Na tarefa do rio intenso
onde corre a voz do pranto,
fervor de um caudal extenso
até que se cure o quebranto.
Nuances tingidas de amor
nos corpos intervenientes,
pelos enfeites de tanta dor
irmanando outras correntes.
Entre os pontos quase mortos
e tantas pedras descascadas
que na madrugada rasgam.
Ilusão em vínculos tortos
entre quedas e debandadas
pelo alvor se embriagam.
António MR Martins
quinta-feira, 12 de abril de 2012
quarta-feira, 11 de abril de 2012
Bagagem de vida
a mala desta viajem
tem divisórias sem fim
recantos
onde existem sentimentos
passado
presente
futuro
e afins…
mala bem arrumadinha
onde cabe toda a vida
leva bagagem completa
a tua, a nossa e a minha
num aconchego repleto
de sonhos
aventuras
de momentos
onde o espaço da lonjura
ainda tem lugar certo
cada recanto da mala
tem histórias por contar
já contadas
já vividas
e outras por inventar
segredos
bem escondidinhos
num cantinho
apertadinho
que fazem parte dos sonhos
vividos
imaginados
mas todos arrumadinhos
mala cheia
ou vazia…
idêntico ao que confecionaste
o que viste
o que fizeste
e tudo com que sonhaste
desta passagem etérea
levas
o que recebeste
o que deste
o que sonhaste
e o que dela perdeste
e tudo o que arrumaste
esteja à vista
ou escondida
faz parte do que viveste
é a bagagem da vida…
Ana Claré
Entre a sorte e o azar
O azar bateu à porta
sem nunca ser esperado,
como a natureza morta
se limita ao passado.
O sol tapado pela noite
esfuma sua luz suprema,
da lua leva um açoite
num duo de eterno dilema.
A sorte tem desencanto
na espera de encantar,
a cada recolha do pranto
por tanta sorte ou azar.
A lua brilha pelas noites
pelos conceitos do luar,
ó sol, nunca pernoites
se o teu plano alterar.
E nesta busca do sonho
na sorte sempre a escapar,
tem-se o azar por medonho
sem nunca se querer abraçar.
Do sol ficam luz e calor
da lua brilho e magia,
que prevaleça o amor
pela sorte tão arredia.
António MR Martins
Foto de Kok Mak (Tailândia), by Gonçalo Lobo Pinheiro
terça-feira, 10 de abril de 2012
RIO
Como um rio
as minhas lágrimas
resvalaram
pelo teu peito
nu
escorreram
por entre as tuas pernas
e
desaguaram
num
mar
de
prazer.
Fátima Guimarães
Luta inabalável
Na palidez do teu ânimo
o susto pelo teu sustento,
raiz de tanto desânimo
onde não encontras alento.
Filtras tua imensa procura
pelo registo infundado,
que te causa tanta secura
cada solicitar frustrado.
Nunca te renegas à luta,
pelo suor que já cultivas
e por tudo o que abraças.
Acham-te um filho da puta,
mas fiel nunca te esquivas
e jamais baixas os braços.
António MR Martins
Guilin, na China - Foto de Gonçalo Lobo Pinheiro
sexta-feira, 6 de abril de 2012
FRÁGIL CERTEZA DO AMANHÃ
Agarra a minha mão,
transporta-me a vontade orfã no teu peito
porque eu,
eu sinto o peso insustentável da existência
na incerteza de novos amanheceres
antes refúgios de esperanças ansiadas
agora miragens nas neblinas do presente
Agarra a minha mão,
ensina-me o caminho que desenhas
nos traços das pegadas de um passado
que dá voz aos teus desejos conquistados
porque eu,
eu grito os silêncios que me invadem
na procura da palavra que me enche
na procura da certeza que me escapa
Agarra a minha mão,
ancora em ti a réstea da ideia
que ainda pulsa
debilmente
na frágil certeza de um amanhã ...
João Carlos Esteves
Desfilar da vida
Nasce um começo encanto
num anseio de continuar,
perante todo o espanto
de uma vida a desbravar.
Cresce o corpo e a mente
pelo conhecer permitido,
não há descobrir que atente
entre tanto caso perdido.
Seguindo o trilho, em frente,
por entre rasgos envelhecer
à passagem de tanto ano.
Tendo amor sempre presente
sabendo então reconhecer
que a saudade é desengano.
António MR Martins
foto de Kaunas (Lituânia), by Gonçalo Lobo Pinheiro
quinta-feira, 5 de abril de 2012
SÚPLICA À PRIMAVERA
Abre o manto Primavera
Sobre o chão que me viu nascer
Não negues ao meu coração que espera
as flores ver crescer...
Pede ao sol seu hálito ardente
Que alivie o pensamento sombrio
da sombra que sou
Me faça esquecer o tempo fugente
Que os céus ouçam o eco do meu grito vazio.
E me dê um pouco do brilho que a vida
me tirou.
Primavera que te hospedas no meu peito
Quando a oliveira já ostenta o candeio
Nas horas solitárias já sem jeito
Quando ainda aninho o amor no seio.
Estende-me os braços
Traz-me o calor do sol que fecunda a terra
Reconforta meu coração da tristeza que encerra.
Leva aos ausentes de quem lembro meus abraços.
