sexta-feira, 6 de agosto de 2021

Sentir intermédio

 

Imagem na net.


Soam baladas sentidas
noutros tempos cantadas
pelas míticas vozes da razão
por entre as frestas das janelas
adormecidas.
 
Brilham num ecoar taciturno
que despoleta a conjugação
do predicado de um verbo
indizível.
 
Logo surge o destempero
dos versos configurados
no cerne de cada garganta
que colide com o anseio das aves.
 
Num inequívoco ápice
o desespero lhes tolhe os movimentos
e passam a voar baixinho!...
 
António MR Martins

quarta-feira, 28 de julho de 2021

José Luís Outono

 

Capa do livro "Enredos & Outros Mares",
de José Luís Outono


RASGOS
 
espelhos provocantes
rodopiam em surdinas sem avisos
sempre em reflexos de novidades inéditas.
 
os mares multiplicam-se em questões de marés
provocantes
e o velho horizonte é uma caligrafia desordeira
onde cada rasgo de tinta azul
golpeia o impensável
e os ombros cansam-se do constante adorno
e hesitante emenda.
 
ouço um grito – agora ou nunca.
 
e a agulha do gira-discos rasga mais uma estria
da filosofia da conveniência – talvez amanhã ou depois.
 
até os sinos precisam de maestros coerentes
não vá a pauta corromper-se
e as claves adormecerem em rasgos hesitantes.
      
José Luís Outono, in “Enredos & Outro Mares”, página 20, colecção 100Prosa, edições 100 Títulos (uma chancela da editora Edições Esgotadas), 2021.


sexta-feira, 23 de julho de 2021

Emergentes envolvências

 

Imagem na net.


Os sons colhidos na noite
enformam o sentido às coisas
onde habitam
todos os pressupostos da vida.
 
Surgem rasgos proeminentes
que fazem salientar
as inerentes relevâncias.
 
É na chegada das noites
que os hálitos se confundem
num beijo pela desejada sedução
preâmbulo de todos os sentires.
 
Assim se apoiam os condimentos
irracionais
expostos em desalinho pelo prazer
sem qualquer esquema preparado
ou alguma vez equacionado.
 
Das nossas mãos vazias
surge a dádiva suprema
de tudo aquilo que somos capazes.
 
Um turbilhão de pensamentos
impensados
envolve a tensão palpitante
daquele empolgante desbravar.
 
Vejo então
no brilho dos teus olhos
o desabrochar de um verso
com o verbo amar sempre presente.
 
 
António MR Martins

quinta-feira, 15 de julho de 2021

São Silveirinha

Capa do livro "Outras liberdades", de São Silveirinha.

 


ENLEIOS DE AMOR
 
Quero gravar-te
nas pedras da calçada.
Beber em ti
a candura da madrugada.
 
Lançar ao alto
o pólen que é teu.
Acender-te no luar
e iluminar o intenso breu.
 
Quero ser jorro de ti.
Verter-me na breve mirada…
 
De braços esticados,
receber-te lentamente
na voz do povo, da minha gente!
 
Calcorrear contigo esta estrada,
construída de alegres alvoradas.
 
Ah! Que o tempo mergulhe
no rio da saudade
(último reduto dos apaixonados)
e te permita fluir em liberdade!
 
São Silveirinha, in “Outras liberdades”, página 66, edição de Autor, 2019.    

quinta-feira, 8 de julho de 2021

Fecunda encruzilhada

Imagem na net.

 

Foi na noite dos sonhos perdidos
que se moldaram os ávidos corpos
no mais perfeito imaginário
sob a visão soberba
da rara luz plena de graciosidade
 
resplandeceram sorrisos
e o aconchego da pele
sediou-se em propósito sedutor
ante os ténues arfares
sentidos mutuamente
no recôndito silêncio das conchas
 
os cabelos rolaram sobre as faces opostas
e as bocas tocaram-se levemente
surgindo as primeira gotículas
de um esperado transpirar
 
as mãos movimentaram-se
pelas curvas expostas nos lençóis
de todas as memórias
e as novas conquistas almejaram
mais episódios
para aquela sortuda contextualização
 
surge o desarme de todas as fronteiras
e o mastro harmonioso assume
as reentrâncias do túnel de todo o prazer
 
há uma luz intensa e profunda
que sublima gradualmente
aqueles inolvidáveis momentos.
 
