quarta-feira, 23 de janeiro de 2013

Glosando Gastão Cruz



Mote:

Porque ninguém nos salva de não ser
 Também de ser já nada nos resgata
Não estamos preparados para o nada
Certamente que não para morrer
                                                                                                                     
Gastão Cruz

 

Carambola de vidas

 
Padecemos no seguir da idade
Nas mágoas do nosso permanecer
Más ilusões da felicidade
Porque ninguém nos salva de não ser

Traste é a rude opinião
De quem o faz de forma pirata
Restando denegrir sem contenção
Também de ser já nada nos resgata

Sempre temos ao alcance o infinito
De tanto que é vida e a ela dada
Que se avance de contra o que é dito
Não estamos preparados para o nada

Da luta intensa se faz vida
Que jamais se possa desfalecer
A batalha não seja perdida
Certamente que não para morrer

 
António MR Martins

 
__________________________________________________________
 Mote: Terceira estrofe do poema “Dentro da vida”, da obra “A Moeda do Tempo”, edições Assírio & Alvim, página 26, Lisboa, 2006.

sábado, 19 de janeiro de 2013

BREVE E LEVE






44 - Sandra Nóbrega (Fly)







Desnuda-me este Desejo
Veste-me o corpo de Ti
Sacia-me a sede do Beijo
Agora, já e aqui!

Enleia-me no teu veludo
Numa Valsa de jasmim
O teu amor é o meu Tudo
Teu olhar o meu Jardim

Breve e leve é o verso
Que canta o coração
Nas entrelinhas o Universo
De Amor, Ternura e Paixão

 
Sandra Nóbrega (Fly)



sexta-feira, 18 de janeiro de 2013

Mar, o futuro de Portugal

 
O Mar, visto da Ericeira.
Foto de António MR Martins


Foram os tempos das descobertas nos rumos do conhecimento e da propagação da cultura portuguesa, mundo fora. Tudo começou com o Infante D. Henrique e a sua Escola Náutica, em Sagres, depois foi o navegar efectivo que nos levou às ilhas da Madeira e ao arquipélago dos Açores, mais tarde fomos até Cabo Verde e à Guiné, seguindo-se Angola e Moçambique, vindo a conhecer o algodão e o café, entre outros produtos, e tantos pontos referenciais, até Vasco da Gama descobrir o caminho marítimo para a Índia em 1498, descobrindo o mundo das especiarias e Pedro Álvares Cabral chegar a Terras de Vera Cruz, hoje Brasil, vislumbrando o ouro, dois anos depois. Para além da chegada ao Japão onde Portugal levou a conhecer as armas de fogo, depois de trazer para este pequeno burgo tanta coisa dessa imensidão universal. Tudo magistralmente relatado nessa epopeia poética, “Os Lusíadas”, pela nossa grande referência, o poeta Luís Vaz de Camões, que com os seus registos escritos andou por esses mares, deste enorme planeta.

Os anos foram passando e o mar continuou a ser um tesouro para o mundo português, pela navegabilidade, pelas rotas comerciais e da comunicabilidade, pelas possibilidades que o mesmo proporciona aos povos por ele banhados, no sentido da sua progressão e estabelecimento. É uma mais-valia para uma nação e nesse quadro efectivo terá de se ter em conta, nestes momentos que nos trazem a crise para o nosso interior. Há que saber desbravar este mar que temos, mesmo à mão, com os veículos que temos para esse efeito, no sentido mais profundo e empreendedor da modernidade.

Este mar passou a ser um factor importante de desenvolvimento e de sobrevivência, pelo alimento que nos fornece e sempre forneceu. Mas o turismo que se poderá desenvolver no seu âmbito é um pecúlio que não deverá ser esquecido, tal como as estradas marítimas que ele nos oferece a partir de duas frentes das nossas costas, a litoral e do sul, num sem limite de hipóteses. E os portugueses sempre souberam enaltecê-lo em variados parâmetros, pela escrita (sempre), pela imagem, pelo som e pela interacção plena com o seu conteúdo. Habituamo-nos a viver junto a ele, tendo-o ao nosso lado a abraçar-nos, oferecendo-nos gratuitamente os seus serviços. Há que discernir, quantificar, qualificar, criar, desenvolver, equacionar e ir em frente, neste mar que é nosso e representa uma riqueza incalculável que teremos de saber aproveitar, de forma coerente e inteligente.

