terça-feira, 4 de fevereiro de 2020

embaraçosa utopia


Imagem na net.




há uma exponente claridade
entre as brechas
da contemplação inesperada


uma esfera colorida
iluminada
e perturbante
mas inédita ao olhar


o observar culmina
num vislumbre incomparável
mas belo
simplesmente


um desnudar
sem limites
um paralelismo
sem paralelo
um desfecho
impensável
uma luz inconcebível


a plenitude
passou por aqui


António MR Martins

sexta-feira, 31 de janeiro de 2020

Fernanda Dias


Fernanda Dias, imagem na net.




[Nada se compara à rosa musgosa]


Nada se compara à rosa musgosa
nem jades nem sedas nem perfume
fazem sombra à sua cor e aroma
mais que o veludo a cor me acaricia
da pétala a pequena forma enigmática
traz-me à memória uma ponta de flecha
uma abelha de bronze fina e heráldica


Centifólia que nada sabes de ti mesma
e me arrebatas os sentidos
é pelos espinhos que me assombras
pelas armas aceradas que ostentas
é que és simétrica ao pacífico lótus




Fernanda Dias, in “O Mapa Esquivo”, IV – Caderno de flora urbana, pág. 111, edições Livros do Oriente, Macau, Abril de 2016.

sexta-feira, 24 de janeiro de 2020

Henrique Levy


Henrique Levy, foto de Dulce Gonçalves.




Canção


se nós trocarmos beijos
numa noite de filigrana
e os teus passos se prenderem
aos doces beijos divinos
meus lábios os escondem
em uma arquinha de cristal
lado sul do corpo
todo, todo em catedral
se tu meu anjo beijasses
as folhas todas do outono
eu em árvore morreria
de tanto, tanto abandono
neste jardim há lugar
para todos os tesouros
vem amor em mim buscar
as pratas os diamantes os ouros.


Henrique Levy, in “RAEM 20 Anos”, Poema 13, ilustrado por Patrícia Mouzinho, edição Casa de Portugal em Macau, Novembro de 2019.

sábado, 18 de janeiro de 2020

Cena fugaz


Imagem da net.



Como incomodava
aquele olhar, 
perante a ténue luz
que acendia a noite.


A espera parecia programada
e os sabores imaginários 
interpretavam a permitida espera.


A sede era irrelevante.


O suspirar anunciava-se
a cada presença lúcida
daquele inquietante olhar,
que tanto incomodava.


Então 
a palavra escondeu-se
entre os subtis verdes versos
dum poema
que não se escreveu.


António MR Martins

quarta-feira, 15 de janeiro de 2020

Fernando Sales Lopes


Francisco Sales Lopes. Foto de António Mil-Homens


Pescador de margem

Ah quem me dera
estar aí
ter um rio
só para mim
Lentamente 
armar a rede 
e içar a esperança
Firme
sem estar em terra
Estendido na água
sem andar à deriva
E viver!
De costas voltadas
como tu


Fernando Sales Lopes, in “RAEM 20 Anos” (livro + cd), Poema 11, edições Casa de
Portugal em Macau, Novembro de 2019.

quarta-feira, 8 de janeiro de 2020

Página em branco


Imagem na net.




Derrapei nas palavras esquecidas
que hoje não se soltam do meu peito,
na cabeça só me surgem as sofridas
e não me inspiram do mesmo jeito.


Sem enredo que possa desenvolver
nesta branca estagnadora da mente,
filtro dum vazio que não sei percorrer
no íntimo de mim que nada pressente.


Perguntas ligeiras sem ter respostas
versos figurativos sem ter teor…
percursos furtivos nas suas apostas.


Anseios esfumados pelo dissabor,
entre as dores de pernas ou costas,
página em branco sem qualquer sabor.


António MR Martins

sábado, 28 de dezembro de 2019

Tenho-te em mim, Lisboa


Praça do Comércio, Lisboa. Foto de António Martins.




Renovo 
as lembranças esquecidas
de um tempo esfumado
desde que te tenho.


Em ti nasci
como remessa numérica,
restolho do que não presta
entre tanta máfia escondida.


Foste
certeza ou descoberta,
aliança premeditada,
berço do meu sentido,
agasalho do meu primeiro choro.


Não sei se te reconheça
ou te esqueça para sempre,
mas sei que algo me resta:
- Tenho-te em mim!



António MR Martins

quinta-feira, 26 de dezembro de 2019

Carlos André


Carlos André, imagem da net.




Largo do Lilau


Casas, largo, sombras, cores,
árvore alçada no meio,
tudo olho, tudo leio,
por ver se guardam sabores
a sementes de centeio


que sobraram da viagem,
pão de trigo, pão de amores,
ali escondido nas flores
ou nos becos desta aragem
que cicia mil odores.


E busco também a fonte,
Entre a sede e a lembrança,
com um sorriso de esperança,
que Lilau, ao rés do monte,
é certeza que não cansa,


é sobra de vento, galera,
caravela na bonança,
afago de quem alcança
por mor de quem desespera,
no porto da segurança.


Pelas pedras da calçada,
pelos bancos de jardim,
sob o olhar do Mandarim,
Lilau é hora pousada,
não é começo nem fim;


é lugar e não lugar,
como quem não espera nada;
é praça despovoada
que Lilau, no seu vagar,
é história desembarcada.


