terça-feira, 20 de novembro de 2018

João Rasteiro


João Rasteiro, imagem da net.





RECOLHO-ME ÀS SOMBRAS

Eu que ainda busco nos livros
a pétala do remanso,
o precário olhar das sombras,
a ardente melancolia do mundo,
procuro um girassol
e um madrigal corpo de cidade,
pois preciso da luz inteira
para te percorrer e fixar até ao sol.
                             *
“Versos magoam, a folha angustia.
Dão guinadas no corpo, infernais.
É o teu mal: leste poemas a mais.”
                             *
Apesar de o desejo a ter secado,
continua a inexequível viagem da ave
entre a flor e o poema
(pelo menos permaneceremos
sob a piedade que enxuga a morte).

João Rasteiro, in “Poemas em ponto de osso” (2001-2017), página 49, edição bilingue, edições Ianua Editora, 2017. Toledo(ES)/Quito(EC).

Poesia breve


Imagem da net.




O rascunho está inacessível
a as palavras
perdem-se na memória.

O verso inacabado
regela na espera da confirmação
e a sombra torna-se palidez
no burilar do poema.

Volta o rascunho,
encontra-se a palavra esquecida,
revela-se
e o verso eclode no seu todo.

Temos poema!...


António MR Martins

domingo, 18 de novembro de 2018

Alvaro Giesta


Alvaro Giesta, imagem da net.





No tempo desabitado


- ao Homem, que um dia perdeu a Luz


Quando morrermos entenderão, afinal,
que em nós havia vida:
- aqueles que nunca beijaram em algum dia
a margem do lago onde ficámos parados
e tolhidos,

ou que nunca conheceram o dentro
dessa claríssima rua
onde, tantas vezes perdidos,
rumaram sem destino a qualquer sol
sem lua;

- aqueles que nunca descobriram os lábios
da terra que lhes deu o ser
nem a espuma branca sem mar, nem o sal
nem a fome, nem o frio de sofrer,

ou que nunca conheceram a luz
mesmo quando a luz negada
se nega a iluminar a vontade e o querer.

Nesses persiste a sua teimosia cega
a refugiar-se
num silêncio mudo de dizer.

Alvaro Giesta, in “O Sereno Fluir das Coisas”, página 65, Colecção Poiesis III, coordenação de João Dordio, edições In-Finita, Outubro 2018.

quinta-feira, 15 de novembro de 2018

José Gabriel Duarte


José Gabriel Duarte, imagem na net.




CARTA DE AMOR

Se eu tivesse de escrever
uma carta de amor
não escreveria a palavra amor
nem amar
não falaria em ti
nem em mim
porque em amor
não há padrões
nem regras
nem ordem
o amor é ilógico
inusitado
tanto mais ardente
quanto menos pensado
tanto mais atraente
quanto menos ordenado.

Se eu tivesse de escrever
uma carta de amor
escreveria apenas
QUERO-TE
desde o princípio
até ao fim…

José Gabriel Duarte, in “ O Tempo e o Verso”, página 45, edições Modocromia, Fevereiro de 2017.  

terça-feira, 13 de novembro de 2018

Ansiada degustação


Imagem da net.



Me oregam os distúrbios do ventre,
ousada inquietação gástrica;
às refeições e todo-tempo entre
palato, numa rude ginástica.

Anseio alimentar tão profundo
das vísceras pendentes de comida,
avivando apetite fecundo
que me faz sarar contínua ferida.

Sobram então restos comedidos
entre todos os temperos devidos,
que se juntam para a roupa velha.

Eis, assim, a razão do balancete
assumido como simples lembrete
no desespero que me vai na telha.

António MR Martins

segunda-feira, 12 de novembro de 2018

Proteger a riqueza maior







Imagem da net.




Num secreto abraço das folhas
envolvidas com o vento andante,
colidem os desejos naturais
e profundos do mundo existencial.

As aves fazem por perdurar
o som dos seus cânticos,
ao apelo do imagético discernir
de quase todos os seres humanos.

Alguns são mais arredios
e outros menos,
mas sensibilizam-se com esta harmonia.

Há um único padrão
para continuarmos a arrepiar
o caminho da pura surpresa
e de cada novo sentir,
que simplesmente amanhece
a cada dia,
neste tesouro infinito
chamado Natureza.

Preservá-la e enriquecê-la
continuadamente.

António MR Martins

sábado, 10 de novembro de 2018

Henrique Levy


Henrique Levy, imagem na net.




NOS TEUS OLHOS

navegaste,

em silêncio desembarcaste neste lugar de encantamento que
celebra o inesperado encontro da terra com o mar, onde
marinheiros ajustam marés à lava alongada pela ilha.

vem comigo desvendar mistérios, pisar a torpeza dos ímpios,
nas águas descobrir búzios lilás, avançar por ermitérios
submersos nas profundezas do mar, despertar do sono
os que choram distâncias, remar rumo ao tormento das
mágoas, afogar a alagada escuridão, apagar ânsias em silêncio
afundadas no árido rubor riscado

nos espelhos à deriva nas águas.

