segunda-feira, 14 de fevereiro de 2011

Pátio da minha vida

No pátio da minha vida…
encontrei um realismo,
em vertente companheira.
Emenda de vários percalços,
sintonia de um prosseguir
em realização em comum.

No pátio da minha vida…
aboli todo o fanatismo,
de carismas doentios
e de enredos matreiros,
num agradável fluir
sem fomentar a guerrilha.

No pátio da minha vida…
traduzi a felicidade
pelo discernir valioso,
fomentado pela verdade,
onde não há armadilhas
nos seus próprios caminhos.

No pátio da minha vida…
existe um aroma profundo,
que me invade o interior
com todo o seu fragor,
ditando expoentes máximos
reflectidos pelo amor.

No pátio da nossa vida…
há uma coesa aliança
de onde irradiam valores,
como risos de criança,
moldando todos os gestos
em delícias existenciais.

Neste pátio que é o nosso,
por onde a vida transita
e nossos seres se unem,
sublimam-se os clamores,
pelos tempos acarinhados,
em que o nosso tempo se fez!...

António MR Martins

Dia de S. Valentim
2011.02.14

imagem extraída da net

sexta-feira, 11 de fevereiro de 2011

Mondadeira do Mondego

Mondadeira de mãos doces…

Embarca os teus sonhos
De terra molhada,
Na sede das águas…
Solta as velas,
Que guiam o teu corpo,
No perfume das marés.
Entrega ao Mondego
As cantigas da tua pátria
Que os lábios beijam,
No voo das andorinhas.

Mondadeira de mãos doces…

Agarra a pressa do vento
Por entre o abraço das espigas,
Que preenchem os arrozais.
Dança na luz,
Que te adoça a pele.
O teu chapéu de abas
É como um malmequer
Com pétalas de Sol,
Onde as libélulas vêm pousar
Para escutarem o teu riso.

Mondadeira de mãos doces…

Os braços que embalam
Os filhos do teu ventre
São os mesmos
Que, em ternura, se abrem
Aos arrozais infinitos.
E o campos,
Pintados de verde e ouro,
Guardam os segredos
Dos teus pés descalços,
Felizes, a sangrarem.

Mondadeira de mãos doces…

Quando a noite chegar,
Descansa o gume da tua foice
Sobre as marachas em flor
E enche os olhos de céu.
No silêncio das marinhas,
As estrelas misturam-se
Com as raízes do arroz
E os versos do teu canto
Arrebatam fios de luar
À nostalgia do Mondego…

Lurdes Breda

Essa tua luz

Sempre existe
uma luz que nos abriga
para além de todas as origens.

Uma luz que nos afaga
e acarinha,
na sua permanência contínua.

É como…
um despertar para o sentido,
o aviso para todo o perigo,
um abraço que nos enternece,
o expoente de uma vida…
a felicidade que acontece!

Uma luz que não se explica
nem se consegue vislumbrar,
um tecido de pura seda,
uma melodia de encantar,
um sorriso na alegria
ou uma lágrima para meditar.

É o veículo da mente
que nos leva ao interior,
onde mora o coração.
É o iluminar persistente
que não nos faz favor,
mas nos leva à solução.

Essa luz sempre existe
e nos ladeia com ternura,
ela labuta e tanto persiste
com tenacidade e doçura.

Existe essa luz,
eu sei!...
Ela vem de ti, amor!

António MR Martins

imagem in http://www.luzcristica.com/blog/, na net

quinta-feira, 10 de fevereiro de 2011

O autor, Luís Ferreira, e a Temas Originais têm o prazer de o convidar a estar presente na sessão de apresentação do livro “Rosas & Espinhos” a ter lugar na Biblioteca Municipal Camões, sita no Largo do Calhariz, 17, em Lisboa, no próximo dia 12 de Fevereiro, pelas 15h30.

Obra e autor serão apresentados pelo poeta António MR Martins.




Pois é!...

Lá vou estar a apresentar esta belíssima obra de um grande autor, Luís Ferreira.
O Luís escreve aqui o amor, como poucos. Mas não é só do amor que o livro fala.

