domingo, 3 de abril de 2016

Luís Altério





[se volta e meia penso no dia]

se volta e meia penso no dia?
- penso, penso…
o que ele,
o dia,
exerce em mim
para o temer?
- não sei, não sei…
o que sei é
que é minha tarefa
pensar no dia.

Luís Altério, in “Coisa em terceto de assim e Essa cisma que é o dia”, n.º 16, da série “mínima”, página 26, edições Temas Originais, 2016.

A tua diferença é um poema





Levo do teu sorriso
uma simples estrela
cheia de brilho persistente.

Levo da tua voz
um desabafo
com doçura inteligente.

Levo dos teus gestos
a plena determinação
dum afago permanente.

Levo do teu abraço
a singela razão
de uma semente diferente.

António MR Martins

terça-feira, 29 de março de 2016

Edgardo Xavier






8

Lisboa
Reflexo doce do Tejo
caminho de luz coada
de encontros
com água
azul
e pedras da calçada

Gente e brumas
cheiros e mágoas
lágrimas de um tempo que se esgota
penoso
quando nos afastamos
e nos esquecemos
de amores
barcos
e gaivotas

Edgardo Xavier, in “Lisboa”, série mínima”, n.º 5, página 12, edições Temas Originais, 2015.  

Dá-me um beijo





Como uma folha
tomba da árvore desnudada
tocando os ramos
empobrecidos
até chegar ao silêncio do chão,
dá-me um beijo!...

e quando outra folha
desponta no mesmo ramo
de semelhante árvore
trazendo a companhia de nova vida
e o florescer de outra estação,
dá-me um beijo!...

e se uma ave
poisa de mansinho
no ramo que a acolhe
no consentimento da árvore
perante a magia da pura alegria,
dá-me um beijo!...

se uma nova manhã
renasce no novo dia
difundindo a claridade
perante o florir dos campos
e o perfume de todas as árvores,
dá-me um beijo!...

dá-me um beijo
durante a tarde soalheira
na noite mais invernosa
na manhã primaveril
durante as madrugadas
de todas as nossas noites de loucura.

Dá-me um beijo
a qualquer hora
de todo o tempo da nossa espera
e da ansiedade terna da nossa vida.

António MR Martins   
 
 Dia de S. Valentim, 14 de Fevereiro de 2016                                     

quarta-feira, 23 de março de 2016

Alvaro Giesta






[O arado sulca a terra]

O arado sulca a terra…
rasga-a,
mergulha no vazio
lavra a lavra
neste espaço em branco do silêncio;

a enxada a cava e a prepara
para a água a ferir com seu sémen,
para a colheita da palavra

No ventre prenhe da terra
a semente em ânsias por nascer
e ser árvore

Em demanda do azul,
o novo sol

Da convexidade do ventre convexo
nascem amplos os horizontes
que respiram na junção da terra ao corpo

A palavra se faz poema!

Alvaro Giesta, in “ Um Arbusto no Olhar”, página 27, edições Calçada das Letras, Outubro de 2014.

miragens





sinto faltas e vazios, em mim.

vejo-me num contínuo debruçar
para o abismo existencial.

pedaços de meu corpo,
adormecidos,
se perdem na sua dormência.

sinto profundos cortes da carne,
donde tentaram tirar o mal
com que me deito,
pela raiz.

mas tudo parece ser em vão
embora a esperança
seja interminável.

tenho segundos e minutos,
muitos,
talvez horas ou dias,
quiçá meses,
de alguma felicidade.

mas já tenho tempo demasiado
de amargura.

 
António MR Martins, in “Severo Destino”, páginas 16 e 17, n.º 3 da série “mínima”, da Temas Originais, em 3.ª Edição, Março de 2016.  

domingo, 20 de março de 2016

Gonçalo Lobo Pinheiro





Na cidade

E a cidade adormece
Depois do ocaso forte de um dia morto.
Nada fiz, apenas assisti ao definhar do sol.
Podia lá eu salvá-lo, se a noite se ergueu.
O ar petrificou as minhas acções
Nesta noite de verão frio.
Se quiseres grito por ti,
Mas nada mais posso fazer.
Estou atado a esta ignorância nocturna
Que vai e vem todos os dias, antes de me deitar.
Pela janela vejo a cidade,
Engolida na alta noite.
O som das luzes criam em mim
Sonambulismos de chorar.
Quero dormir!
Acordar num sonho da cidade branca
E sorrir!

Gonçalo Lobo Pinheiro, in “Etéreo”, página 29, edições Temas Originais, 2010.

Último desígnio


Imagem da net, em: www.slideplayer.com.br


Sinto o tornear do sentido das coisas,
Nesta ambiguidade de mim, em mim,
Para mim.
Tudo me parece turvar a visão.
As feições das linhas curvas ou rectas,
Que adornam tudo o que me rodeia.

