domingo, 13 de novembro de 2022

Fosse Lisboa agradecer ao Tejo

 

Lisboa e o Tejo, foto de António Martins.


Fosse o mar desentendido
por onde um rio lhe desagua,
perante percurso já esquecido
em água transparente e nua,
como singelo mar mais distraído
pelo rastilho do sinal da lua.
 
Fosse espraiar desinibido
pleno de alegria que magoa,
ante o rumo sempre batido
nas margens de fertilidade boa
ou num provérbio pervertido
de pensamentos sempre à toa.
 
Fosse esse mar um oceano,
por desígnio, o Atlântico,
onde a bandeira desce seu pano
e o fado ecoa seu cântico
sobre qualquer retorno insano
ou simples impulso quântico.
 
Fosse último verso-poema
frágil ou forte, que não destoa,
incansável, distante seu lema
de aprumo eficaz por coisa boa,
no pranto de um Tejo que é tema
quando se curva por Lisboa.
 
 
António MR Martins

quinta-feira, 20 de outubro de 2022

[a árvore seria miragem]

 

Imagem na net.


a árvore seria miragem
em retrato transparente
nas paredes esquecidas
 
porque a árvore não existe
no lar perdido
onde não habita o olhar


António MR Martins

segunda-feira, 17 de outubro de 2022

Se a palavra é proibida
os sons estão impedidos de voar.

António MR Martins

[nunca colherei da primavera]

Imagem na net

 

nunca colherei da primavera
os cheiros dos versos
inexistentes
 
nem uma folha pousada
em meados de um Outono
 
neste chão em que me perdi

António MR Martins

sábado, 8 de outubro de 2022

J. Coelho Bação

 

Capa do livro "Caminhada", de J. Coelho Bação


REGRESSO
 
 
Quando o passado à mente aflora,
Consultamos nossa história em pensamento;
Regressando ao passado nessa hora,
Evitamos, que algo caia em esquecimento.
 
E recordando as imagens, que vivemos,
Das conquistas, que fizemos, com saber;
Somamos tempo à vida, que tivemos;
Solucionando e existindo com prazer.
 
Mas quando a dor preciso é, de assinalar
E marcar com firmeza a consistência;
Levamos em pensamento o amor; para afirmar,
Que tudo, o que tivemos subsiste em permanência.
 
Nada se apaga. Tudo nos marca, nada se olvida.
Tudo isto, é somatório do viver. É tudo isto a própria vida.
 
 
J. Coelho Bação, in “Caminhada”, pág. 39, Temas e Poemas 4, edições Câmara Municipal de Mourão.

quinta-feira, 6 de outubro de 2022

[este chão não mereço]

Imagem da net.

 

este chão não mereço
nem a palavra
pedra escondida receosa de tanto amor
que deixou de convocar
tambores
em melodias tão actuais
onde o rebanho se tresmalha
a cada pico do ruído
 
não mereço este chão de ninguém
ou a expressiva palavra nunca dita
esvaio-me numa opressão sem limites
 
 
António MR Martins

domingo, 25 de setembro de 2022

Na "Hora da Poesia", Rádio Vizela, 97.2 FM - 28 de Setembro de 2022, 4.ª Feira, 21H00

 


A convite da Conceição Lima, participarei na “Hora da Poesia”, Rádio Vizela, 97.2 FM, na próxima 4.ª Feira, dia 28, pelas 21 horas.

Link: htpp://radiovizela.pt/radiovizela.ask

Vamos falar de POESIA!...

sexta-feira, 16 de setembro de 2022

Hirondina Joshua

 

Capa do livro "córtex", de hirondina joshua.


[o primeiro menino constrói a nave usando a língua]
 
 
o primeiro menino constrói a nave usando a língua
esse menino é terrível ao tocar no cabelo da mãe
deixa fogo e brasa ao redor
o segundo acredita nos animais da cidade:
esse menino imagina a mãe.
o terceiro traz magnetismo no dedo anelar:
constrói deus fora de deus.
o menino constrói a nave usando a língua.
imagina a mãe, deixa fogo, cria deus, acredita, toca no cabelo.
 
 
hirondina joshua, in “córtex”, página 33, Editora Exclamação, Novíssima Colecção de Poesia, Dezembro de 2021.  

quarta-feira, 14 de setembro de 2022

Banalidades constantes

 

Imagem na net.


Nível limpo, perfil hirto, é sorte
costume brando, lerdo pensamento,
cortina sempre fechada, é morte
lucidez abnegada, é lamento.
 
Translúcida a pele tão lavada
incrementa ciclos temerários,
pela palavra nunca declamada
denominaram todos de otários.
 
Semáforo de luzes incolores
rastreia tantos sólidos amores
alimentando confusões prescritas.
 
Doce será a virtude da razão
suspendendo a fuga em foguetão
omitindo as raízes malditas.
 
 
António MR Martins


segunda-feira, 22 de agosto de 2022

Ante a indiferença das pedras

 

Imagem na net.


A pedra soletra

as sílabas dos sons perdidos
perante ervas e silvas selvagens
que germinam nas suas bermas
 
pela extremidade latente
liberta-se de todas as raízes
e se inquieta suavemente
na origem de cada anoitecer
 
porém
estabiliza
na acalmia de cada alvorada
 
na consequente expressão
omitida
junto à ultimada solidão da noite
 
no solo em que habita
renasce o soletrar
onde a sonora palavra não é vã
 
e quando numa pedra pegamos
lançando-a com desmedida força
se empolga a plenitude do vento
e o sopro memorial
do tronco de milhares de vidas.
 