- e vou estranhar dentro de mim e vou abrigar dentro de
mim o som da densidade dos espelhos quebrados, onde as
imagens de navios se ocultam embarcadas.

trazes nos lábios o sabor brando dos beijos que no mar se
desfazem em fragmentos de espelhos molhados,

dizem ser mica que brilha em cada grão de areia, mas eu
conheço o brilho dos teus olhos disperso por todas as ondas
rasgadas pelo mar…

resta ao amor o cântico da imensidão salgada, aguardando
pelo teu olhar mergulhado na praia onde me deito a
convocar a nudez do teu corpo ao longe embarcado

num atlântico navio a navegar…

Henrique Levy, in “O RAPAZ DO LILÁS”, páginas 31 e 32, edições Confraria do Silêncio, Casa da Mediana, Ribeira Grande, Ilha de S. Miguel, Açores, Outubro de 2018.

Maria Antonieta Oliveira


Foto de António Martins




SILÊNCIOS

Há silêncios entre palavras proferidas
Apenas pelo teu olhar, meu amor
Nada dizes, nada digo
Bastam nossos olhos se cruzarem
Para sabermos
O que fica por dizer.

Maria Antonieta Oliveira, in “Os Sons do Silêncio”, página 39, edições In-Finita, Outubro 2018.

sábado, 29 de setembro de 2018

Proteger a casa de todos os vindouros


Imagem da net.





Rasgo muitos caminhos escondidos
por entre destinos de tantas fontes
e nos anoiteceres esquecidos
trago mensagens de serras e montes.

Recorto na coluna vertebral
dos afagos no tempo esfumados,
neste mundo, um grandíssimo quintal,
de belos recantos tão fustigados.

Tantas palavras ditas e escritas
com atitudes deveras malditas
trazem apreensão em nossas mentes.

Há que parar o mal nesta certeza
de não machucar mais a natureza
nesta sociedade de inteligentes.

António MR Martins

quarta-feira, 26 de setembro de 2018

Baldios de esperança


Imagem da net.




Rasgam-se as terras com a máquina
do prazer, num sulcar eminente e
transviado, de odor bucólico e fervilhante.

Revolvem-se granulados de memórias
e dádivas intemporais, no seu próprio tempo
de maturação, ante o anseio
de tanta massa humana envolvida.

Quando as gotas do líquido precioso
começam a esbanjar sua premente riqueza,
no inolvidável mundo da descoberta,
logo o prenhe sentido metafórico da criação
se humedece de esperança vibrante.

Os aromas começam a empolgar
todos os ânimos.

Nesta transformação contínua
renasce o sentido natural de todas as coisas
que a terra traz à sua tona.

A esperança luminosa absorve os conteúdos
de todos os imos e o enlevo cresce
em todos os sentidos.

Um dia a terra acolherá todas as vibrações
na plena transformação de toda a matéria,
e os sentidos serão os mesmos
em contagem decrescente.


António MR Martins

terça-feira, 25 de setembro de 2018

Fátima Guimarães


Fátima Guimarães, imagem da net.




Claire de lune

Lateja-me
na pele nua
a quentura da tua seiva

nos lábios
uma sede redentora.

Deliciada fecho os olhos
deixo a tua mão descobrir
o meu corpo
e já não adormeço.

Fátima Guimarães, in “a voz do nó”, página 76, edição da Autora, Novembro de 2014.

quinta-feira, 20 de setembro de 2018

Longe de tudo


Imagem da net.





Separam-se os braços unidos
na poeira dos sentidos,
perante o agravar
das incompatibilidades entre cada ser.

Sobra um rastreio passivo
onde a sucessiva discórdia
não implementa o recurso
ao diálogo.

Tornam-se desavindos
os meios para a congruência,

nada fará mudar
tais conteúdos
neste longínquo estar
sem permanecer.

As recordações
vão ficando ténues
e o futuro distante
inacessível.

António MR Martins

quarta-feira, 19 de setembro de 2018

Sara F. Costa


Sara F. Costa, imagem da net.





Inundação

gosto  da tua face como uma espada
quando me devolves os gestos
e arrefeces o ar com o sotaque certinho.
é arte o ritmo cardíaco dos teus movimentos,
enquanto o sangue te circula veloz.
é nesta flecha libidinosa que acordas a poesia,
realças longamente o espírito,
passeias- te ostensivamente
na passerelle da coordenação motora.
não sei se é inspiração ou desejo
nos músculos do poema,
o suor impudico
inundado de ti.

Sara F. Costa, in “A Transfiguração da Fome”, página 55, edições Labirinto, colecção contramaré / 19, 2018.  

segunda-feira, 10 de setembro de 2018

Abismo letal


Imagem da net.



Medram, assim, pruridos incoerentes
singulares batidas no meu peito,
apelo a causas inexistentes
consciência perdida, sem ter jeito.

Sensações precárias, vão balançando,
no haver da inoportuna razão;
o horizonte findo, vou mirando,
acolhimento de grande adesão.

Paradigma de tanta letargia
que não muda sem algo de magia, 
perante um contínuo anoitecer.

Rede de desejos impacientes
aniquiladora sem precedentes,
resquícios pelo eterno fenecer.

 
António MR Martins

terça-feira, 24 de julho de 2018

morte repartida


Imagem da net.




a morte morreu, numa tarde
soalheira, de morte anunciada.


tal aconteceu quando
as cigarras cantavam em uníssono
o hino do desespero
e as meretrizes dançavam
escondidas
por entre os pinheiros da sobrevivência.

os seres voadores
permaneceram poisados
nos ramos da penitência
e os voos esfumaram-se
à mesma hora deste confrangedor epílogo.

todos subestimaram  
o divulgado anúncio
e as notícias ficaram arredias
de subterfúgios, sem
justificações coloridas.

a  morte morreu
de morte anunciada, em
plena tarde soalheira,
numa morte intensa
e totalmente repartida.

António MR Martins