Venha conhecer o autor e ter a oportunidade de interagir com um excelente livro, podendo adquiri-lo e conseguir o referencial, e sempre desejado, autógrafo do autor.

Apareçam! Só têm a ganhar com isso!

segunda-feira, 7 de fevereiro de 2011

Aparecimento de Cristo à Virgem

Não penses que morri por ter partido
ou que parti só por ter morrido.
Onde estive não estive e onde estou
não estive nunca. Não penses que me vês
só por me veres, ou que por não me veres
eu não existo. Nem penses que existo
se me vires, ou mesmo que existes
por me veres. Não penses que me amas
porque amas o que os teus sentidos
de mim sentem. Nem penses que me sentes
ou me amas só porque me sentiste e amaste.
Não somos nada e tudo somos sempre,
embora sempre eterna seja a eternidade
e a nossa eternidade não exista.

Amadeu Baptista

in livro "Paixão" (Prémio Vítor Matos e Sá, da Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra, 2001 e Prémio Teixeira de Pascoaes, 2004), Porto, Afrontamento, 2003

Intempérie de conceitos

O seixo rodava
A partir de uma das suas pontas
Quando a intempérie
Se desvaneceu

Existe um plano delineado

Sem perspectiva
Para ser aplicado

Sortilégio
De outra alternativa
Sempre adiada

No retorno
Se referem todas as circunstâncias

Entretanto
O seixo se aquietou

Em contraposição

A intempérie
Brusca
Regressou com toda pujança


António MR Martins

sexta-feira, 4 de fevereiro de 2011

Epicentro

Funde-te na luz
que já não alcançámos
nos ângulos agudos, que nos afastam
ligeiramente do hemisfério.

Da plenitude do núcleo
onde as nossas formas, se extinguem
na matéria decomposta
com que preenchemos o vazio,
onde as pernas se movimenta
sem atingirem qualquer destino.

[qualquer pássaro será mais livre
do que a pena que nos agasalha]

Sinto um fio de friozinho,
um fio tão leve
como aquele que guardo,
na circunferência
onde a recta acaba.

Conceição Bernardino

Sublime orquestração

Geram-se diluídas melodias
entre instrumentos sortidos,
onde se restauram as emoções.
Delas se eliminam as charadas
e todos os ineficazes refrãos
na variante de tantas opiniões.

O maestro se incorpora
no sentido da sua orquestra
e de todos os componentes.
Na saúde todos se arvoram
como cúmplices da batuta
que ordena os mais salientes.

Emerge o primeiro som
e logo os outros se seguem,
em crescente apoteose,
numa empatia exemplar.
Ouve-se o sopro elementar
e as cordas dão sua dose.

Vem dolente a repercussão,
de seguida com mais força
os ingredientes de toda a acção.
Mexe os braços o maestro
num orientar bem escorreito,
aprofundando subtil exibição.

Segue em ambiente festivo,
pelos aplausos que sentem
o seguimento de cada pauta.
Rejubilam todos os sentidos,
naquela orquestração ouvida
até ao último toque da flauta.

Eis a interpretação que finda
no som do silêncio musical.
Resta uma ovação ruidosa
e a orquestra se põe de pé
em agradecimento plural,
por partitura assaz garbosa.

É esta a bela orquestração
de um tempo intemporal
e da música que nós temos.
A vida não tem só rosas
nem o verso é sempre igual
por aquilo que todos lemos.

António MR Martins

imagem in http://the-dancoleons.blogspot.com/2009/03/educacao.html, na net

quarta-feira, 2 de fevereiro de 2011

RIA DE AVEIRO

Já não era mais a infância
ou o que dela às vezes resta
quando a palavra é saudade.

Já não era mais, ou apenas, a ria
de cor sempre fundida ao céu
as algas elevando-se como cabelos
despenteados ao movimento das marés.

Já não era também a ronca
quero dizer, o som sincopado do farol
nas noites em que os barcos se perdem
no profundo mistério do nevoeiro
e não há luz nem norte.

