sábado, 25 de junho de 2011

José Pereira, de "Os Belenenses"


Guarda-redes
De excelentes recursos

Alcunhado
De pássaro azul

Pela beleza de seus voos
E pelos seus técnicos usos

Via o jogo
À distância
Estudando o contragolpe

Excelente a operância

Seguras mãos
Nas defesas

Regularidade
Nas prestações

Um guardião
De outras dimensões


António MR Martins

sexta-feira, 24 de junho de 2011

[Esparso e subtil era o pólen da pedra]


Esparso e subtil era o pólen da pedra
e a sua amêndoa opaca cintilava
como um punho de nervos e de olhos
entre os joelhos negros da matéria.
Era um porto de folhas como um barco
suspenso ou um fruto do silêncio.
A luz incidia sobre os montes vermelhos
cerimoniosamente lentos e suaves.
Algo amanhecia em fluvial frescura
como um jorro de frágil cristal.


António Ramos Rosa
in livro "DEZASSETE POEMAS", 1992, página 49, Editorial Escritor, Lda. 

Matateu, de "Os Belenenses"


Uma técnica superior
Um poderoso remate

Driblava de cor
Poderoso no embate

Um símbolo
Da Cruz de Cristo ao peito
Para os lados de Belém

Como ele
Lá
Nunca apareceu ninguém

Para o futebol
Um enorme jeito

Em espaço curto fintava
Em pequeno espaço livre
Rematava

Muitas vezes
Era golo

No seu clube
Ou na selecção

Sempre a mesma precisão


António MR Martins

quinta-feira, 23 de junho de 2011

a tua voz


a tua voz
:uma alameda de sons
encostada ao corpo,
traz-me a pedra das infâncias
a afiar-me os dedos
a mim
que sei de navalhas
o que outros sabem das mortes
como se os dedos
pudessem ir além do gesto.
O gosto do sangue é este:
- dizeres-me em que camas te despiste
         que outros nomes intima disseste.


Mário Contumélias

in livro "O Ofício das Coisas", colecção "imagem do corpo", nº. 34, página 56, edições Ulmeiro.

Vicente Lucas, de "Os Belenenses"


O saber estar
E elevar

Precisão no corte
Não perdia o norte

Cabeça elevada
Pensando o jogo

Excelente temperamento
Sem um lamento

O rei Pele secou
Sem que se desse por isso
A multidão pasmou
No Mundial de 66
Feitiço

Jogava de pantufas

Ao jogo baixo
Não recorria
Nem faltas duras
E em desacatos não se metia

Uma referência
Sempre sorria

Um acidente
Tirou-lhe a vista
E a alegria


António MR Martins

quarta-feira, 22 de junho de 2011

[na hora de pôr a mesa, éramos cinco:]


na hora de pôr a mesa, éramos cinco:
o meu pai, a minha mãe, as minhas irmãs
e eu. depois, a minha irmã mais velha
casou-se. depois, a minha irmã mais nova
casou-se. depois, o meu pai morreu. hoje,
na hora de pôr a mesa, somos cinco,
menos a minha irmã mais velha que está
na casa dela, menos a minha irmã mais
nova que está na casa dela, menos o meu
pai, menos a minha mãe viúva. cada um
deles é um lugar vazio nesta mesa onde
como sozinho. mas irão estar sempre aqui.
na hora de pôr a mesa, seremos sempre cinco.
enquanto um de nós estiver vivo, seremos
sempre cinco.


José Luís Peixoto

in livro "a criança em ruínas", colecção "Uma existência de papel", nº. 18, página 13, edições quasi.

Caminhos comuns


Num passeio o ressalto
Da pedra inerte sem fundamento
A atrocidade irrelevante empolga devaneios

Um brilho no olhar de cada ribalta que passa
E o enredo se estabelece

Há um pedaço de vida a cada esquina
E outro no chão esquecido

As vozes se incorporam
Trazendo consigo o som da cidade
Sem influências ou conjecturas

Mais um dia que cresce
No quotidiano de um percurso habitual
De todas as vivências citadinas


António MR Martins

sexta-feira, 17 de junho de 2011

"Insubmissão"

Comparavam-na com Antígona:
- por ser rebelde e insubmissa –
tinha nas veias a poeira
por onde o sangue se tinha escoado.
Acreditava que os deuses
decidiam
e que os homens, os terrenos
se podiam saciar
como as hienas,
forjando caminhos
de putrefacção
entre os escombros do odor
inalado, sobre a incoerência da vida.
Desistente nunca fora!
A rebeldia acendia-lhe o olhar
forjando caminhos
– ainda que conducentes à morte –
A morte, será apenas o prémio:
da fúria dos deuses,
derrubando grutas de silêncio,
onde a fome penetra agonizante
e se agita perante a rebeldia
que a detém.

É o amor que morre
No suicídio da inabilidade perante a luta
E a razão.

É a vida que se consome num pregão
Gritado na fúria
Que se obstina perante o poder que se mascara
Na indigência da valentia acossada.


