terça-feira, 24 de fevereiro de 2015

Manuela Fonseca





NÃO ME MATES SÓ POR ME MATAR

Não me mates só por me matar
Mata-me a fome
E arrecada o pão
Que não te atormenta
Para me matares amanhã
De novo.

Mata-me de olhares de amor
Não com o brilho da piedade
Não me mates de pena
Mata-me em gestos de carinho
Com afagos
Sem balas perdidas
Certeiras

Mata-me a sede
Com o copo que te enfeita as manhãs
De todos os dias
Não me mates a vergonha
De ser filho do outro lado da vida
Mata-me o silêncio
Que me escorre nas faces
Em dias de chuva
Onde purifico o corpo

Os mesmos dias em que não purificas a alma
Por não lhe conheceres a esquina do seu grito…

Não me mates só por me matar

Mata-me o princípio de ti
Que termina no resto de mim…

Depois
Se te quiseres matar
Mata-te!

Mas deixa-me ficar
Continuar neste meu sóbrio desejo
De lutar!

Manuela Fonseca, in “Poesia sem remetente”, páginas 54 e 55, edições Temas Originais, 2010.

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