terça-feira, 13 de dezembro de 2022

Lília Tavares

Capa do livro "casa de conchas", 
de Lília Tavares.

 

 
À SOMBRA DO SAL – II
 
Contigo escutei os gritos das gaivotas no rochedo
maior, naquela que era a rainha das escarpas da praia
verde. Choravas.
Porque gemiam areias na solidão que mordias e os
homens voltavam nos barcos e pescavam a morte
como peixes sombrios.
Sobre o timbre dos ventos falaste em verso nas
janelas da noite em que o arvoredo se curvava sobre
as canções do mar.
 
Lília Tavares, in “casa de conchas”, página 30, edições Modocromia, Colecção Mão de Semear, Livros Lília Tavares, Março de 2022.    

domingo, 4 de dezembro de 2022

Epílogo

 

´
Imagem na net.


Sinto as dores da conformação
onde a palavra já não mexe
e o apêndice de cada verso
tem uma fugaz presença
no apagão das memórias
 
as brancas inodoras
essas permanecem
como devaneio do seu estatuto
 
cada princípio tem um fim
dizem
 
mas não ultimem a palavra
 
ai
estas dores não abalam
e a resistência
não tem a força de outrora
 
os registos já não existem
e a consonância
do que já está feito evapora-se
 
sinto as dores do conflito
das gerações esquecidas
na omissão de cada poema
 
os laços afectam a mediocridade
sem sentido qualificativo
e em quantidades efémeras
 
tudo é passageiro
ao fim e ao cabo
 
ai
como as dores
penetram em meus ossos
num aguçado percurso
em maldição exasperada
 
nada parece ter sentido
 
ficam as palavras apertadas
pelo nó da discórdia
e na envolvência do verso
que anseia pela liberdade
 
 
António MR Martins

segunda-feira, 21 de novembro de 2022

[a massa orgânica]

 

Imagem na net.


a massa orgânica
nas brumas se esfumou
das ilhas
só existiram os sonhos
revoltantemente
expelidos dos ventres oprimidos
 
por aí se fala à boca cheia
que a janela da vida
jamais fará sonhar qualquer criança
 
 
António MR Martins

quarta-feira, 16 de novembro de 2022

No dia em que se assinala o centenário do nascimento de José Saramago - 16-11-1922 / 16-11-2022

 

Capa da colectânea "Sob Epígrafe", n.º 10,
Tributo a Agustina e a Saramago
no ano em que se assinala o centenário
dos seus nascimentos


“O primeiro acto da função terminou, os adereços de cena
foram retirados, os actores descansam do esforço da apoteose.”
 
José Saramago
in “A Caverna”
 
 
 
 
Cena última
 
 
O apreço foi distinguido
na solenidade daquele dia
o aprumo resistiu bacoco
na raiz dos pés da solidão
 
no nobel o centro da plenitude
e da confusão estruturada.
 
Lanzarote distancia-se
sem apelo nem agravo
 
há sempre um travo amargo
após a decisão do veredicto.
 
Fica a obra
contextualizada
em quaisquer situações
sem medos, sem receios
sempre aprumada
no plano hirto de suas palavras.
 
Às vezes o esquecimento
mergulha nos anais
da profundeza infinita.


António MR Martins, in Tributo a Agustina e a Saramago, da série "Sob Epígrafe", n.º 10, página 12, edições Temas Originais, 2022. 

domingo, 13 de novembro de 2022

Fosse Lisboa agradecer ao Tejo

 

Lisboa e o Tejo, foto de António Martins.


Fosse o mar desentendido
por onde um rio lhe desagua,
perante percurso já esquecido
em água transparente e nua,
como singelo mar mais distraído
pelo rastilho do sinal da lua.
 
Fosse espraiar desinibido
pleno de alegria que magoa,
ante o rumo sempre batido
nas margens de fertilidade boa
ou num provérbio pervertido
de pensamentos sempre à toa.
 
Fosse esse mar um oceano,
por desígnio, o Atlântico,
onde a bandeira desce seu pano
e o fado ecoa seu cântico
sobre qualquer retorno insano
ou simples impulso quântico.
 
Fosse último verso-poema
frágil ou forte, que não destoa,
incansável, distante seu lema
de aprumo eficaz por coisa boa,
no pranto de um Tejo que é tema
quando se curva por Lisboa.
 
 
António MR Martins

quinta-feira, 20 de outubro de 2022

[a árvore seria miragem]

 

Imagem na net.


a árvore seria miragem
em retrato transparente
nas paredes esquecidas
 
porque a árvore não existe
no lar perdido
onde não habita o olhar


António MR Martins

segunda-feira, 17 de outubro de 2022

Se a palavra é proibida
os sons estão impedidos de voar.

