sábado, 25 de abril de 2020

Amarras inventadas


Imagem na net.



Daqui vejo a Torre de Macau
as pontes e o delta do Rio das Pérolas
os casinos da cidade 
e a azáfama para um novo aterro.

Daqui vejo o céu, às vezes,
as nuvens e a neblina
as luzes das noites turvas
e o brilhantismo de algumas límpidas.

Daqui vejo a cidade
outrora do Santo Nome de Deus
com todos os deuses
a protegerem o seu avançar na idade.

Daqui sinto a felicidade morna
dos trabalhos inacabados
a vida parada pelos cantos
onde os sorrisos moravam.

Daqui há meses te escapo
raiz do medo e da peçonha
proveito de toda a vergonha
de que enferma a Humanidade.

António MR Martins 

Abril de 2020

quinta-feira, 23 de abril de 2020

Miguel de Senna Fernandes


Miguel de Senna Fernandes, imagem na net.




E fica assim

E fica assim
É final pra mim
Já não tenho nada
Mas nada mais importa

E fica assim
Ponto zero pra mim
É escolher de novo
Sem agradar o povo

Se vou viver?
Pois claro que sim
Nem que fique na lama
Que estar na tua cama

Se vou viver, queres saber?
Prometo que sim
Nem que fique nua
Como pra o mundo vim

Prefiro assim
Tu longe de mim
Que me chames de tudo
Mas dito o meu futuro

(declamado)
Não sou mulher do teu pedestal
Que pode cair de um vendaval
Sou mulher com pés firmes na terra
De coração rubro e de alma leal
Para onde vou não interessa.
Ainda que nada mereça,
Sou mulher, prefiro morrer a estar presa

Se vou viver?
Pois claro que sim
Nem que fique na lama
Que estar na tua cama

Se vou viver, queres saber?
Prometo que sim
Se isto é destino
Então que seja assim!

Miguel de Senna Fernandes, in “RAEM 20 Anos”, Poema 16 (construído para ser musicado e que já o tinha sido), ilustrado por Elisa Vilaça, edições Casa de Portugal em Macau, Novembro de 2019.

domingo, 19 de abril de 2020

Deserto de ideias


Imagem na net.



Observo a cidade deserta
onde caminho mascarado
pelas ruas, becos e travessas
plenas dum humano-vazio.

Até as borboletas
já surgem no espaço cimentado
voando junto às janelas
ladrilhadas de milenares costumes
e fechadas a todos os tropeções inexistentes.

É tenebroso este silêncio
que se aglomera noite dentro
e 
que traz consigo
um ar que mais nos privilegia
na suavidade dum respirar profundo
muito mais satisfatório.

Junto às águas do lago Nam Van,
onde se avista o delta do Rio das Pérolas
já as aves são inúmeras
deambulando
entre muitas das espécies da região.

O confinamento não é simulacro
é intensa realidade.

A espera absorve-nos os dias
e a demora persiste em continuar alheia
a todos os nossos propósitos
neste agridoce condicionamento.

António MR Martins

Abril de 2020

quarta-feira, 15 de abril de 2020

Fiquem em casa


Imagem na net.



Já a palavra ficar ecoa
entre os dentes descerrados
pelas ondas da precisão.

Tardia ficou a querença
desflorada de preconceitos
antítese do cumprimento
onde desagregaram sentidos
num esbanjar impertinente
pela liberdade que cabia ao outro.

É que a minha liberdade total termina
onde começa a do meu semelhante.

Há quem o peça encarecidamente
numa aflição sem limites
por favor ou sem ele.

Com a calma que ressumo
desta forma derradeira
vos suplico:
- fiquem em casa.

É melhor para si
para mim
e para todos os outros.

E se tivermos de desfraldar a bandeira
que seja a da liberdade
entre alegria e sorrisos
fortalecendo a esperança no amanhã
de toda a Humanidade.

António MR Martins

Abril de 2020

terça-feira, 14 de abril de 2020

Sérgio Perez


Sérgio Perez, imagem na net.




Talvez um dia

Só para te dizer
Que o mundo parou
Quando te vi pela primeira vez
Naquele dia de chuva
Na paragem da praia grande.

Os teus olhos perdiam-se
Mergulhados nos neons das casas de penhores
Quando passávamos por Pequim,
A caminho da Flor do Lótus.

Saíste no Dragão Dourado
A ritmo apressado,
Mergulhada na multidão
Que entrava enfeitiçada

Talvez um dia o teu olhar
Perdido nos neons de Pequim,
Me encontre pela Flor do Lótus, 
Antes de chegar à boca do dragão

Sérgio Perez, in “RAEM 20 Anos”, Poema 19, edição Casa de Portugal em Macau, Novembro de 2019.

sábado, 11 de abril de 2020

A certeza de sermos menos que pouco


Imagem na net.



Quando a febre tórrida
se acerca dos corpos sensíveis
sem causa aparente
menor ou maior
os índices de insegurança
atormentam os âmagos
tenuemente vencidos.

Quando o destilar tossico
efervesce o dilema fronteiriço
apregoando sons irritantes
nos limites do desassossego
e funde-se com o desconforto
muscular e anímico.

Quando as nuvens
deixam de ser passageiras
e permanecem peganhosas
abafam os limites respiratórios
desgastando a proeza da vida
sem quaisquer preconceitos.

Quando a espera passa a ser menor
que a partida assegurada 

tudo se desmorona
antecipando todas as eutanásias 
sem relatórios pré-concebidos.  

António MR Martins

Abril de 2020

domingo, 5 de abril de 2020

Yao Feng




Yao Feng, imagem na net.



Em busca da luz

Volta a luz à lâmpada
e de súbito está de novo escuro
quem prende lá fora a falena-da-noite
e a ensina a aceitar a obscuridade?