Nós sentimos o seu cheiro, nós vivenciamos as suas revoltas e as suas carícias, nós partimos e chegámos nas suas rotas. Foram os portugueses que fizeram a viagem aérea transatlântica, sobrevoando as águas do Atlântico, de Portugal ao Brasil, num projecto de sucesso levado a cabo por Gago Coutinho e Sacadura Cabral. Portugal sempre teve gentes que viveram com, e, do mar, desde os marinheiros que suportaram as maiores, e mais variadas, tormentas até conseguirem conquistar aquilo a que se propuseram, muitas vezes recebendo algumas novidades não consideradas nas suas iniciativas, sempre bem acolhidas, passando pelos pescadores que também lutaram com denodo pela conquista da pesca, e das valiosas colheitas alimentares conseguidas ao longo dos anos, pagando, muitas vezes, com a própria vida para que tal se concretizasse e finalmente pela própria indústria, que o mar permitiu desenvolver, evidenciada pelos estaleiros, pelos portos, pela indústria conserveira e por tantas outras coisas que não vale a pena estar a enumerar, porque reconhecidas generalizadamente.

Todavia, muitas ainda existirão que nos poderão proporcionar deliciosas surpresas, não custa nada tentar. Só teremos de saber aproveitar este enorme manancial que nos rodeia, e que está mesmo ao nosso lado, não esquecendo a voz escrita do poeta: “Por mares nunca dantes navegados…”

 

Isso já fizemos, agora há que procurar novos sentidos para essa navegação, tentando novos êxitos, aqueles que nos permitam conseguir combater esta crise que nos aperta a garganta, o peito e o pensamento. Vamos a isso!


António MR Martins

Texto publicado no suplemento do jornal de língua portuguesa "Hoje Macau", em 23.09.2011, página 14.

se outros mundos houver






43 - António José Cravo







quanto vale um americano?
20 chilenos?
100 árabes?
1000 africanos?

quantos vidas
vale um dólar?

"in god we trust"
pobre deus se existes
para onde te levaram
nada mais que uma moeda
de troca por sangue
com cheiro a fruta, a petróleo

há palavras
que são perigosas
a verdade quando escrita
ainda é mais perigosa

há palavras
que são a carne de um sonho
o esqueleto de uma utopia
a coluna vertebral de uma sociedade

escrevem-nas diariamente com sangue
os povos deste mundo
nas paredes da terra
para que, se outros mundos houver,
se saiba do que aqui se passa

 
António José Cravo


quinta-feira, 17 de janeiro de 2013

Singela porta

 
Alfama (Lisboa), by Gonçalo Lobo Pinheiro.


Aquela porta escondia
o que lá fora se perdia,
receios de não ter mais nada.
Era chegada ou partida,
entre tanta vida perdida,
sem nela ter sua entrada.

Tinha chave bem diferente
que a chave de tanta gente,
para entrar em sua casa.
Só lá entrava quem podia
e nunca quem isso queria,
por aquela porta tão rasa.

Sua textura de madeira,
aberta da mesma maneira
que uma outra porta qualquer.
Lá dentro o conforto quente
num aconchego permanente
pelo abraço duma mulher.

Só ele tinha chave dela
e lhe abria a janela
tendo o sol no seu esplendor.
À noite olhava pr’a lua
e a ela na cama nua,
naquele doce ninho d’amor.