Já não era, por último, só a nortada
o vento cortante que eleva a areia
ou as ondas poderosas que nos fazem deter
porque, subitamente, o futuro acontecia
quente, alegre, tranquilo de memórias
trazido aos braços pela tua presença.

Pedro Strecht

in livro "Ternura", Lisboa 2004, página 12

Lábios da influência

Nos lábios do encanto
se encerra o extasiar que embriaga
todas as fontes de qualquer sentir.

Há um beijo a chegar,
ansiando pela boca
e pelo expectante contacto do seu eclodir.

Corre uma melodia suprema
que se envolve nas constâncias
de todos os desejos.

Os lapsos são imprudentes
e de todo incompatíveis
com aquele majestoso desfraldar.

Há a margem
de todos os sentidos
como êxtase de todo o consolidar.

E os lábios unidos aguardam
a plenitude de um gesto
que os faça aconchegar.

Eis que chega
o sublime momento,
sem quaisquer compensações.

É a união
que se complementa,
no fragor exímio de ambas as peles.

António MR Martins

imagem in Banana Stock - RF Royalty Free, na net

sexta-feira, 28 de janeiro de 2011

Urgentemente

É urgente o Amor,
É urgente um barco no mar.

É urgente destruir certas palavras
ódio, solidão e crueldade,
alguns lamentos,
muitas espadas.

É urgente inventar alegria,
multiplicar os beijos, as searas,
é urgente descobrir rosas e rios
e manhãs claras.

Cai o silêncio nos ombros,
e a luz impura até doer.
É urgente o amor,
É urgente permanecer.

Eugénio de Andrade

quinta-feira, 27 de janeiro de 2011

Vento cortante

Sopra o vento cortante
Neste duro e frio Inverno

Sopra por ente um sol constante
Que não torna o ambiente mais terno

O céu está azul relevante
E nos envolve neste fluir externo

É Janeiro mês penetrante
Nesta raiz nascida do foro interno

Sopra o vento amiúde
Em rajadas de valentia
Ele nos trata da saúde
Sem recurso a terapia

Nos olhos provoca a lágrima
Pelo frio que já não toleram
Quando a Primavera aproxima
Do desejo que todos esperam

Sopra o vento cortante
Neste duro e frio Inverno


António MR Martins

imagem in http://polen.blogs.sapo.pt/arquivo/2003_12.html, na net

quarta-feira, 26 de janeiro de 2011

O Grito

Tenho o grito preso na garganta,
Cravado no peito
Que inflama de dor.

Criei um mundo imaginário,
Tão meu, tão nosso,
Tão perfeito.

Ruiu no grito
Que não dei,
Rolou na lágrima
Que chorei
E ficou ali...

Cravado no peito!

Vera Sousa Silva

o quintal da alegria

no quintal
da enorme esperança
vive a alegria da criança

salta
corre
pula
e dança

é a festa
em seu redor

são correrias constantes
do nascer ao sol pôr
que quando chega a noitinha
dorme feliz sossegadinha

voa então
em seus sonhos
com brincadeiras de magia

para de manhã acordar
e correr para o quintal da alegria


António MR Martins

imagem  de RF Royalty Free, na net

terça-feira, 25 de janeiro de 2011

Relógio do tempo das palavras

As palavras não morrem.
As palavras vivem do tempo que a caneta leva a desenhá-las.
As palavras parecem letras batidas,
vivem para nunca serem esquecidas.

As palavras carregam a emoção contida
das vidas e das conversas,
dos anseios e dos receios.
As palavras brilham,
as palavras mimam,
as palavras fazem sonhar que as palavras são capazes de amar!

As palavras não morrem.
As palavras não envelhecem,
nem se enchem do pó da terra.
As palavras perpetuam os homens,
e a vida... bem, a vida pode ser um conjunto de palavras unidas.
As palavras vivas habitam no relógio do tempo e
eu, eu, apenas gosto de brincar com as palavras porque o meu relógio de vida não é relógio de tempo.

Ana Lopes