 
António MR Martins

domingo, 27 de junho de 2021

Lurdes Rebelo

 

Capa do livro "Rasgos de Saudade", de Lurdes Rebelo


[Na lassidão das noites de insónia]
 
Na lassidão das noites de insónia
No desalinho das horas lentas
As lembranças falam-me de ti
 
Ardes-me no abraço e no beijo
Amo-te baixinho dentro do silêncio
Ante a luz fria da noite
 
Adormeço,
no desassossego da alma
E a saudade continua
A permear os meus sonhos
 
Lurdes Rebelo, in “Rasgos de Saudade”, página 43, edições Projecto Foco, Julho de 2020.

sexta-feira, 25 de junho de 2021

Contrastes

 

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No lindo jardim onde te relanças
libertam-se sólidos novos rumos,
nos perfis das tuas múltiplas danças
surgem condimentos dos teus aprumos.
 
Nesse teu jardim onde te relanças
ressurge uma dança esquecida,
prenhe duma luz que então alcanças
perante imagem turva da vida.
 
Nesse relançar tão surpreendente
que te acicata nessa vertente
alcandoras-te ao grande patamar.
 
Mostras a doce dança venerada
com a produção da luz encontrada
derradeiro alcance a ultimar.
 
 
António MR Martins   

quinta-feira, 17 de junho de 2021

Assertivo caminhar

Imagem na net.

 

Um baldio concedido
na natureza carente,
gerou um amor perdido
da forma mais indecente.
 
As fragrâncias ditaram
aptidões pelo desejo,
desde logo indicaram
o valor que tem um beijo.
 
Os corpos se entenderam
na plenitude vigente,
como tal reconheceram
a sedução eminente.
 
Desbloquearam conceitos
em gestos manuseados,
sem querer falar dos peitos
outrora lisonjeados.
 
Num respirar ofegante
foram desbravadas vias,
ante fulgor delirante
e outras burocracias.
 
Apelo em consonância
tornou omnipresente,
factor de intolerância
em causa imprevidente.
 
Os beijos soaram depois
vazios de exactidão,
numa conivência a dois
pelo prazer e emoção.
 
Êxtase total em união
empolgante e sublime,
era a vulva a razão
do engrossar deste vime.
 
Sem apelo nem agravo
fecundo foi o caminho,
saboreando o travo
de engolir tão bom vinho.
 
António MR Martins


segunda-feira, 14 de junho de 2021

Intervalo

 

Imagem na net.


Era primavera
e o campo estava repleto de flores.

Os pássaros cantavam
denotando uma inesgotável alegria.
 
De um momento para o outro
tudo de modificou.
 
Foi um sonho
apenas
e somente
um sonho.
 
António MR Martins

terça-feira, 8 de junho de 2021

Nudez infinita

Imagem na net.

 

Na poeira do chão risco traços sós
espalhados na desconformidade,
numa sã nudez desprovida de nós
sem rigor pelas linhas da verdade.
 
Alguns traços soltos desalinhados
esbarrando em pedaços sólidos,
que se descobrem desacompanhados
em nus de movimentos sórdidos.
 
Pela imaginação retalhada
se preme a veia aniquilada
de um sangue estancado sem fluir.
 
Estabelece-se um labirinto
nas linhas invisíveis que pressinto
ao despido infinito do porvir. 
 
