sexta-feira, 7 de julho de 2017

Joaquim Pessoa


Joaquim Pessoa, imagem da net.



BOM DIA, MEU AMOR!

Acordo-me. Acordo-te. Sorrio.
E sobre a tua pele que a minha adora,
navega o meu desejo, esse navio
que sempre parte e nunca vai embora.

E como um animal uivando o cio
de um milénio, de um mês ou uma hora,
não sei se morro ou vivo, ou choro ou rio,
só sei que a eternidade é o agora.

E calam-se as palavras, uma a uma,
feitas de sal, saliva, dor e espuma,
com a exacta dosagem da alegria.

Bom dia, meu amor! O teu sorriso
é tudo o que me falta, o que eu preciso
para acender a luz de cada dia.

Joaquim Pessoa, in “Os dias não andam satisfeitos”, página 53, Edições Esgotadas, Março 2017.

domingo, 25 de junho de 2017

Destino


Imagem da net.




Na voz do silêncio
Se ouve o rigor.

Matéria de ensino
Aperto na dor,
Última soalheira
Ou agreste inverno.

Verso-poema
Em campo de abrigo,
Memórias perdidas
No fado da vida.

 
António MR Martins

sábado, 24 de junho de 2017

Sandra Freitas


Sandra Freitas, imagem da net.




Nome

O orvalho do meu nome
traz-me ribeiros mansos
e a infância que ainda não tive,
vai mergulhar o rosto num
pólen de aventura e esperar
que um astro luminoso me
avalie com sabedoria.
Hei-de sentar-me ao lado da
minha fonte, com silvas aos
pés, e deixar que todos os sons
matinais refresquem a minha sede.

Sandra Freitas, in “111”, página 145, edições Chiado Editora, Fevereiro, 2017.  

sexta-feira, 23 de junho de 2017

Ilogismo absoluto


Fogo de Pedrógão Grande, imagem da net.



Neutro assumir,
peremptório posicionamento
entre as moléstias desavindas
nos resquícios da inconformação.

Um prurido constante
cinde os sentidos do plano
e nada acontece em conformidade.

Profligam-se todas as teses da perfeição,
o estabelecido torna-se inconsequente
e impossível de se concretizar.

Ultimam-se novas peripécias
na encruzilhada da hecatombe
que surpreende os minutos seguintes,
entrando tudo fora de controlo.

Tiritam os temores
perante um calor avassalador
e os estalidos ressoam nos ouvidos
de todas as sentidas escutas.

Ao fundo a labareda
planeia seu ritmo devorador
e a carne atónita
é queimada no seu interior,
num alarmante súbito sentido.

O aprazível verdum vira acastanhado
e o fumo evidencia o tapear empolgante.

O absurdo rodeia a circunstância
e o galarim fenece,
na firmeza selectiva do implexo lume
tudo fica feito em tristes cacos.

O doidivanas tudo aglutina
e a resignação
de quem mais nada pode
faz-se observar no rude horizonte.

Valeram os homens de vermelho
que jamais se renderão
a tão estouvado demolidor.

Mas a morte mora ali
e ficará para sempre
na nossa memória.

 
António MR Martins

terça-feira, 20 de junho de 2017

Henrique Levy


Henrique Levy, imagem da net.



ANOITECE

o corpo não pede gestos
nem pétalas perfumadas de gerânios
nem naus em portos longínquos
nem mãos sobre altares buscando preces
nem o último olhar do sol sobre a ilha antes de adormecer

o meu corpo é agora o lugar
de lábios demorados que
sobre ele desatam beijos

no entardecer dos teus olhos
brilha em repouso o requiem da entrega

noite em que os muros as roseiras bravas
vieram debruar de alvíssima seda
em que o lamento das borboletas
das asas se desprende no crepúsculo cintilante
mergulhando o mar…

Henrique Levy, in “Noivos do Mar”, página 37, edições Labirinto, colecção contramaré / 13, Abril de 2017.

segunda-feira, 19 de junho de 2017

Sessão de autógrafos


Sessão de autógrafos no Espaço Chiado, da Chiado Editora, na 87.ª Feira do Livro de Lisboa, dia 17 de Junho de 2017, pelas 22H00, com o meu livro "Empresta-me a Palavra".
 
 
 
 


quinta-feira, 15 de junho de 2017

Sessão de autógrafos com "Empresta-me a Palavra", na Feira do Livro de Lisboa 2017


Vou estar na Feira do Livro de Lisboa 2017, no Parque Eduardo VII, no próximo dia 17 de Junho, pelas 22H00, para uma sessão de autógrafos no Espaço Chiado (Chiado Editora), com o meu livro "Empresta-me a Palavra".

Apareçam e tragam mais amigos convosco.

Muito obrigado.

Meu abraço.





Soalheiro quotidiano


Imagem da net.




Há um grito prenhe
que ecoa
nas feridas da seara
onde o trigo amanhece
com os silenciosos grilos,
ante a única causa
da verdade permitida.