Primavera faz sonhar quem vive
O pouco que tenho... é pouco é nada!
Traz-me a primavera que já tive
Antes que se renda o dia e eu cansada.
Volte eu a a relembrar e a pousar a vista,
esquecendo os dias de viver já gastos.
Aos anos que passam, não há quem resista!
Não voltarão os sonhos castos
que eram como uma benção ou alento,
e já se dissipam como água que corre.
Não sei se acredito ou se invento
Mas enquanto o coração não morre
sonhar será meu doce entendimento.
Natália Canais Nuno
Correm as águas dos rios
Transcorrem alegres os rios
nas águas em movimento,
entre margens em desvarios
e solos do consentimento.
Carregam as vozes do pranto
nas suas vestes cristalinas,
resguardando seu encanto
no vale de belas colinas.
Caminham tenazes correndo
para um final destinado,
até à foz do seu acolher.
Abraçam não percebendo,
em enlace doce ou salgado,
o porquê daquele receber.
António MR Martins
foto Rio Ceira, Góis, by Gonçalo Lobo Pinheiro
quarta-feira, 4 de abril de 2012
(ÉS O MEU) LIVRO ABERTO
Desfolho-te como seda
Coberta de lantejoulas
Afasto a cortina lentamente
Pedaço a pedaço
Que bom é ler-te
Entre o jardim banhado em mel
E a cascata desnudada
No horizonte da tua sombra
Aragem perfumada de canela
Com pitada de pimenta
Ler-te é cegamente
Aquilo que me alimenta
Nas entranhas do meu ser.
Jessica Neves
O último poema
há um campo
amanhado em mim
entre o silêncio
de cada palavra
terra seca
de queixumes
ora lamacenta
pelas vertidas lágrimas
há uma raiz
sobrevivente
a cada verso
criado e escrito
pelas frases
sortilégio de vidas
e pelas outras
que cantam versos novos
há uma semente
em cada chão
onde
renasce cada palavra
furor
da contenção
ou do apogeu
da liberdade
há um fruto
nascimento vida
na luz
que ilumina o caminho
num tempo
por onde permaneço
e vou registando
cada último poema
António MR Martins
amanhado em mim
entre o silêncio
de cada palavra
terra seca
de queixumes
ora lamacenta
pelas vertidas lágrimas
há uma raiz
sobrevivente
a cada verso
criado e escrito
pelas frases
sortilégio de vidas
e pelas outras
que cantam versos novos
há uma semente
em cada chão
onde
renasce cada palavra
furor
da contenção
ou do apogeu
da liberdade
há um fruto
nascimento vida
na luz
que ilumina o caminho
num tempo
por onde permaneço
e vou registando
cada último poema
António MR Martins
terça-feira, 3 de abril de 2012
UM AMOR QUE SE FOI
Ouço o vento lá fora
A chuva teima em cair
E sozinha no meu quarto
Só me apetece dormir.
Foram dias de desespero
Noites muito mal passadas
Foram dias, foram meses
E muitas lágrimas derramadas.
Sinto falta dos teus beijos
E muito mais dos teus abraços
Sinto falta do teu cheiro
E do teu corpo molhado.
No dia em que partiste
Nunca mais voltei a amar
As janelas estão fechadas
E nunca mais vi o mar.
Se um dia voltares
Estarei aqui para te receber
Com os braços bem abertos
Para deixar de sofrer .
Carla Granja
Troquem-se às voltas ao mundo
Em cerrar de dentes
se enformam
as lutas do dia-a-dia
com a força de cada um
e a lágrima que nos sustenta
perante tanta ironia
Contra ventanias
secas e outros pruridos
metaforizados noutras receitas
dotadas de vis intenções
que nos ferem os corpos sofridos
e o pensamento aturdido
perante o surgir de tantas maleitas
E pela força persistente
discernida de qualquer jeito
batalhando vamos em frente
num sentido assaz profundo
mesmo que de forma dolente
se faça veloz a preceito
este caminhar pelo mundo
alterando o cenário vigente
António MR Martins
segunda-feira, 2 de abril de 2012
A antecipação do inverno
Pressinto-te
num céu descolorido
de neblinas inquieto
pássaro perdido
sem aconchego de galho
folha amachucada
em tarde arrefecida
lábios de beijos apartados
pressinto-te
no limiar do verão
onde o frio já se demora
e a luz adormece de cansaço
dizes que é tarde
cresces para a sombra
como se fosse inverno.
Clara Maria Barata
Pela verdade
A verdade
não é são sentir…
tornando-se banal no seu teor.
O pranto
floresce negritudes inflamadas,
em vazios
sem paralelo,
de plena inquietação.
O rosto,
desencontrado da sua alma…
esquartejada,
regela os condimentos
da sobrevivência sentida.
E a verdade
jamais assentará,
como deveria,
numa textura de perfeição.
António MR Martins
não é são sentir…
tornando-se banal no seu teor.
O pranto
floresce negritudes inflamadas,
em vazios
sem paralelo,
de plena inquietação.
O rosto,
desencontrado da sua alma…
esquartejada,
regela os condimentos
da sobrevivência sentida.
E a verdade
jamais assentará,
como deveria,
numa textura de perfeição.
António MR Martins
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