março de 2002.

sexta-feira, 6 de fevereiro de 2015

Conceição Bernardino, em 3 versões





Hei-de arrancar as palavras com os dentes

Hei-de arrancar as palavras com os dentes
espremê-las, uma a uma com a saliva que me
resta
hei-de suportá-las mesmo que me cortem a língua
e a sirvam aos cães pródigos da benevolência, a
ira

Saberei à mesma escrevê-las
nas flores de Maio, em pleno inverno,
antes do romper da frígida madrugada
em punhos feitos de mármore escarlate

Hei-de desenhar nos escarros desta liberdade
os nomes a carvão, onde Auschwitz calou os seus

Hei-de levantar a voz, engolir a palavra em seco
e vomitá-la onde a surdez cala, corrupta

Conceição Bernardino

 
Onde as minhas mãos se arrastam

A noite cerca-nos, devora-nos,
Sem que saibamos o nome um do outro.
Procuro o rosto com os dedos,
Como o pólen que respiro da tua boca.

Já não sei ouvir o mar sem encostar
O ouvido ao teu peito,
Nem olhar o céu sem que me emprestes
Os teus olhos dormentes.

Resta-me o sujo dos lençóis
Onde as minhas mãos se arrastam
Dentro desta loucura precoce.

Carlos Val

 
Onde a luz e as sombras se encontram

Tropecei nos silêncios de pedras calcinadas
defronte a uma esquina de vidro, ao longe a
coluna dorsal do mar dobrava-se em delicadas
vértebras, lambendo as sequelas enraizadas de
salitre na “Vesperata” onde a luz e as sombras se
encontram.
Quis sentir-lhes o sabor…saboreei o primeiro trago
na inocência – a ilusão – o segundo o despotismo
enfadava a razão, o terceiro trago servia para
sustentar qualquer condição.
A vida é tão estúpida que estupidez alguma a
reconhece quando no lamaçal a morte se finge
acordada.

Mathilde Gonzalez  

In “identidades”, página 10 (Conceição Bernardino), página 75 (Carlos Val) e página 115 (Mathilde Gonzalez), edições Lavra… boletim de poesia, Vila Nova de Gaia, 2013.

Mil vozes





soam nas esquinas dos prédios
pelas rachas de suas paredes
que se perdem no tempo

e entre as portas de todas as saídas

ecoam nos penhascos do mundo
e nos vales das terras prometidas
no mais longínquo horizonte
invadindo os tempos de tanta espera
num constante ruído
prenhe de tamanha surdez

as vozes extravasam
os espaços demarcados
numa sonoridade
que potencia denegridos enredos
com a faculdade
de nos atormentar o íntimo
ante tanto desesperante silêncio

António MR Martins

segunda-feira, 2 de fevereiro de 2015

Edgardo Xavier





Mundo

Retiro dos teus olhos
o mundo que me cabe
e vivo-o para
no meu corpo
ser um pedaço de ti.

Em nós se iguala a sede
e se extremam as vontades.

Possuis-me sempre que te entregas
e eu sou em ti
a força da maré.

Edgardo Xavier,  in “Azul como o silêncio”, página 12, Chiado Editora, Maio de 2014.

nuances de sedução


Imagem da net, em: femininoparalelo.zip.net


neste nascente
neste entardecer
nesta foz

há um sentido comum
que emerge
entre cada pétala moldada
à flor do teu encanto

uma fragrância única
solidez substancial
descompondo-se suavemente
ao respirar apaladado
de cada novo dia

há um punhado de sabores de ti
que esvoaça sua limpidez
no íntimo do meu ser

António MR Martins

sexta-feira, 30 de janeiro de 2015

Lugares e Palavras de Lisboa, Lugar da Palavra Editora

 
Fui seleccionado para fazer parte desta obra literária
- Janeiro de 2015 -
 

quarta-feira, 28 de janeiro de 2015

Paulo Afonso Ramos






8.

as tuas mãos são a
minha casa – aconchegam-me
adormecem-me – e
acordam-me ao
amanhecer

25.

quis escrever um
poema e sorri – o sorriso
foi escrito – poesia,
agora sei, é sorrir aos
teus olhos

41.

os silêncios da casa são
alicerces do amor e é
entre todos os silêncios
que o teu corpo se
move

Paulo Afonso Ramos, in “levaste-me os silêncios”, página 18, poema 8., página 35, poema 25. e página 51, poema 41., edições Lua de Marfim, Dezembro de 2014. 