Há grandes dificuldades em poder clarear
E clarificar os condimentos
Neste círculo em que me mantenho
E instalo.

Tudo me parece igual,
Tudo me parece desigual,
Nestas ambivalências de ambíguo contraste.

É este sortilégio incoerente
Que me amanha o imo
De forma consecutiva e ultimadora
Neste último respirar.

António MR Martins

quinta-feira, 17 de março de 2016

João Luís Barreto Guimarães





Às dez e dez


Em Malta o dia
acontece sempre pela faixa do lado
(coisas que foram ficando da condução inglesa).
Na cidade de Mdina a
igreja usava dois relógios (um
mostrando a hora certa para chamar os fiéis
o outro a hora errada para enganar o diabo). O
demo não deveria ater-se
em assuntos do tempo
(mesmo se a hora parada acerta
duas vezes por dia)
àquela hora a cidade escapava ao mau olhado –
quer Cristo quer o relógio
esperavam-nos com um abraço aberto
nas dez e dez.
 

João Luís Barreto Guimarães, em “Mediterrâneo”, página 46, edições Quetzal Editores, Março de 2016.

segunda-feira, 7 de março de 2016

João Carlos Esteves





NA SIMPLICIDADE DA EXISTÊNCIA

no murmúrio das águas do regato
deslizam ecos sussurrados
de um tempo de desejo
e de paixão

irrequietas gotas apressadas
beijam margens
em pelejas inocentes
no caminho para a foz

na simplicidade da existência
as gotas aspiram ser mar
tal como o meu sorriso aspira
desaguar nos teus lábios

João Carlos Esteves, em “Inventei-te as manhãs”, página 59, edições Chiado Editora, Julho, 2013.  

domingo, 6 de março de 2016

Joaquim Alves





XXXII

Encontrámos aqui o vinho, o gelo, o copo, o silêncio,
num lugar ermo da terra feito e madeira velha por tempo:
o ressuscitar dos nossos sentidos e voz;
A escrita germinando
nos degraus húmidos do resistir. 

Não há inverno nem verão. Ninguém fala.
Escuta-se o rumor do vento, se o vento sopra,
o silêncio das casa, da amphora.
E há vinho: natureza fresca.
E há mel, recolhido cuidadosamente no ano anterior.
Encontrámos aqui o vinho, o gelo, o copo, o corpo.
E fizemos amor.

Joaquim Alves, in “Amar Mata”, página s/n.º, edição do autor, Dezembro 2015.  

Porto de abrigo





É no cálice do ínfimo néctar
de tuas vinhas
que emerge o som
mais inebriante
de todas as melodias da natureza.

És o cartaz mais apelativo
onde a simples mensagem
tem foros de sagaz
e espontânea
interpretação.

De ti o êxtase
que sublima o fragor
de nossos corpos
alvo de todos os sentidos,
por cada madrugada
que vai amanhecendo.

És o porto de abrigo
na sentença
que designa
o desenrolar da minha vida.

 
António MR Martins 

terça-feira, 1 de março de 2016

Lita Lisboa






Evolução geológica

Nada tenho contra as crenças,
Ou qualquer religião,
mas o Sol olhou p’ra mim
e pôs-me esta equação:

- O que será que farias
se eu deixasse de existir?

- Decerto não havia vida,
terei de admitir…
despida de preconceitos,
respondi-lhe a sorrir:

- Se vim dum Australopithecus
e um dia hei-de ser pó
qual a indecifrável disputa,
entre a Biblia e a Ciência,
que fazem parte de nós?...

Big Bang em explosão cósmica,
prótons, electrons, nêutrons…
São barrigas parideiras
de gases e poeiras
que em uniões frutuosas,
dão origem às nebulosas,
que pariram as estrelas
até que nasceu o sol?...

Mas se Deus criou o céu,
fez as flores e a Terra,
separou luzes, das trevas,
criou o Sol, as estrelas
os animais e o homem…

Qual o meu papel na Terra?
Sou filha dum asteróide,
ou nasci dum Deus Maior?

Lita Lisboa, in “ Nuances Poéticas”, páginas 78 e 79, edições Chiado Editora, Janeiro, 2016.   

Superior matéria


Imagem da net, em: www.geekness.com.br



A cortina do tempo
traz consigo a névoa
que ininterrupta
se vai reabrindo
para que a claridade pura
assuma o radiar do novo dia

por esse sedoso madrugar
surge o apelo sedutor
ao fortalecimento da vida

nesta envolvência
a contemplação do esplendor

 
António MR Martins

quinta-feira, 25 de fevereiro de 2016

Lília Tavares





SEGREDO

Quebrados
o vazio e o silêncio das águas,
segredo-te
que
o que tenho para te oferecer
nesta tarde apenas desenlaço
na intimidade dos ventos.

Lília Tavares, in “evocação das águas”, página 38, obra com desenhos de Carmo Pólvora, edições Seda Publicações, Novembro 2015.