As hienas vigiam a gruta:
sabem que a rocha se transformará em ossada
e que em breve os cães madrugadores
irromperão famintos
espetando na carne sobrante,
os incisivos dentes de areia
– que farejaram o homem soterrado –
e não encontram nada:
A fome e o desespero,
enterraram-se na revolta,
insuflada contra o déspota Creonte.
- que alterando o nome –
não alterou o desfecho:
Antígona voou no dorso da coragem!

Tal como ela, a quem a esta, comparada,
soltou um raio de decisão
e se fez vento,
se fez olhar,
se fez silêncio,
na montanha de açucenas,
onde divide o pão
e sepulta as migalhas de ternura…
Não vão as hienas, trespassá-las!


Dalila Moura Baião

poema a ser publicado num próximo livro da autora

Sublime extracto de amor


No sólido fulgor da ventura
onde os ânimos revoltam,
o espaço arde e perdura
entre os pruridos que se soltam.

A água aveluda o fogo
perante névoas de ar preso,
sobram as estrelas a quem rogo
só, estático e indefeso.

Na noite atento ao cintilar
das chamas algo adormecidas
afiro as ondas do teu louvor.

De esguelha luziu o teu pulsar
e se queimam as tuas feridas
renascendo celso tanto amor.


António MR Martins

imagem da net

terça-feira, 14 de junho de 2011

Poema da Memória


Havia no meu tempo um rio chamado Tejo
que se estendia ao Sol na linha do horizonte.
Ia de ponta a ponta, e aos seus olhos parecia
exactamente um espelho
porque, do que sabia,
só um espelho com isso se parecia.

De joelhos no banco, o busto inteiriçado,
só tinha olhos para o rio distante,
os olhos do animal embalsamado
mas vivo
na vítrea fixidez dos olhos penetrantes.
Diria o rio que havia no seu tempo
um recorte quadrado, ao longe, na linha do horizonte,
onde dois grandes olhos,
grandes e ávidos, fixos e pasmados,
o fitavam sem tréguas nem cansaço.
Eram dois olhos grandes,
olhos de bicho atento
que espera apenas por amor de esperar.

E por que não galgar sobre os telhados,
os telhados vermelhos
das casas baixas com varandas verdes
e nas varandas verdes, sardinheiras?
Ai se fosse o da história que voava
com asas grandes, grandes, flutuantes,
e poisava onde bem lhe apetecia,
e espreitava pelos vidros das janelas
das casas baixas com varandas verdes!
Ai que bom seria!
Espreitar não, que é feio,
mas ir até ao longe e tocar nele,
e nele ver os seus olhos repetidos,
grandes e húmidos, vorazes e inocentes.
Como seria bom!

Descaem-se-me as pálpebras e, com isso,
(tão simples isso)
não há olhos, nem rio, nem varandas, nem nada.


António Gedeão

Livro perfeito

Há a página aberta
no livro da perfeição;
é leitura descoberta
com grande satisfação.

Noutra página incerta
nos traz à leitura rigor;
anseio que tal desperta
ao menos atento leitor.

Seu conteúdo envolve
a mensagem majestosa
e a palavra manobra.

A mente assim dissolve
a poesia deliciosa
do conteúdo da obra.

António MR Martins

imagem na net

QUALQUER MÚSICA


Qualquer música, ah, qualquer,
Logo que me tire da alma
Esta incerteza que quer
Qualquer impossível calma!

Qualquer música - guitarra,
Viola, harmónio, realejo...
Um canto que se desgarra...
Um sonho em que nada vejo...

Qualquer coisa que não vida!
Jota, fado, a confusão
Da última dança vivida...
Que eu não sinta o coração!


Fernando Pessoa

in livro "Poesias" (Obras Completas de Fernando Pessoa), página 220, Edições Ática

palestra

o sonolência opera
no escutar da palavra vã.

tudo cheira a repetição
na podre atmosfera
do desespero.

não há discurso
que acate
este clima de negligência.

tudo soa a imperfeição
neste sonegar constante.

António MR Martins

imagem na net

segunda-feira, 13 de junho de 2011

Apresentação do livro "Águas de Ternura", em Ansião, no Auditório do Centro de Negócios, 12 de Junho de 2011


A mesa de honra.
Da esquerda para a direita: - Drª. Teresa Ramos, directora da Biblioteca Municipal de Ansião, que apresentou a obra, Drª. Célia Freire, Vereadora do Pelouro da Cultura do Município de Ansião, moderadora da sessão e que fez a apresentação do autor e o poeta António MR Martins.


O poeta Luís Ferreira lê um poema de "Águas de Ternura".


A escritora Manuela Fonseca, também, lê um poema da obra em apresentação.


É a vez da escritora Maria de Fátima Gouveia.


Os membros da mesa atentos ao desenrolar do momento musical desta sessão.


António Simões musicou um poema do anterior livro do autor, "Foz Sentida", e interpretou-o nesta sessão. Foram emocionantes momentos.


Ocasião para António MR Martins fazer uso da palavra.


Nos momentos finais, o habitual autógrafo.