 
António MR Martins

sábado, 13 de agosto de 2022

helicópteros

 

Por um incêndio no concelho de Ansião - foto de António Martins.



pela hélice
do helicóptero
se desvanece o perdido
 
voam os desperdícios
pela aterragem soberba
 
as aves
se afastam
num assustado voo
 
todo
o resto fica
em permanência
 
ao levantar voo
sucede o inverso
 
mas nada fica
como antes
 
 
António MR Martins


segunda-feira, 13 de junho de 2022

Faleceu António Correia, aos 73 anos (1948-2022)

 

António Correia (imagem na net).


Nasceu em Resende(Viseu) há 73 anos. Foi empregado bancário do Banco de Angola e do Totta e Açores. Chegou a Macau a 13 de Junho de 1980. Fundou, juntamente com Rui Cunha, um dos principais escritórios de advogados do território, a C&C Advogados. Em 1991, foi nomeado membro do Conselho Consultivo do Governo de Macau e, entre 1992 e 1996, foi deputado na Assembleia Legislativa (AL). Saiu do território no final dos anos de 1990, mas manteve sempre uma ligação ao mesmo, onde voltou por diversas vezes.
 
Depois de regressar a Portugal, o advogado desempenhou funções como administrador-executivo da ANA – Aeroportos de Portugal, com especial destaque para a ilha da Madeira, onde esteve intimamente ligado à ampliação do Aeroporto Internacional do Funchal. Em 2000, recebeu das mãos do Presidente da República, Jorge Sampaio, a Ordem de Mérito, no grau de Grande Oficial. Ainda viveu uma temporada no Brasil.
 
Teve sempre um grande amor, a poesia, que escreveu até aos seus últimos dias.
Das mais diversas obras publicadas por António Correia, que tem colaborado igualmente com a imprensa, destacam-se, na poesia, “Amagao Meu Amor” (sonetos), Macau, 1992, “Rua Sem Nome” (romance), Lisboa, 1999, e, “Lisboa, em Haiku”, edição trilingue, em português, inglês e japonês, Lisboa, 2015. Participou ainda em diversas antologias de poesia de onde se destaca a última, editada em 2020 em Macau, intitulada “Rio das Pérolas”, com a chancela da Ipsis Verbis e coordenada pelo poeta português António MR Martins.
 
Deixo-vos um seu poema, publicado na antologia “Rio das Pérolas”, editada e lançada em Macau, a Junho de 2020.
 
 
Repousando a mente
 
 
Repouso a mente sobre a flor de lótus,
Mas não navego; deixo-me voar
Na emoção de saber que não me importo
De ser quem sou, sem nada desejar.
 
Com gosto sigo a luz de um pensamento
Que me enleve e me inspire esse poema
De amor à vida, no desprendimento
Das coisas que bem podem ser algema.
 
É tão simples ter paz e ser feliz:
Basta não ficar preso a nenhum chão...
O corpo pode ser lodo e raiz;
Já a mente, seguramente não!
 
António Correia
 
 
Até sempre, meu bom amigo da palavra. Um forte e grande abraço. Esteja onde estiver!...

António MR Martins

domingo, 12 de junho de 2022

A voz da sapiência

 

Imagem na net.


A norte da distância
que trago neste lume
onde as fagulhas se consomem
numa incerteza que me amanha
os sentidos adormecidos,
sem contextos de qualquer ordem
num expandir de sensações
que roçam o inexplicável.
 
Abordam-me requisitos
de sentenças invariáveis,
de esplendor e outras não,
remendando pensamentos
que precipitam conceitos
de imparável solução.
 
Surge a voz do clamor
desenredando interesses
que com a paixão dos deuses
exprime o desígnio final:
 
- É dourada a tonalidade
de uma sublime expressão.
 
 
António MR Martins

terça-feira, 17 de maio de 2022

O esfumar da Fé

 

Imagem na net.


Saio trépido em fugaz partida
ávido de um expoente,
na Fé não conseguida
num calcorrear premente,
entre as esquinas do pensamento
onde quase tudo me assiste,
a todo e qualquer momento.
 
Saio no sentido de me elevar
nos passeios da eloquência,
pela razão que já não tenho
na volta da penitência,
vivem passos desconformes
rastejando a Fé aos céus
e a tantos uniformes.
 
Saio na ânsia de um ar novo
onde algo puro se adivinha,
nos pulos desta existência
na terra que também é minha,
nesta marcha eu fico à ré
por teimosias dispersas.
Ah! Quem me dera ter Fé!...
 
 
António MR Martins


sábado, 14 de maio de 2022

Pedro Ludgero

 

Capa do livro "um pouco mais ou menos de
serenidade", de Pedro Ludgero


primavera

 

 

o sabão caído

na bacia cheia

água na boca do poeta

 

 

pimenta na língua

distintos os resultados

num povo e na criança

 

 

a flor stradivarius

sua pétalas são fricções

de um caule

 

 

pois tudo é consoante

as vogais não são vogais

na hierarquia do canto

 

 

ainda são páginas

na primavera

as folhas das árvores

 

 

Pedro Ludgero, in “um pouco mais ou menos serenidade”, página 26, edição de autor, 2019.


Um livro que recomendo à leitura.