Mudemos as voltas ao Mundo


Imagem da net, em: www.youlinked.com



Abrem-se grandes crateras em meu peito
intensas feridas sem sangue a correr;
são dores enormes às quais me sujeito
por tanto suprir que nos tolda o viver.

Cada dia nascente traz mais um aumento
uma nova taxa ou um acesso vedado,
imposto qualquer numa lágrima-lamento
e uma Saúde omissa de tanto cuidado.

São escolas públicas com salas desertas
hospitais similares sem dosagens certas
e outro banqueiro com riqueza no mundo.

Milhares sem-abrigo nas ruas a dormir
milhões de crianças na Terra a partir
e o silêncio é cada vez mais profundo!...

António MR Martins

terça-feira, 27 de janeiro de 2015

Fernanda Esteves





À VIDA!

A vida não se esgota,
Não se esvai,
Renova-se!
É metaforicamente,
como casca de cebola,
Atrás duma vem a outra
E faz chorar os desprevenidos
Mas limpa a alma
E na última camada
És tu e os cosmos
Num brinde
À paz e à serenidade!

Fernanda Esteves, in “ No Pendor dos Tempos”, página 98, edições Temas Originais, 2014.

Esta obra, um romance deste e do “outro mundo”, também engloba poesia. No seu conteúdo tem alguns poemas, de enorme qualidade, deste e do outro mundo, também.

me quedo neste sentir


Ericeira, 2007, por António MR Martins



restam as diferenças entre trigo e joio
numa simbiose versus tudo ou nada;
sagaz metamorfose que precisa de apoio
num alinhamento de prova superada.

ambivalência restrita de qualquer modo
na procura dos sentidos desconhecidos;
fascínio pelos vinhedos onde não podo
logro persistente dos mais apetecidos.

paladar sem proveito da triste saudade
papel personalizado pela verdade
onde as colheitas enfermam de tanta dor.

em rastreio consentido pelo verbo amar
bonança saliente propícia a festejar
fecundo culminar onde resiste o amor.

António MR Martins

domingo, 25 de janeiro de 2015

Fátima Guimarães





Íntimo

Trago nas pálpebras cansadas
o peso de todas as demoras

na pele ressequida pelo sol
trago a sede de teu indomável rio

nos lábios orvalhados
trago ainda o perfume do teu corpo
e nos olhos todos os sonhos e desejos

trago o mar nas mãos
e as dunas por entre os dedos

Fátima Guimarães, in “a voz do nó”, página 34, edição de autor, Novembro de 2014.

P. S. – Este livro de poesia é simplesmente… MARAVILHOSO !!!

A talentosa árvore de fruto





Cresce
na imensidão do seu rigor
nascem-lhe folhas
da cor que lhe compete
e assim se harmoniza
na sua ênfase sedutora.

Mais tarde
da flor ao fruto
a transformação multiplicada.

Abastece-se o seu conteúdo
dando-lhe uma forte composição
bela e inigualável.

Por fim
de tanto carinho transmitido
quase a perfeição da recolha.

Da boa árvore
os bons frutos.

 António MR Martins

quinta-feira, 22 de janeiro de 2015

Maria Otília Henriques





ABRO A PORTA

Presa na mente
abro a porta
ao vento
para libertar
os grilhões…

Liberto a minha causa
construo o meu poema
Nada quero
que me prenda
vou acordar a aurora…
Nova vida
pensamento positivo
razão e motivo…

Sempre a caminho
em madrugadas de lírios
o Sol nasce risonho
desço o rio feliz
sendo do Amor aprendiz

Em cada dia
ouço bela melodia
cai uma folha
nasce uma flor
sorrio à Lua
sonho estrelas
acendo velas
pinto telas
e como são belas!

Maria Otília Henriques, in “ Esta terra que sou eu”, página 17, edições Temas Originais, 2014.    

A palavra nunca dita





Sei da inteira palavra por dizer
que esperneia debaixo da língua,
espevitada por querer aparecer
depois de imenso tempo à míngua.

Nesse salientar indesmentido
se apetrechou de larga memória,
na origem dum tempo omitido
por tanta palavra sem ter história.

Arreganho pontificado de rigor
elogio ou quimera de simples louvor
definição sem ter entendimento.

Rio corrente ou raiz flutuante
vai progredindo ante olhar fixante
virtude que não conhece sustento.

António MR Martins