sexta-feira, 12 de fevereiro de 2021

Resistir inabalável

 

Imagem na net.


Pasmem todos os peões deste mundo

sobre a origem do veredicto final.
 
Os ramos das velhas árvores continuam
a ser depenados pelos entusiásticos ventos
tornando sua folhagem fugidia.
 
Somem as vidas desavindas
e muitas mais
de todas as outras.
 
A raiz do medo cresce
e ultrapassa o caule da verticalidade.
 
A segurança é a ténue contingência
da brevidade
e o porvir parece restar inalcançável.
 
O desespero é comum a todas as casas
e as aves do futuro longínquo
partem em debandada.
 
O último fôlego
suspira pela liberdade.
 
 
António MR Martins

sexta-feira, 5 de fevereiro de 2021

Manuel Neto dos Santos

Capa do livro "Sob o Signo de Cibele", 
de Manuel Neto dos Santos 

 

[Palavra-imagem…]

Palavra-imagem… neste estado abstracto,

de um véu subtil, no mais subtil instante…
aponto ao coração para que vos cante
no encantamento de um olhar gaiato.
 
O peso da palavra é que equilibra a voz
num outro peso, a labareda rasgando no deserto
uma alameda de regresso à medula, à simples fibra.
 
Há quem morra pela vida traiçoeira,
não pela morte; num apagar da luz…
 
Morro pela sombra que esta voz seduz;
no cio de uma palavra. Urgente, inteira.
 
Manuel Neto dos Santos, in “Sob o Signo de Cibele”, página 57, edições Modocromia, Dezembro de 2018.
   

quarta-feira, 3 de fevereiro de 2021

Dorida felicidade

 



Imagem na net.


Das fogueiras estalantes

as fagulhas da memória

em enredos pertinentes

ardem intensamente

nas tangentes da saudade.

 

Colorem por instantes

as mágoas da maioria

e os resquícios subjacentes

polvilham animosamente

os conceitos da felicidade.

 

António MR Martins


domingo, 31 de janeiro de 2021

situações complementares

 

Imagem na net.


cada ser humano

é um mundo

por cada caso que se tenha

 

há um passo desencontrado

em cada um de nós

 

valham os profundos sentires

de cada âmago

 

eis a razão fundamental

de cada sobreviver

 

a vida

é a complementaridade

 

 António MR Martins


quinta-feira, 28 de janeiro de 2021

Golo falhado

 


Imagem na net.


Os passageiros deste mundo

acoitam-se no silêncio efervescente

dum confinamento (in)ultrapassável,

como lobos por saciar

uivando atoardas e cumplicidades

por entre devaneios infundados.

 

Nada satisfaz a obediência…

até o avançado falha o golo

com a baliza totalmente aberta.

 

 

António MR Martins


quinta-feira, 21 de janeiro de 2021

Ponto final

 

Imagem na net.


Nesta mesura desencantada

segue a derriça atribulada

das raízes da vida.

 

Um vigarismo constante

impõe metas impossíveis de alcançar.

 

A despreocupação generalizada

preocupa

cada vez mais

o cerne da questão.

 

A decência traça o seu declínio

e a demanda de todas as projecções

ultima a hora derradeira.

 

António MR Martins


domingo, 17 de janeiro de 2021

Maria Dias

 

Capa de "Hoje não te posso abraçar", de Maria Dias.


Viagem em Pensamento

 

Esta é a viagem

que mais gosto de fazer

nem preciso de passagem

e está sempre a acontecer

 

Embarco no passado

e vou onde eu quiser…

sem pressas e sem bagagem

aí visito a minha infância

num calmo e doce reviver

e nem importa a distância

 

Instalo-me no hotel das Estórias

que fica na Rua das Memórias

é um hotel com muitas estrelas,

lindo, mas sem portas nem janelas

 

Perco-me por aqui e por ali

e, quando preciso voltar

trago em mim tudo o que vivi

para uma “estória” contar

 

Agora tenho que ir

para mais uma viagem

- alguém quer vir?

Já sabem

Não é preciso bagagem

 

Maria Dias, in “ Hoje não te posso abraçar”, página 17, edições Boutique da Cultura, Novembro de 2020.


terça-feira, 12 de janeiro de 2021

ultra conformação

 

Imagem da net.


somos o corpo conformado

confinado ao rasteiro esvoaçar das aves

esgotado pelos incompreensíveis largos voos

que não alcançam destinos

e sobrevoam sempre o mesmo local

restando

no eixo da intimidade da derme.

 

António MR Martins


segunda-feira, 11 de janeiro de 2021

Alice Duarte

Capa de "Guardadora de Ecos", de Alice Duarte.

 


PINGO DE SOL

 

Ainda vivem flores na borda da estrada,

rasteiras num abrigo do vento gelado.

Bebem grossas gotas de água

e nelas quase se afogam.

