terça-feira, 3 de maio de 2016

José Ilídio Torres






Da estranha anatomia dos ventos

vens lavar-me os pés com as minhas lágrimas
perguntas-me pelos poemas para me enxugares
e eu, como um arroto de Deus, como um sapo
expludo em pés de laranja-lima, depurado

mais tarde, no recanto absurdo de um coração
planto hortas, corto voos aos patos, mato galinhas
sou muito mais que uma navalha, o corte

rio-me de pássaros, rasuro aviões que passam
jogo à bola com um sorriso de trapos

e no mais recôndito de um afago
entre o desejo e a carne
há um veleiro morto num quintal

pode soprar o vento por umbrais
pode haver um querer maior que cais
pode haver facas onde nunca se suspeitou de
punhais

e ser até o amor, um somatório de coisas banais

 
José Ilídio Torres, in “Dissertação escusada sobre a solidão das árvores”, página 48, edições Lua de Marfim, Abril de 2016.

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