Carlos André, in “RAEM 20 Anos”, Poema 5, edições Casa de Portugal em Macau, Novembro 2019.

sábado, 21 de dezembro de 2019

António Correia


António Correia




Mudanças



Muda o tempo, conforme as estações:

faz sol ou chove, está calor ou frio;

sobre a noite, sucede sempre o dia…

E, em mim, mudam também as emoções…



A um tempo, me alegro ou entristeço,

com as coisas mais simples e banais…

O meu humor tem variações tais

que não entendo, nem sequer mereço…



Se sou filho do sol, não quero o vento,

nem a chuva ou borrasca; quero a luz,

essa luz que alumia e nos conduz

ao Nirvana que, em nós, é pensamento…



Ser e não ser, ausência de tudo…

Mas, até lá, a via é bem estreita

e em todo o lado o mal é que espreita,

se o nosso anjo bom dorme ou fica mudo…



Se a emoção muda, certamente eu não,

porque vivo da essência do poema,

face e reverso do eterno tema:

o amor por tudo o que há na Criação!



António Correia, in “Minha Raiz”, página 128, edições Proart&Letra, 2010.      

quinta-feira, 19 de dezembro de 2019

Noites de Dezembro em Ansião


Imagem da net.





O verso fecha-se

à uma da madrugada

enquanto lá fora o gato mia

intrépidas sonoridades

de consecutivo alarido.



O vento descarta

seu esbracejar empolgante

e os silêncios deixam de se manifestar

por entre o usurpador movimento

da tempestade.



A chuva tomba a cântaros

ou a barris ou contentores

que inundam a terra

até ao nível do solo que a sustenta.



As luzes apagam-se em cada casa

e os seus moradores

recolhem avidamente aos seus leitos

aconchegando-se entre lençóis e mantas

e silenciando-se ante o alto ruído que soa em seu redor.



Nas suas preces madrugadoras

anseiam a espera da próxima manhã

e que ela traga o amainar deste enorme prurido.



António MR Martins

quarta-feira, 4 de dezembro de 2019

Catarina Domingues


Catarina Domingues, imagem da net.



inversão

flor de pedra
lótus sem chão
um peixe sem laranja
e a cidade corre acordada
é um templo sem ideias.

estou virada do avesso
palmas das mãos erguidas na terra
pés enterrados ao vento
e a torre invertida
um sino pousado no chão.

o meu amor tem uma floresta
no lugar do coração
desceu-lhe o céu à ponta dos dedos
fugiu-lhe pela boca a coisa errada
e entre o templo e a torre
o meu corpo meio morto.

fim de tarde
de um banco sem gente
corre a lua em mármore
nada o peixe sem cor
e a cidade acordada
ainda sem ideias.

Catarina Domingues, in “RAEM 20 anos”, poema 9, edição e coordenação Casa de Portugal em Macau, patrocínio Fundação Macau, Novembro 2019.  

sábado, 30 de novembro de 2019

Há silêncio entre as vozes


Imagem na net.




Corta-se o silêncio
da voz inquieta
augurando
rancores intrometidos
acomodados pelo tempo.

Esvoaça o grito
pelos trilhos da glória
onde o vento é dono
de todos os percalços
inundando
o aroma silvestre
de agudizados tremores.

Caem as folhas secas
do mito
cruzando-se decepadas
no tempo desencontrado
de todas as palavras.

Sucumbem os mortos
com os vivos a seu lado
num percurso alado
onde a saliva silencia
o defeito da voz pendente
pela rouquidão descrente
no receio de tanta demora.


António MR Martins

quinta-feira, 14 de novembro de 2019

Cidade desamparada


Imagem da net.




Caem as rimas falhadas
nas ruas do sem fim
e nos becos perdidos sem luz.

Os recantos escondidos
esbanjam o silêncio das noites
e os números de todas as portas
turvam-se nas madrugadas
do degredo.

A cidade fria esvazia-se
e só
fica totalmente desamparada.

Vão gemendo os carros do lixo,
mas não conseguem amparar o declínio
apesar de aturdirem toda a intimidade
onde se sagra a nudez explícita
e a envolvência de todos os corpos
ou, então, o simples bafejar sonolento
de todos os outros anseios.

A solidez empertiga-se
e o desamparo torna-se conveniente
a todas as conjecturas
mais desesperadas.

Ao dealbar surgem
outros conceitos
outras virtudes
e a esperança volta a renascer.

António MR Martins

quarta-feira, 13 de novembro de 2019

Ana Paula Lavado


Ana Paula Lavado, imagem da net.





A VERDADE DA MENTIRA

Como é espantosa a mente humana
capaz de grandes feitos e invenções
deste o fogo à penicilina
do LSD, à estricnina
até à bomba de neutrões!

Até houve quem inventasse o sol
a chuva, o raio e o trovão
o mar, os rios e as cores
a terra, as plantas e as flores
e ainda a polinização!

Tudo se inventa, tudo se transforma
nem a verdade foge ao achamento.
Aos gestos moldam-se os tons
às letras alteram-se os sons
e temos a mentira como invento!

Ana Paula Lavado, in “Mentes Perversas e outras conversas”, página 30, edições Edium Editores.  

quarta-feira, 6 de novembro de 2019

Sophia de Mello Breyner Andresen, nasceu há 100 anos, no Porto


Sophia de Mello Breyner Andresen, imagem da net.





Tua voz

a Sophia de Mello Breyner Andresen,
no dia em que se comemoram 100 anos do seu nascimento.


São teus versos
o canto agridoce da liberdade
e o encanto da profunda
razão de cada ser.

O ânimo indelével
da consistência da voz
e a luta permanente
pela veracidade da palavra.

O aparelho deslumbrante
da límpida sapiência
e o foco persistente
de qualquer guarida.

António MR Martins
(in “Sob Epígrafe – Tributo a Sophia de Mello Breyner Andresen”), no ano em que se assinalam os 100 anos sobre o seu nascimento), uma edição da Temas Originais.