 
António MR Martins

POEMA LXXXVII





42 - Joaquim Pessoa







É um gato, é um galo, é galinha, é assim
uma espécie de coisa de nada, nadinha, é um golo anulado,
é um fado, uma fada, uma fala, uma fila de espera.
É tudo, afinal, o que queres, o que ainda souberes e puderes ver.
Não te sintas assim, nem assado, nem coisa nenhuma,
quando rompe a manhã e te irrompe o desejo
de ensaiar um truque com teus dedos. Fazer desaparecer
as tuas mãos. Mas não vá, vê lá!, o ensaio falhar
e por aí andarem a agarrar, a roubar, a empurrar, a seduzir,
ou até a rezar, as tuas mãos. Vão ter saudades tuas,
vão querer voltar à pátria do teu corpo, frias, nuas,
como um casal de emigrantes que regressa. Ora essa!,
dirás, por onde andarão as minhas duas mãos?
as minhas duras mães,
as que pariram coisas, muitas coisas, muitos medos,
as que fecharam cofres, as que abriram segredos,
assinaram papéis, exibiram anéis, lacraram a esperança
e numa dança, num bailado a que não resiste a própria pele,
cavaram a diferença, somaram a doença,
vestiram de obsessão o pedregulho
rolado para o pátio da sentença e do orgulho.
E então é uma fera, é uma faca, é uma força, uma corça
que escapa e que foge da forca e da fera e da faca
e se encontra contigo e se torna ameaça aos teus pés,
tu quem és
num país que se esquiva, e te obriga, e te esquece de vez?
És o caso, és o caco, és a caça, és a casa encantada,
uma espécie de corpo, e de coisa de nada,
nadinha,
és a espinha, és um golo anulado
de uma falsa vitória, uma cruz na memória, uma cruz do império
dos teus cinco sentidos, dos teus sempre atrevidos momentos
que a coragem desterra, sete anões, sete iões, sete ventos,
sete palmos de terra. Quando o teu sofrimento
determina o momento
em que a paz faz a guerra.

 
Joaquim Pessoa

quarta-feira, 16 de janeiro de 2013

Justiça injusta (republicado)


Nesta segurança escondida
pelas leis de tanto desconforto,
a sociedade fica perdida
e o mundo parece mais torto.

A impunidade se remenda
a injustiça é muito feroz,
e o crime não mais tem emenda
vendo o viver tornar-se atroz.

Julguem então todos os culpados,
que paguem pelos seus negros erros
de forma justa e verdadeira.

Defendam assim os maltratados,
não façam apressar seus enterros
desta maneira assaz ligeira.


 
António MR Martins

Antecipação






41 - Teresa Brinco de Oliveira





espera. não vás.
deixa-me acordar-me
para que te diga que há palavras
que não têm a cor das flores
nem dos sóis.
há palavras que têm a cor da minha mão
do meu sorriso
do olhar que te espreita de soslaio
e que na cumplicidade nos une
com um laço cuja morte não desata.

antes que seja tarde
e que a noite ensombre as páginas do teu rosto
deixa-me despertar
e espera que a palavra Amor
apareça sibilada no teu ouvido.

 
Teresa Brinco de Oliveira

in livro “O Riso Rasgado do Tempo”, página 31, edições Edita-Me, Porto, 2011.


terça-feira, 15 de janeiro de 2013

Doentio orgulho



Me arrepiam demais os sentidos
na bestialidade orgulhosa
que impera entre os desavindos
e em tanta gente assaz manhosa

Reservam-se por outros condimentos
enchendo seus peitos a qualquer jeito
ultrapassando todos nos proventos
não vendo em si único defeito

Simulam coragem mais que suprema
olhando o alto com tanto rigor
sublimam os contornos do sistema
que lhes faz ecos de tamanho valor

Renegam p’ra sempre a humildade
e tantos dos valores bem humanos
avaliando a felicidade
como orgulho de tantos enganos

 
António MR Martins

À LUZ DA BOCA






40 - Joaquim Monteiro







A luz insinua-se como um pássaro
Voando sobre as palavras ausentes
Juntando no voo as partículas do silêncio.