Mas resistem as flores na orla da estrada

no seu amarelo humilde e persistente,

um pingo de sol em chão agreste

um fio de esperança que atravessa os dias

e põe luz desejada no cinza latente.

 

Alice Duarte, in “Guardadora de Ecos”, página 41, Colecção A Água e a Sede, edições Modocromia, Novembro, 2020.



quarta-feira, 6 de janeiro de 2021

Edgardo Xavier

 

Capa do livro "Não pises as formigas", de Edgardo Xavier


DESEJO I

 

Onde não havia estava o corpo

e o corpo queria ouro.

Com vontade fico ferro

quase ouro

quase prata,

carne acesa.

Onde não havia estava o corpo

que pedia ouro e aceitava fogo.

 

Edgardo Xavier, in “Não pises as formigas”, página 49, edições Modocromia, Fevereiro de 2020.  

 

Um grande abraço, meu bom amigo. Desejo de boas melhoras e rápido restabelecimento.


Desencontrada procura

 

Ponte desencontrada. Foto de José Sobral (na net).


Nas fissuras dos meus dedos

ardem desgostos da vida,

salpicados d’alguns medos

causas de tanta ferida.

 

Espalham às contínuas mãos

desesperos do seu sofrer,

repercutindo os senãos

ao apaziguar do viver.

 

Firmes raízes consolidam

as estripes emergentes,

enquanto dermes lidam

com os dedos mais doentes.

 

Mágoa toldada assim

nas rugas vindas da pele,

canteiro sem flores de mim

ínfimo ponto que gele.

 

Áspero sentir do imo

no culminar da saudade,

no verso que ora rimo

que anseia liberdade.

 

António MR Martins   


terça-feira, 22 de dezembro de 2020

Natal 2020

 

Imagem da net.


Constata-se o quebrar contínuo

da (des)união da Humanidade

e a chegada de um capítulo sem luz

vindo de um túnel sem ter fim.

 

Há uma máscara que esconde perfis

e amedronta os diversos olhares

que esconde as amarguras da vida

e sustém todos os cheiros da natureza.

 

Há um gel alcoolizado

que age inusitadamente

como possível emenda

de todas as atitudes incoerentes.

 

Parece que o Natal anterior

já foi há tantos anos…

 

Os corpos e suas mentes desgastam-se

nesta conjuntura do desapoio

e as bocas falantes vociferam opiniões

de amplitude variável.

 

O conceito de que Natal é quando se quiser

também não tem paradeiro nesta vigência.

 

O anseio e a tristeza acorrentam-nos

toda possível liberdade

e há uma lágrima tímida e perdida

que cai na âncora do desespero.

 

António MR Martins


sábado, 19 de dezembro de 2020

Voz dos corvos

 

Imagem da net


Tributo a Sebastião Alba

 

Os corvos pararam por Lisboa

hoje

simbolicamente

são essência brasonada.

Agora param nos campos

na surpresa das manhãs

e voam ao mínimo ruído

crocitando suas mensagens.

As noites podem ser terríveis

mas se a manhã nos acorda

com  o expelir sonoro dos corvos

é porque vamos resistindo.

 

António MR Martins


quinta-feira, 17 de dezembro de 2020

Paulo Assim

 




 [Não te esqueças]


Não te esqueças – dizia-me a minha mãe –

de estender os teus poemas na varanda:

fechados, ganham ferrugem e não soam muito bem aos ouvidos;

fechados, tilintam conforme metais impuros das metalurgias

e têm a cintilação embaciada de zebre das estrelas longínquas.

Fechadas, as palavras amolecem e pegam-se umas nas outras,

tornam-se difíceis de articular, enrolam-se na mecânica

das línguas.

Fechadas, em vez de leres liberdade lês obscuridade

e em vez de leres amor lês bolor.

Eu sei, mãe, eu sei.

As palavras querem-se ao sol.

A poesia quer-se ao vento.

 

Paulo Assim, in “Árvore Genealógica”, página 36, edição Núcleo de Artes e Letras de Fafe / Labirinto, obra vencedora da primeira edição do Prémio de Poesia Soledade Summavielle, instituído pelo Núcleo de Artes e Letras de Fafe, Junho de 2014. 


terça-feira, 15 de dezembro de 2020

Lília Tavares

 



[Temos carinhos arrefecidos nas mãos]

Temos carinhos arrefecidos nas mãos.

Ficamos entorpecidos

quando damos pelos despojos

dos minutos atirados

como amarga casca de fruta.


O sol ultrapassa a janela,

mas insistimos em ver brumas.

Aves cantam nas árvores vizinhas,

contudo é com o mar que privamos.


Fez-se inverno no quarto,

vazio como cela fria e desflorada.


Das flores, que dizer antes que sequem?

As águas de amanhã já são

tardias para esta sede.

 

Lília Tavares, in “a timidez das árvores”, página 90, Colecção Mãos de Semear – Livros Lília Tavares, 1, edições Modocromia, Novembro de 2020.