A imagem visionada
emoldura-se
pela lentidão nos dias soalheiros,
num contexto,
quase,
habitual,
mesmo a qualquer dia domingo
de um mês qualquer.

Fosse ele um sábado
ou uma segunda-feira!...

 
António MR Martins

terça-feira, 30 de maio de 2017

Fernanda Dias


Fernanda Dias, foto Hoje Macau.



o lótus e a libélula

eu queria-te sagaz e livre
voando sobre um lótus de cetim carnudo

a vida fervilhando inteira
no charco limoso
um denso vapor letal
subindo, sublimando o visco
polindo o olho facetado e arisco
de um insecto cor de opala

eu queria isto e queria-te à janela
sobre os lagos de Nam Van
eu queria tudo.


Fernanda Dias, in “chá verde”, página 38, edições Círculo dos Amigos da Cultura de Macau, 1.ª edição, 09/09/2002.

segunda-feira, 29 de maio de 2017

No suor do teu vindimar


Imagem da net.



Na dorna
onde adormece a vinha vindimada
fervem os prazeres líquidos
dos deuses,
o néctar da tua essência
na agitação
de um apelo soberbo
ao cálice da tua magnificência.

Restauro de um engaço
em resíduos do único delírio
pelo cheiro dos vinhedos
desnudados
ante o teu rosto resplandecente
e tua boca sensual
de travo agridoce.

Viajas pelo esmagar dos bagos,
sonhadora,
como que levitando teu corpo
misturado
com o prazer do teu transpirar
por entre as castas da madrugada.


António MR Martins

sábado, 27 de maio de 2017

António Ramos Rosa


António Ramos Rosa (1924-2013), imagem da net.



A FACILIDADE DO AR

A facilidade escreve-se.
A mão do dia é branca.
A luz do mistério
é animal.
Amar é olvidar
com estas árvores
com estas nuvens
com este sopro vermelho sobre as coisas.
A evidência do mundo é o barco do ar.
Visível a respiração da ausência.
Sem destino, para além dos signos,
o rosto confiante é o puro espaço
onde todo o vago é insinuante afirmação
e a paixão um murmúrio de leveza.
O sangue circula em palavras claras
e a doçura delira
na iminência que dura num rumor iluminado.

António Ramos Rosa (1924-2013), in “Facilidade do Ar”, página 19, edições Caminho, da Poesia, Junho de 1990.

quarta-feira, 24 de maio de 2017

A. M. Pires Cabral


A. M. Pires Cabral, imagem da net.




DESESPERANÇA

Já não sei que mais navios
buscarão este insalubre
litoral nosso desfeito
dentro da própria espuma

Já não sei que mais navios
cortarão na noite intensa
velhas ânsias de chegar
sua renascida pressa

Já não sei que mais navios
virão com carga no ventre
abastecer a distância
interior da minha gente


A. M. Pires Cabral, in “Artes Marginais”, página 52, edições Guimarães Editores, Novembro de 1998.

terça-feira, 23 de maio de 2017

Nas tuas ameias


Imagem in pixabay.com



Rasgo em ti
sombrias fronteiras amedrontadas
em gemidos ponteados de sedução
numa aromática melodia
que saboreio prazerosamente
em devaneios cúmplices
de extenuante sentido único.

Sinto em ti
os poros desbravados 
à míngua de uma língua cativante
enquanto o suor das nuvens
salpica a terra ressequida
ao som do tocante embalo
de todos os grilos cantantes.

Aquece em ti
a loucura saborosa
de uma libido insinuante
no desembocar da perfuração
entre as raízes da árvore
que nos presenteia a sombra 
de todas as sentidas frescuras.

Resta em ti
o fragor de todas as ondas
na esbelta sensatez do corpo
ao teu areal de acolhimento
ante o voo duma gaivota
e um sensual sorriso
na busca de um sono sonhador.


António MR Martins

terça-feira, 16 de maio de 2017

António Ferreira


Capa do livro "O Comboio de Lúcifer", de António Ferreira.
Edições Assírio & Alvim.




PHOTO-PIECE

As olheiras perversas glosam
a banal liturgia do andrógino:
a camisa desabotoada no peito, o jeito felino da cabeça.
Tudo isto outrora foi escrito em nome de
uma sabedoria qualquer,
do espelho votivo a que celebramos,
da ânsia carnal de estar entre a tribo.
Tudo hoje se consome no desalento da pose,
sob a voz impudica da sibila,
na estúrdia que nos absolve do caos.


António Ferreira, in “O Comboio de Lúcifer”, página 16, edições Assírio & Alvim, Setembro de 1997.

domingo, 14 de maio de 2017

Ler-te avidamente


Foto: © André Brito



Folheei as páginas
das tuas memórias
renascidas
com o ímpeto
de quem desflora
a vulva pela vez certeira
e de forma intensa.

Folheei as sentidas palavras 
escondidas
que me paralisaram o olhar
imprimindo ávido fulgor
na ansiedade
da concretização
da mais prazerosa leitura.


António MR Martins