Lentamente procura o verde o corpo presente
À distância dum leve bater de asas

E a luz brilha por entre as fendas verdes
Como um sopro muito íntimo
Movimentando as ancas da mulher jovem
Como dança muito suave sobre pétalas.

O aroma do pão fresco ilumina os sentidos
Abre os poros da jovem ave pousada
No parapeito do desejo floral.

Todo o mel se derrama à luz da boca
A claridade desinibe a pele mais tímida
E a manhã começa como se o espaço
Ouvisse o rumor das abelhas no sangue.

 
Joaquim Monteiro

segunda-feira, 14 de janeiro de 2013

Quando

 
Lituânia, by Gonçalo Lobo Pinheiro.


Quando uma flor desperta
Pelo canteiro do teu olhar
É como janela aberta
Podendo o mundo abraçar

Quando teu sorriso mina
Por entre a força do vento
Logo tudo se contamina
No brilho de tanto provento

Quando tua voz se revela
Por entre colinas e montes
Surge teu cheiro a canela
Entre todos os horizontes

Quando abraçar consiste
De um apertar consolador
Tudo pela vida resiste
Desanuviando tanta dor

Quando segredo sonega
Pela origem do seu valor
Será modelo estratega
Ou singelo gesto de amor

Quando ficamos entre nós
Pelo mais sublimado sentir
Vemos o rio indo p’ra foz
Salpicos de chegar e partir

Quando ficamos serenos
Por essa foz que nos acolhe
Muitas vezes nos entretemos
Alheios ao frio que nos tolhe

Se adormeces a meu lado
E ficas dormindo sonhando
Em noite de céu estrelado
Num sonho que dura… Quando?!...

 
António MR Martins

ANTES DA TEMPESTADE





39 - Joaquim Alves







Entrei por estes
caminhos afáveis

sílaba a sílaba
antes de haver alfabeto

ou conhecer todas
as notas musicais

entrei nos caminhos da alegria
antes de adivinhar
a tempestade

e vez mais te juro
sem jurar querer

prometi encontrar-te
no caminho

 
Joaquim Alves


domingo, 13 de janeiro de 2013

Pertinaz desígnio

 
Imagem da net, em: simeylopes.blogspot.com
"Entre espelhoe e janelas"



reparo em ti
pela fresta
da janela semiaberta

fixo-me
nessa visão
real e arrebatadora

não há palavras
que decorem teu semblante
nem a aragem descoberta

interiorizei
aquela talvez miragem
ou paisagem sonhadora

e assim te fixei
mas nunca te direi


António MR Martins

ESPERA, ESTOU-TE AMANDO!...





38 - Acácio Costa








Esse teu olhar, azul estrelado
Com que tu me fitaste, de relance,
Pareceu-me de alguém apaixonado
No mais querido e forte romance.

Meus olhos fecharam-se, por momentos,
E partiram, partiram, procurando
Por entre etéreos e cálidos sentimentos,
Vendo-te nua, sempre desejando.

Puxei do lenço branco que tinha à mão
Gritei umas palavras, gaguejando,
Sentindo queimarem no meu coração!...

Corri para ti, sempre te chamando,
Gritando bem alto e com emoção:
- Espera, amor, eu estou-te amando!...

 
© Acácio Costa

sábado, 12 de janeiro de 2013

Ao correr das águas

 
Rio Ceira, by Gonçalo Lobo Pinheiro.


Na redundância daquele açude
impera a sôfrega imprudência
entre as suas espumosas águas

As cascatas ali se espelham
em preâmbulos nostálgicos
e ânsias salivantes
num pleno contraste efémero
por onde caminham as tendências

O leito inconsolável
alberga a artimanha da corrente
num percurso flamejante

Naquele açude
se ultima tanta filtragem
onde os detritos se desconsolam
pelos conceitos da imensidão

A água
essa segue correndo

Até que possa fazê-lo

 
António MR Martins