 
António MR Martins

domingo, 6 de junho de 2021

José Luís Peixoto

 

Capa do livro "A Casa, a Escuridão",
de José Luís Peixoto


O ESCRITOR
 
ele disse não sei porque escrevo o teu nome.
eu olhei para ele. eu disse o meu nome não
é tudo o que podes escrever.
 
ele escrevia o meu nome num papel. ele sentava-se
numa cadeira e o luar era a luz de um candeeiro
sobre as palavras escritas.
 
ele disse amo-te.
 
ele disse tenho medo que um dia deixe de poder
escrever o teu nome. eu disse o meu nome não
é tudo o que podes escrever.
 
ele escreveu o meu nome durante muitos anos.
e eu perguntei porque continuas a escrever
o meu nome? ele olhou para mim. e perguntou
quem és tu?
 
José Luís Peixoto, in “A Casa, a Escuridão”, página 31, edições Quetzal Editores, Julho de 2014.        

sábado, 29 de maio de 2021

Sentinela alerta

 

Imagem na net.


Desaparecem os ventos

que empertigam as vozes
de todas as pedras caladas.
 
No descuidado relento
de toda a brandura
crescem as ervas
dos naturais campos da conformidade.
 
Nos verdejantes terrenos
onde resta a qualidade
sobejam aves filtradas
que esvoaçam à deriva
no deleite de tanta vivacidade.
 
As fragrâncias são únicas
com aromas incomparáveis
que inspiram sobremaneira
toda a envolvência.
 
Escondida está a tez da negação
que aguarda atentamente
o momento propício
para poder entrar em cena.
 
As raízes do mal
continuam espalhadas por aí.
 
Esperando! Esperando! Esperando!...
 
 
António MR Martins

quinta-feira, 20 de maio de 2021

António Duarte

 

Capa do livro "Pronto a despir - O Livro",
de António Duarte.


  
Raras neblinas
 
talvez sejam
só as tuas mãos
raras, pela neblina…
talvez
sejas só humidade!
este toque que sinto na pele
tão ausente da tua.
 
é desmedido e insano
este instante em que sou nuvem
e te fixo numa gota…
mas és só miragem
és planta sem raiz
 
 
António Duarte, in “ Pronto a despir – O Livro”, página 42, edições Cordão de Leitura, Agosto de 2020.
 
Nota de autor:
 
Livro sem hífens. Por opção. Sem divisões, sem muros no meio das palavras. Porque sim!
Existem textos com e sem pontuação. Por vontade própria!
Existem textos sem maiúsculas, pelo mesmo motivo!  

domingo, 16 de maio de 2021

Canto à saudade

 


Imagem na net.


Numa árvore esquecida
pelo decorrer dum perdido tempo
há um pássaro residente
conivente com o seu ramo da saudade.
 
Saltita de uma ponta à outra
cantando melancólicas melodias
sempre às mesmas horas de cada dia.
 
À noite os pirilampos envolvem
esse espaço mítico
como luzes de velas em movimento
onde se desenraízam
as memórias esfumadas
de um desalinhado passado
em silêncio.
 
A saudade é então cantada!...
 
 
António MR Martins

quinta-feira, 13 de maio de 2021

Manuel Barata

 

Capa do livro "Aqui a caminho", de Manuel Barata.


SEMPRE A CASA
 
A casa. Já foram tantas!
(repito de propósito o verso)
não sei ao certo quantas foram;
todavia, só da primeira,
pequena
e de quase tudo despojada,
guardo saudades.
 
Sobretudo dos afectos…
 
Poucas coisas havia naquela casa
- os livros eram coisas inúteis
e o primeiro estava escrito em latim
e tinha capa amarela. –
e por isso era espaçosa e dava até
para jogar à bola
no estreito corredor.
Era uma casa nova e sem memórias.
 
Continuando austera,
essa casa primeira é a única
(agora repleta de memórias)
que me faz pensar e falar de regresso.
Sei que se trata de retórica pura,
Porque o rio procura a foz
e nunca regressa à nascente.
 
Manuel Barata, in “Aqui a caminho”, página 60, edições Câmara Municipal de Castelo Branco, Setembro de 2020.