António MR Martins

[nunca colherei da primavera]

Imagem na net

 

nunca colherei da primavera
os cheiros dos versos
inexistentes
 
nem uma folha pousada
em meados de um Outono
 
neste chão em que me perdi

António MR Martins

sábado, 8 de outubro de 2022

J. Coelho Bação

 

Capa do livro "Caminhada", de J. Coelho Bação


REGRESSO
 
 
Quando o passado à mente aflora,
Consultamos nossa história em pensamento;
Regressando ao passado nessa hora,
Evitamos, que algo caia em esquecimento.
 
E recordando as imagens, que vivemos,
Das conquistas, que fizemos, com saber;
Somamos tempo à vida, que tivemos;
Solucionando e existindo com prazer.
 
Mas quando a dor preciso é, de assinalar
E marcar com firmeza a consistência;
Levamos em pensamento o amor; para afirmar,
Que tudo, o que tivemos subsiste em permanência.
 
Nada se apaga. Tudo nos marca, nada se olvida.
Tudo isto, é somatório do viver. É tudo isto a própria vida.
 
 
J. Coelho Bação, in “Caminhada”, pág. 39, Temas e Poemas 4, edições Câmara Municipal de Mourão.

quinta-feira, 6 de outubro de 2022

[este chão não mereço]

Imagem da net.

 

este chão não mereço
nem a palavra
pedra escondida receosa de tanto amor
que deixou de convocar
tambores
em melodias tão actuais
onde o rebanho se tresmalha
a cada pico do ruído
 
não mereço este chão de ninguém
ou a expressiva palavra nunca dita
esvaio-me numa opressão sem limites
 
 
António MR Martins

domingo, 25 de setembro de 2022

Na "Hora da Poesia", Rádio Vizela, 97.2 FM - 28 de Setembro de 2022, 4.ª Feira, 21H00

 


A convite da Conceição Lima, participarei na “Hora da Poesia”, Rádio Vizela, 97.2 FM, na próxima 4.ª Feira, dia 28, pelas 21 horas.

Link: htpp://radiovizela.pt/radiovizela.ask

Vamos falar de POESIA!...

sexta-feira, 16 de setembro de 2022

Hirondina Joshua

 

Capa do livro "córtex", de hirondina joshua.


[o primeiro menino constrói a nave usando a língua]
 
 
o primeiro menino constrói a nave usando a língua
esse menino é terrível ao tocar no cabelo da mãe
deixa fogo e brasa ao redor
o segundo acredita nos animais da cidade:
esse menino imagina a mãe.
o terceiro traz magnetismo no dedo anelar:
constrói deus fora de deus.
o menino constrói a nave usando a língua.
imagina a mãe, deixa fogo, cria deus, acredita, toca no cabelo.
 
 
hirondina joshua, in “córtex”, página 33, Editora Exclamação, Novíssima Colecção de Poesia, Dezembro de 2021.  

quarta-feira, 14 de setembro de 2022

Banalidades constantes

 

Imagem na net.


Nível limpo, perfil hirto, é sorte
costume brando, lerdo pensamento,
cortina sempre fechada, é morte
lucidez abnegada, é lamento.
 
Translúcida a pele tão lavada
incrementa ciclos temerários,
pela palavra nunca declamada
denominaram todos de otários.
 
Semáforo de luzes incolores
rastreia tantos sólidos amores
alimentando confusões prescritas.
 
Doce será a virtude da razão
suspendendo a fuga em foguetão
omitindo as raízes malditas.
 
 
António MR Martins


segunda-feira, 22 de agosto de 2022

Ante a indiferença das pedras

 

Imagem na net.


A pedra soletra

as sílabas dos sons perdidos
perante ervas e silvas selvagens
que germinam nas suas bermas
 
pela extremidade latente
liberta-se de todas as raízes
e se inquieta suavemente
na origem de cada anoitecer
 
porém
estabiliza
na acalmia de cada alvorada
 
na consequente expressão
omitida
junto à ultimada solidão da noite
 
no solo em que habita
renasce o soletrar
onde a sonora palavra não é vã
 
e quando numa pedra pegamos
lançando-a com desmedida força
se empolga a plenitude do vento
e o sopro memorial
do tronco de milhares de vidas.
 
 
António MR Martins

sábado, 13 de agosto de 2022

helicópteros

 

Por um incêndio no concelho de Ansião - foto de António Martins.



pela hélice
do helicóptero
se desvanece o perdido
 
voam os desperdícios
pela aterragem soberba
 
as aves
se afastam
num assustado voo
 
todo
o resto fica
em permanência
 
ao levantar voo
sucede o inverso
 
mas nada fica
como antes
 
 
António MR Martins