Depois de um treino sem fim
a falena de asas rasgadas
já não sabe voar
arrasta-se no crepúsculo
rasteja lenta como um caracol
a caminho da luz.

Yao Feng, in “RAEM 20 Anos”, Poema 20, edições Casa de Portugal em Macau, Novembro de 2019.

terça-feira, 31 de março de 2020

Esperança no novo dia


Imagem na net.




Na tosca mania da rejeição
se situa o plano da atitude,
há que permanecer confinado 
deixando as borboletas voar,

também as aves aludem
a esta conformidade assertiva
no seu planar sobre as águas
que revestem a cidade.

A bruma surge amiúde
a cada amanhecer
trazendo novas tristonhas
que as nuvens querem esquecer.

“Ontem, hoje e amanhã”,
como diz a letra da canção
que a esperança nunca falte,
e que o vento traga notícias
que transbordem de emoção,
envolvendo de delícias
o sonho que no imo decalque
o nosso eterno talismã.

António MR Martins

Março de 2020

quinta-feira, 26 de março de 2020

Jorge Arrimar


Jorge Arrimar, imagem na net.




Beber a baía

Bebemos chá
De jasmim
Da colheita mais recente

Quando o calor deixou
De soprar do sul
E as portas foram trancadas
Pelos velhos guardiões

Nessas tardes, as anémonas
Agitavam-se ao largo
E eu, para te acalmar, dava-te
De beber a baía
Com a concha das mãos

Jorge Arrimar, in “RAEM 20 Anos”, Poema 14, edições Casa de Portugal em  Macau, Novembro de 2019.

terça-feira, 24 de março de 2020

Máscara de sabão


Imagem da net.




Envolve-nos um metro
na distância da tranquilidade,
mas nada nos protege deste dilema.

Não podemos definir estratégias
pela transpiração dos póros
neste calor que nos aperta
e abrasa todos os sentidos,
nem as mãos podemos levar aos olhos,
nem limpar os cantos da boca,
enquanto as gotas do suor
caem a espaços de loucura.

Vemos um grupo maior que o nosso duo
a cerca de cinquenta metros,
são mais de vinte humanos
desumanos.

Não há possível fuga ao desespero
porque sempre nos acompanha.

Temos as narinas expostas ao vento, 
as bocas em sobressalto
e os olhos assustados pelo medo,
porque todas as máscaras derreteram,
quiçá feitas de sabão (ph neutro).

Chega-nos o aroma duma farmácia
não concebida
e o álcool em gel é a esperança
para tamanho desvario.

Mas este cheiro a farmácia
jamais será o mesmo!...

António MR Martins

Março de 2020

sábado, 21 de março de 2020

Ondjaki


Ondjaki, imagem na net.



NA FOZ DO RIO KWANZA [26/6/03]

a foz – lugar que te quero mostrar um dia
irmos lá ver as margens e espreitar
os mangais verdes
perto de uma água lisa
bonita de os pássaros e as árvores e as nuvens
se espelharem nela, nessa água bonita
mostrar-te as margens brancas
e uma língua extensa de areia onde
a margem do rio
toca
a alma salgada do mar.

um rio lindo
de se deitar os olhos

kwanza
é o nome dele.

Ondjaki, in “Materiais para confecção de um espanador de tristezas”, página 53, edições Caminho, outras margens, Janeiro de 2009.

quarta-feira, 18 de março de 2020

Rude peleja


Imagem na net.




A paisagem emoldura-se 
de subtis contingências
e as entradas e saídas 
reduzem-se à ínfima contagem

o desalento traz o porvir
da fronteira do desencanto.

Congeminar com destreza
a pertinaz cura
perante o cerco,
que em cadência
se vai impondo,
é necessário.

Há que cuidar
de cada um dos indivíduos
e todos eles
se prontificarem no cuidado
de cada indivíduo isolado.

A rude peleja persistirá
porque o adversário
tem a manha de toda a resistência!...

António MR Martins

Março de 2020 

domingo, 15 de março de 2020

Imperfeição humana


Imagem na net.




Rasam as tábuas do desconforto
e os corpos que nelas se deitam
moldam seus ossos
ao destino do próximo sono,
jamais dormido.

A turbulência da mente
antagoniza o paradigma
da perfeição.

Entre os humanos
ninguém é perfeito.

Nem Trump,
nem Jinping,
nem Marcelo…

nem eu!... 


António MR Martins

Março de 2020

sábado, 14 de março de 2020

Quarentena na praia




Praia de Carcavelos. Foto Diário de Notícias.



O vasilhame transborda
a líquida realidade
pela sui-generis
acumulação de ideias,
espalhando na pele
a cremosa solução de combate
ao maléfico sentido viral.

Os transeuntes da liberdade plena
deleitam-se na praia de Carcavelos.

A areia acolhe as idiotices
transformando-as, 
no tempo morto,
em partículas semelhantes
à pequenez de seus grãos
e a água limpa
as nódoas do sofrimento
do asqueroso mal
pela sua irrequieta ondulação.

O desespero torna-se acalmia
até ao penúltimo momento!...

António MR Martins

Março de 2020

sexta-feira, 13 de março de 2020

Vai haver amanhã


Museu do Amanhã, imagem na net.




As tréguas são blasfémias
à passagem de cada navio
aglutinador.

Tudo passa a ser o centro das atenções
nos cruzeiros inesperados
onde os corpos se esquartejam
lentamente

e o “puzzle” descompleta-se.

A gaiola é a prisão
das aves do sonho

o voo fica pendente
de todos os ventos
da mudança ansiada.

O homem vai sonhando
e o tempo vai avançando.

O dia que segue
é amanhã!...

António MR Martins

Março de 2020